Portugal vive um momento de desgaste profundo. Não se trata apenas de dificuldades conjunturais ou de ciclos económicos menos favoráveis. O problema é mais sério – instalou-se no País uma sensação persistente de bloqueio, de estagnação e de perda de confiança nas instituições e na capacidade coletiva de construir um futuro melhor.
Durante anos, os portugueses foram acumulando sinais de frustração. Salários baixos, elevada carga fiscal, serviços públicos degradados, dificuldade no acesso à habitação, precariedade laboral e ausência de perspetivas para os mais jovens passaram a fazer parte da normalidade. Entretanto, sucedem-se governos, alternam-se discursos e multiplicam-se promessas, mas os problemas estruturais permanecem praticamente intactos.
A classe média, durante décadas elemento estabilizador da sociedade portuguesa, encontra-se sob enorme pressão. Trabalha mais, paga mais impostos e sente que recebe cada vez menos em troca. Muitos jovens altamente qualificados continuam a abandonar o País porque não encontram condições salariais nem perspetivas de progressão compatíveis com o esforço investido na sua formação. Outros permanecem, mas presos à precariedade e à impossibilidade de alcançar autonomia financeira.
Ao mesmo tempo, os serviços públicos enfrentam dificuldades evidentes. O Serviço Nacional de Saúde vive uma crise prolongada de falta de recursos humanos, incapacidade de resposta e desmotivação dos profissionais. Na educação, a escassez de professores, o desgaste das carreiras e a perda de qualidade do ensino são sinais preocupantes para qualquer sociedade que pretenda competir num contexto global exigente.
Também as forças de segurança e as Forças Armadas enfrentam problemas de reconhecimento, atratividade e valorização profissional. Um Estado que exige tanto daqueles que o servem não pode continuar indiferente às condições que lhes oferece.
Mas existe outro problema, talvez ainda mais corrosivo: a degradação da confiança na política e nas instituições democráticas.
Os sucessivos casos de corrupção, favorecimento, tráfico de influências e promiscuidade entre interesses políticos e económicos alimentaram uma perceção crescente de impunidade e desigualdade. Independentemente das responsabilidades individuais e da ação da Justiça, a repetição destes episódios destrói a credibilidade institucional e afasta os cidadãos da participação cívica.
A política foi-se tornando excessivamente profissionalizada. Em demasiados casos, deixou de ser encarada como serviço público temporário para passar a funcionar como carreira protegida pelas estruturas partidárias. Essa lógica favorece a reprodução interna de elites políticas, dificulta a renovação e distancia os decisores da realidade concreta da maioria da população.
Entretanto, cresce um sentimento de saturação social que não deve ser ignorado nem desvalorizado. Quando as pessoas sentem que trabalham muito sem conseguir melhorar a sua vida, quando observam desigualdade de tratamento perante a lei ou quando deixam de acreditar que o mérito permite progredir, instala-se inevitavelmente um clima de revolta silenciosa.
É precisamente nesses momentos que as democracias devem saber reformar-se.
Portugal precisa de maior exigência ética na vida pública, de instituições mais eficientes, de um Estado menos burocrático e mais capaz de responder aos problemas concretos dos cidadãos. Precisa também de uma economia que valorize o trabalho, retenha talento e premeie o mérito em vez da proximidade ao poder. Mas nenhuma mudança acontecerá sem participação cívica e sem cidadãos mais exigentes perante quem governa. A democracia não se esgota no voto. Exige escrutínio, responsabilidade e recusa da resignação permanente.
Os portugueses têm razões legítimas para o descontentamento, mas não devemos ignorar que o risco começa quando esse descontentamento se transforma em apatia coletiva ou em descrença absoluta nas instituições democráticas.
Ainda vamos a tempo de inverter este caminho, mas isso exige coragem política, seriedade governativa e uma sociedade menos conformada com a mediocridade. Portugal não precisa apenas de estabilidade. Precisa de ambição, credibilidade e capacidade de mudança.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.