Sou de Coimbra. Em Coimbra, no reino do futebol nunca houve dúvidas. A Académica, era a equipa “dos estudantes”, das capas e das batinas, do fado coimbrão (e não conimbricense, detalhe não despiciendo), do Penedo da Saudade, dos jogadores – estudantes de medicina e, porque não dizê-lo, das “elites da cidade” e um pouco também do intelecto “nacional” (embora este não o admitisse). Afinal, a Académica foi o primeiro vencedor da Taça de Portugal (e logo ao Benfica, por 4-3) e ficou em 2º lugar no Campeonato. O outro clube da cidade, era a União de Coimbra. A “União” era o clube dos operários, dos que não tinham “nível” para ser da Académica, do povo, que tinha um campo de futebol (ninguém então falava em “Estádio”) denominado “da Arregaça” (uma espécie de arregaça as mangas; bom, o da Académica não tinha designação melhor, era o “do Calhabé”…, mas isso não interessava nada, porque era o da Académica).
Quando ia ao futebol pela mão do meu pai, ia para a bancada coberta. Era ele quem pagava as quotas ao cobrador que lá ia a casa e depois, em dia de jogo “grande”, era ele quem comprava a chamada “quota suplementar” que, se bem me lembro, era sempre alvo de comentários posteriores ao jogo, relacionados com o aumento do valor relativamente à pobreza do espetáculo a que acabáramos de assistir (“não valeu a quota”). Aqui chegado (ao jogo grande), chego onde quero. Havia um jogador do Benfica, o Néné que, segundo o meu Pai, corria muito direito, ereto, com as mãos meio para fora e que nunca sujava os calções brancos, com três riscas vermelhas da adidas. Não sei se era assim, mas era o que o meu pai (e os amigos) diziam. Não dava “cacetadas”, não entrava a “pés juntos”, driblava bem, sabia posicionar-se, sabia falar e era educado. Tinha mais a ver com a postura dos jogadores da Académica e menos a ver com a generalidade dos jogadores das outras equipas. Distinguia-se pela positiva, portanto, relativamente ao que era esperado de uma pessoa que ganha a vida aos pontapés à bola.
Nessa altura, a seleção de Portugal, era uma equipa constituída por esse “outro tipo” de jogadores. Bons jogadores, mas agressivos, mal-educados e (porque não dizê-lo, uma vez que a palavra, sendo popular e informal, existe e tem boa aplicação no norte do País) “morcões”. Os morcões são pessoas preguiçosas, meias tontas, pouco inteligentes, muito boçais, sempre prontas para a briga e para o insulto. Assim era Portugal. A seleção de Portugal no meu tempo de miúdo. Sabíamos que se batiam com galhardia, mas que o resultado era quase sempre a derrota (exceto contra aquelas seleções que tinham futebol praticamente amador, como o Luxemburgo, aos quais Portugal ganhava por 9 a zero ou mais). Sabíamos também que, invariavelmente, jogadores se exaltavam, davam murros, levavam cartões vermelhos e eram expulsos.
Depois, apareceu o Figo. O Figo era diferente. Era educado, desde logo. Jogava futebol como ninguém e sabia dirigir-se aos jornalistas, falava bem, com os tempos verbais adequados. Pelo meio, tivéramos o Futre que se inseria na “categoria” dos dribladores incrivelmente rápidos, mas que quanto à forma como se expressava, ainda não estava lá. O Figo elevou o patamar. Ser jogador de futebol já não era só dar pontapés numa bola. Era ser jogador de nível internacional, foi para o Barcelona e, depois, para o Real Madrid (foi “pesetero”, numa alusão ao valor da sua transferência para o maior rival, unicamente pelo amor às pesetas, a moeda espanhola anterior ao euro. Foi viral, quando viral ainda era infeção causada por um vírus).
E pronto, a seleção “modernizou-se”. Começou a vender camisolas número 7, chegou cá o merchandising, até então relativamente desconhecido. Eis senão quando surge um jogador excecional, capaz de dribles brutais, possante, com um incrível faro de golo, chamado Ronaldo. Ou Cristiano, como preferirem. (Ah, esqueci-me de referir que, apesar de sabermos que Portugal – a seleção – nunca ganhava, havia sempre a reminiscência sebastiânica do sentimento da grande seleção de 66, do Eusébio, Coluna e Torres, como se dizia. Uma espécie de: Portugal é capaz, já foi grande e há de voltar a ser. Isto fazia com que existisse sempre no povo português aquela secreta esperança de conseguir ganhar. Ou que essa fosse a fórmula vendida para entreter o povo, o chamado “dar bolotas a porcos”. Como é que a seleção poderia ganhar, nunca ninguém sabia; aquilo que todos sabíamos é que desta vez “é que era”).
