Há qualquer coisa de tragicamente cómico numa sala de cinema vazia. É a imagem de um País que vai trocando cada vez mais o ecrã grande pelo pequeno, o ritual pela pressa e o bilhete pelo login, o cinema pelas séries de televisão. Desde janeiro, Portugal perdeu 37 ecrãs e mais nove estão prestes a apagar-se: 46 no total. Maia, Viseu, Tavira, Guia, Seixal, Funchal, Gaia. Cada uma destas cidades perdeu mais do que salas, perdeu, seja como for, um ponto de encontro, um pedaço de vida coletiva, mesmo que relativa.
O Governo acordou tarde e a más horas e anunciou um “grupo de trabalho” para estudar a crise da exibição cinematográfica. Na prática, trata-se de uma espécie de terapia de casal entre os exibidores e distribuidores e os espectadores, entre o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e o Ministério da Cultura, agora com a pasta Juventude e Desporto pelo meio, talvez porque ver e exibir cinema em Portugal já é, de facto, um desporto de resistência.
A ministra Margarida Balseiro Lopes garantiu que “a desafetação de salas está no topo das prioridades”. O problema é que, em política, o topo das prioridades costuma ser o fim da lista das soluções. É o mesmo que dizer que não é uma prioridade imediata.
Não é de agora que a exibição de cinema em Portugal vive entre o desalento e o déjà-vu. As grandes cadeias – NOS, UCI, Cineplace – abandonam as cidades médias, e os centros comerciais, outrora templos da cultura pop e do consumo, preferem agora lojas de roupa, hamburguerias e praças de alimentação.
A equação “shopping + cinema + pipocas” esgotou-se. A pandemia deu o golpe final, o streaming ocupou o trono e o público aprendeu a ficar em casa, com ecrãs 4K, som surround e a Netflix a perguntar: “Ainda está aí?” Está, claro. Já não sai para ir ao cinema.
E quando se sai, exige-se mais. Já não se toleram projeções baças a meio gás; quer-se som calibrado, cadeiras limpas, legendas legíveis e uma sala sem cheiro de manteiga sintética das pipocas. Espera-se sentir que a sala foi feita para os espectadores e não apenas para vender entretenimento, pipocas e refrigerantes a oito euros o balde.
Os espectadores querem ser surpreendidos: ciclos, clássicos, filmes portugueses, estreias discretas que os levem a descobrir o inesperado. Querem que a ida ao cinema volte a ser um acontecimento, e não um passatempo.
Os exibidores falam de “experiência” como quem repete um slogan gasto. Experiência? Não é pôr música antes do filme ou encher a plateia com trailers de super-heróis durante 20 minutos. É tratar o espectador como alguém que merece respeito e isso começa na curadoria. O que funciona em Almada não tem de funcionar em Vila Real. Mas em Portugal tudo é igual: os mesmos filmes, à mesma hora, nos mesmos shoppings. É o copy-paste cultural a que chamam “rede de exibição”.
A pergunta certa não é se o País precisa de mais salas. Precisa, isso sim, de melhores salas. A resposta é simples: sim. Salas menores, bem geridas, com programação cuidada, preços acessíveis e uma boa dose de paixão. Espaços que conheçam o seu público e se adaptem a ele. Salas que saibam que o cinema não é uma linha de montagem, mas uma experiência coletiva. E que percebam que o verdadeiro inimigo não é o sofá nem o streaming, mas a indiferença dos grandes exibidores.
O público não é ingénuo. Percebe quando está a ser maltratado. Quando paga caro para ver mal, ouvir pior e ainda levar com um quarto de hora de publicidade. Quando não se sente respeitado, responde com silêncio e com o streaming, porque é mais cómodo e, por vezes, é melhor ficar em casa. O sofá ganha porque o cinema desistiu de lutar. E o sofá é um adversário temível: não fala alto, não mastiga pipocas e não atende o telemóvel a meio do filme.
O Estado, por sua vez, assiste à tragédia em poltrona VIP. O ICA fala em “estratégias” e “planos”, mas há 174 concelhos sem uma única sessão regular de cinema. Chama-se a isso desertificação cultural e não é uma metáfora. Há câmaras que investem milhões em rotundas luminosas e em equipamentos culturais que são autênticos elefantes brancos, mas que não gastam um euro em projetores digitais decentes nem em técnicos que saibam operá-los. Depois espantam-se por as pessoas já nem saberem o que é ver um filme numa sala.
Ainda assim, há resistência. Além de Lisboa, Porto e Coimbra, noutras cidades do País sobrevivem pequenas salas independentes, auditórios municipais e cineclubes teimosos que continuam a projetar o que importa, mesmo sem lucro. São as últimas trincheiras do cinema enquanto espaço vivo, de encontro e de discussão. A verdadeira resistência não é ideológica; é logística. É conseguir projetar um filme quando tudo à volta parece querer apagar a luz.
O cinema não morre porque o público o abandona. Morre quando as suas salas se tornam irrelevantes. Quando a ida ao cinema deixa de ser um evento e passa a ser um gesto inútil. Quando o “grande ecrã” já não é maior do que a indiferença coletiva.
Portugal não precisa de mais salas de cinema. Precisa de melhores salas, de curadores curiosos e exigentes, técnicos respeitados e espectadores tratados como cúmplices. Precisa de menos parques de diversões e mais templos de atenção. De lugares onde o cinema ainda tenha alma e não apenas wi-fi, blockbusters e super-heróis reciclados.
Enquanto isso não acontece, o sofá e o streaming continuarão a ganhar. Não porque sejam os inimigos das salas, mas porque são a alternativa mais confortável a um cinema que se esqueceu de ser cinema. E o mais triste é isto: quando a última sala fechar, não haverá ninguém a bater palmas. Apenas o reflexo azul de um televisor a perguntar, com frieza pixelada: “Ainda está aí?”
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