Se o estreito de Ormuz expõe a dependência mundial do petróleo, os rios amazónicos revelam outra: a de um modelo industrial ainda sustentado pela remoção intensiva de recursos naturais. Sobre essa infraestrutura avança agora a pressão por minerais críticos, com requerimentos mineiros próximos de terras indígenas, unidades de conservação e territórios com presença de povos isolados.
Segundo reportagem da Repórter Brasil, publicada em outubro de 2025 com base em dados públicos, foram identificados 7718 requerimentos ativos para a exploração de 16 minerais críticos na Amazónia Legal, com processos protocolados entre 1953 e setembro de 2025. A lista inclui cobre, lítio, terras raras, níquel, nióbio, estanho, grafite, tântalo, tungsténio, urânio e outros minerais ligados à tecnologia, à transição energética e à indústria bélica.
Dentro desse universo, 1827 pedidos, 24% do total, estariam a menos de 40 quilómetros de áreas com presença de povos indígenas isolados. A análise da Repórter Brasil, feita a partir de dados da Agência Nacional de Mineração e do Observatório dos Povos Indígenas Isolados, indica pressão sobre, pelo menos, 45 grupos indígenas isolados na Amazónia brasileira.

A mesma investigação aponta uma aceleração recente. Mais de 3000 processos, 44% do total, foram apresentados a partir de 2020. O dado sugere que a corrida por minerais estratégicos ganhou intensidade à medida que esses recursos passaram a ser associados não apenas à mineração tradicional, mas também às cadeias globais da eletrificação, da transição energética, da tecnologia e da segurança.
Um levantamento posterior do Observatório da Transição Energética, projeto de jornalismo de dados da Repórter Brasil, do Inesc e do grupo PoEMAS, publicado em abril de 2026, amplia o recorte para as terras indígenas no Brasil. A análise identificou, pelo menos, 278 terras cercadas por requerimentos de exploração de minerais críticos, 44% das áreas indígenas do país. Ao todo, foram mapeados 2055 requerimentos mineiros sobrepostos ou situados a menos de dez quilómetros desses territórios, a partir do cruzamento de dados mineiros com as bases da Funai.
Os números não indicam, por si só, exploração autorizada ou atividade mineira em curso em todas as áreas. Revelam, contudo, pressão territorial formalizada em processos ativos ou requerimentos administrativos. Trata-se de um mapa de risco e disputa sobre o território, não de um inventário oficial de minas em operação.
A nova corrida mineral
A nova geografia da transição traz um risco conhecido: a criação de novas zonas de sacrifício. A Amazónia já conhece o preço das corridas minerais. Diversos locais de exploração, tratamento e refinação de minérios para exportação, destinados a abastecer grandes mercados, tornaram-se áreas de degradação ambiental e social, com danos prolongados sobre a floresta e sobre as populações que nela vivem.
A exploração mineral é nociva por natureza. Os seus rejeitos permanecem no território e, em muitos casos, os impactos acumulam-se durante décadas. Quando barragens, resíduos tóxicos e contaminação avançam sobre rios, solos e comunidades, os desastres deixam de ser acidentes isolados e passam a integrar a lógica do próprio modelo extrativo.
A mina de Serra Pelada tornou-se, nos anos 1980, o símbolo máximo da mineração predatória no Brasil. Uma cratera aberta por dezenas de milhares de homens, num cenário extremo de degradação humana e ambiental.
Não foi um episódio isolado. Foi a expressão de um modelo de ocupação da Amazónia baseado na exploração intensiva de recursos naturais, marcado por violência fundiária, precarização do trabalho e destruição ambiental.
Serra Pelada foi fechada aos garimpeiros independentes que se arriscavam na mina em busca de enriquecimento. A cena humana das décadas de 1970 e 1980 já não se repete nos mesmos termos. Mas a mineração não saiu da região. Empresas transnacionais entraram no território e criaram novas zonas de sacrifício, ainda ativas e em expansão.
Quatro décadas depois, a região volta ao centro de uma corrida global. Agora, a linguagem mudou. Fala-se em minerais críticos, insumos essenciais para baterias, energia renovável, redes elétricas e também tecnologias militares.
A nova corrida pode repetir o padrão. Territórios transformados em zonas de sacrifício, populações deslocadas e riqueza concentrada fora da região. A transição energética é urgente. Mas a disputa que se desenha é mais profunda. Trata-se de saber se ela romperá com a lógica extrativa que marcou a história da Amazónia ou se produzirá, em nome dos novos minerais, novas zonas de sacrifício sobre a floresta e os seus povos.
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