Quando a pandemia de Covid-19 paralisou o mundo em 2020, muitos acreditaram que estávamos perante um daqueles momentos históricos capazes de transformar profundamente as sociedades. De um dia para o outro, fomos confrontados com a fragilidade da vida, com a incerteza e com a necessidade de depender uns dos outros. Durante meses, assistimos a manifestações de solidariedade, entreajuda e reconhecimento coletivo da importância da comunidade.
Parecia emergir uma consciência renovada de que os problemas globais exigem respostas coletivas e de que ninguém está verdadeiramente protegido quando os outros não estão. Havia quem defendesse que, após a pandemia, sairíamos mais humanos, mais atentos ao próximo e mais conscientes do valor das pequenas coisas que tantas vezes tomávamos por garantidas.
Seis anos depois, a realidade parece contrariar esse otimismo.
As guerras continuam a devastar populações inteiras, as desigualdades persistem e os níveis de polarização social e política atingem patamares preocupantes em muitas democracias. Mas há uma transformação mais subtil, menos discutida e talvez por isso mais inquietante que é a crescente intolerância que se instalou no quotidiano.
Não se trata apenas da intolerância ideológica que domina as redes sociais ou do confronto permanente entre visões políticas opostas. Trata-se de algo mais profundo e transversal. Trata-se da incapacidade crescente de lidar com a diferença, com a contrariedade e até com os pequenos inconvenientes da vida diária.
Basta observarmos o trânsito para percebermos esta realidade. Uma manobra menos feliz, um atraso de segundos num semáforo ou uma simples disputa por um lugar de estacionamento são, frequentemente, suficientes para desencadear reações desproporcionadas. A agressividade verbal tornou-se banal. A impaciência parece ter substituído a cortesia e a compreensão.
O mesmo fenómeno repete-se em restaurantes, serviços públicos, estabelecimentos comerciais ou até em espaços de lazer. Muitas pessoas parecem viver permanentemente no limite da sua capacidade de tolerância. Qualquer atraso, qualquer erro ou qualquer divergência é encarado como uma afronta pessoal.
Vivemos num tempo marcado pela velocidade. Exige-se resposta imediata para tudo. As tecnologias habituaram-nos à gratificação instantânea, ao acesso permanente à informação e à satisfação rápida das nossas necessidades. No entanto, essa mesma velocidade parece ter reduzido a nossa capacidade de esperar, compreender ou simplesmente aceitar que nem tudo acontece ao ritmo que desejamos.
As redes sociais agravaram este problema, transformaram-se frequentemente em espaços de confronto, julgamento e hostilidade. A lógica dos algoritmos privilegia a indignação, a polémica e os conteúdos que provocam reações emocionais fortes. O resultado é uma exposição contínua a ambientes de conflito que acabam por influenciar a forma como nos relacionamos fora do mundo digital.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma crescente dificuldade em aceitar opiniões diferentes. Discordar deixou, muitas vezes, de significar debater. Passou a significar atacar, rotular ou excluir. A divergência, que deveria ser um elemento saudável de qualquer sociedade democrática, é cada vez mais encarada como uma ameaça.
Talvez por isso não seja surpreendente o aumento de episódios de violência motivados por razões aparentemente insignificantes. Nenhuma razão justifica um ato de violência extrema, mas torna-se impossível ignorar o número crescente de conflitos banais que escalam para situações dramáticas. A frequência com que estas notícias surgem nos meios de comunicação social é um sintoma de um mal-estar coletivo que não deve ser desvalorizado.
É evidente que os desafios da vida contemporânea são exigentes. A instabilidade económica, a pressão profissional, as dificuldades de acesso à habitação, a insegurança relativamente ao futuro e o ritmo acelerado do quotidiano contribuem para níveis elevados de stress. Contudo, compreender as causas não significa aceitar as consequências.
Uma sociedade onde a intolerância se torna norma é uma sociedade mais pobre. Mais pobre nas relações humanas, mais pobre na qualidade da convivência e mais pobre na capacidade de enfrentar desafios comuns. A empatia, a paciência e o respeito não são sinais de fraqueza, são condições indispensáveis para a vida em comunidade.
Talvez a principal lição da pandemia tenha sido rapidamente esquecida. Durante aqueles meses difíceis, percebemos que a vulnerabilidade é uma condição partilhada por todos, precisávamos uns dos outros e reconhecíamos essa necessidade sem constrangimentos.
Hoje, quando o mundo parece ter regressado à normalidade, seria importante recuperar parte dessa consciência coletiva. Não para vivermos em permanente estado de emergência, mas para lembrarmos que a qualidade da nossa vida depende também da forma como tratamos quem está ao nosso lado.
A intolerância não surge de um dia para o outro. Instala-se lentamente, através de pequenos gestos, pequenas agressividades e pequenas indiferenças que acabamos por normalizar. Combater essa tendência exige uma escolha diária, ouvir antes de julgar, compreender antes de reagir e respeitar antes de condenar.
Se não formos capazes de o fazer, arriscamo-nos a descobrir demasiado tarde que a maior ameaça ao nosso bem-estar coletivo não vem de fora. Está dentro da própria sociedade que construímos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.