A verdade é que, com o Ronaldo, começou a ser. A seleção começou a ganhar jogos, os outros jogadores elevaram o nível técnico e já tínhamos seleção capaz de ganhar (ainda que sempre acompanhada da fé e dos símbolos, como as bandeiras em todas as janelas). A seleção começou a ganhar… jogos, porque o resto (campeonatos europeus e mundiais) isso era outra conversa. Ainda assim, a equipa jogava. E o Ronaldo decidia. Marcava golos. E que golos! Ronaldo era o novo Eusébio. Bom, igual ao Eusébio, creio que apesar de tudo, não chegou a ser, mas aí as opiniões já não são consensuais. E porquê? É no porquê que podemos compreender um pouco a realidade do que se passa hoje com Ronaldo e com a seleção.
O Eusébio tinha vindo de Moçambique, uma ex-colónia portuguesa. Para o Benfica e para a seleção de Portugal (isto, simplificadamente). Era um jogador fantástico, proveniente de zonas pobres, não “sabia falar” lá muito bem (também não fazia questão nem ninguém lhe pedia que falasse) mas tinha uma característica altamente valorizada pelas elites: era humilde. Como tal, do povo. O povo idolatrava-o e isso agrada sempre às elites. Voltemos ao Ronaldo; proveniente da ilha da Madeira, filho de Dona Dolores, que jogou no Andorinha e que veio para o Continente (dito assim, até parece uma marca de hipermercado) viver num quarto para jogar no Sporting (os quartos, ainda não custavam tanto em Lisboa, como um T3). No início, enquadrava-se no “modelo” (outro hipermercado): proveniente de origens pobres e humilde. Falar, ou melhor, expressar-se adequadamente, também não era com ele, que isto do “falar”, sempre foi difícil para os jogadores de futebol.
Acontece que o Ronaldo cresceu, como jogador. Evoluiu. Tornou-se milionário, comprou casas e hotéis (até em Portugal e Lisboa, na Av. da Liberdade, diz-se, talvez para se vingar do quarto em que vivera) encheu a garagem de Bugattis, passou a ser o jogador com mais “seguidores” do mundo, criou a marca CR7. Sendo português, extravasou Portugal. De tal forma, que passou à categoria de “embaixador”. Há até quem diga que Portugal só é conhecido por causa do Ronaldo (a célebre frase “lá fora, quando se fala em Portugal, perguntam logo: Ronaldo? Ronaldo?”…). Portanto, agora, o problema (também já político, pois claro) é aparentemente mais grave: é que Portugal corre o risco de “desaparecer”! Quase 900 anos volvidos, Portugal está em risco de extinção, graças a Ronaldo. Parece aquela história do rei que desejava tanto alcançar a Lua que acabou por engoli-la.
Há ainda um outro ponto relevante. Durante a era Ronaldo, um pouco sub-repticiamente, outros excelentes jogadores foram aparecendo. Foram também jogar para clubes estrangeiros, ganharam igualmente prémios, campeonatos, Champions e são jogadores também ricos, com bons carros. Tornaram-se, também, mais educados. Conseguiram a proeza de ser educados (não sei se tem alguma coisa a ver com os facto de já não virem de origens humildes, mas sim de escolinhas de futebol dos clubes, máquinas de dinheiro às quais já não acedem todos ou se é por uma outra qualquer razão que desconheço). A seleção tornou-se finalmente uma equipa, profissional, silenciosa (não ruidosa, aquela coisa dos murros e dos insultos aos árbitros, lembram-se?) taticamente evoluída, respeitada internacionalmente. (A Federação é outra conversa, mas, como sabemos, uma coisa é o futebol jogado de que gostamos, outra, bem diferente, são os dirigentes e as múltiplas camadas de toda a porcaria que está por trás e que o dinheiro atrai).
Acontece que chegámos então a uma seleção diferente para melhor e chegámos lá não com Ronaldo, mas, apesar de Ronaldo. Ninguém quis dizer isso ao CR7. A quem, entretanto, o dinheiro tirou a humildade. Hoje já não sabemos bem se é Ronaldo ou o ativo CR7. Ninguém lhe quis dizer que chegámos a uma realidade mais educada, da qual ele não faz parte. Ele, obviamente, não compreende. Diz que “siuuuu”, mas não compreende. Sabe que tem dinheiro (muito), seguidores e fama. Que atrai poder, embora já tenha consciência de que é pelo dinheiro, não quer acreditar que é só por isso, porque houve um dia em que o futebol que jogava falava mais alto. A Ronaldo falta perceber que, em Portugal, até pode ter uma estátua (que já tem, feia que dói, por sinal) mas nunca estará verdadeiramente num pedestal. Se conquistou o respeito das elites, isso já é outra história. (Não sei se já falei dos invejosos, que é também uma espécie de classe aqui misturada. Para além dos oportunistas ou dos miseráveis).
qui chegados, podemos finalmente dizer que tudo está bem quando acaba bem: que temos de volta o Portugal dos Pequenitos, que podemos novamente sonhar com a Lua, porque El Rei há de voltar, com botas ou sem elas. Ah, e que Jesus talvez tenha (outra vez) que ser crucificado, porque bens mais altos se podem levantar. Até do túmulo
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