Embora possa parecer, o título desta coluna não é nem pretende ser alarmista. É até bem realista e ancorado na experiência recente. Não pretende ser o anúncio apocalíptico de uma catástrofe, mas apenas enunciar a interrogação urgente que precisa de ser feita: estamos preparados para enfrentar o verão mais perigoso de sempre?
Ninguém sabe, com absoluta convicção, se o verão mais perigoso será já o próximo. Mas também ninguém consegue afirmar, com um mínimo de certeza, que não será. O que sabemos, conforme os últimos dados têm demonstrado, é que estamos numa era em que as temperaturas sobem de ano para ano – nem sempre de forma linear, é certo – e em que as ondas de calor ocorrem com maior frequência e intensidade. Sabemos, igualmente, que a Europa é o continente que mais tem aquecido em todo o planeta. E também sabemos que, em Portugal, continuamos sem conseguir resolver nada de importante no ordenamento do território, em especial nas áreas florestais e de mato. Portanto, o que sabemos, quase por estatística pura e simples, é que temos uma cada vez maior probabilidade de enfrentar grandes e numerosos incêndios rurais.
Se não queremos alarmar-nos com a hipótese de podermos vir a ter o verão mais perigoso, não devíamos esquecer-nos de que, ainda há poucos meses, percebemos tarde demais que não estávamos preparados para enfrentar o pior inverno do último século. A memória ainda está bem viva: um interminável “comboio de tempestades”, rajadas de vento com a força dos piores furacões, até as águas a galgarem o leito dos rios como há décadas não se via. E o pior nem sequer foi isso. O pior foi, nos primeiros momentos, não terem sido emitidos avisos potentes e eficientes para que povoações inteiras pudessem preparar-se para o que se aproximava. Com a agravante de, nos dias seguintes, a resposta de emergência ter sido lenta e quase de improviso. Com as consequências que hoje conhecemos: quatro meses depois da Kristin, grande parte dos apoios que deviam ter sido entregues a uma velocidade ciclónica continuam a voar pelo ar… sem chegarem a quem mais deles precisa.
As altas temperaturas que se registaram nos últimos dias de maio, em Portugal e em grande parte da Europa, devem ser encaradas como um aviso. Até porque aquilo que, até há pouco tempo, considerávamos uma anomalia pode tornar-se, em breve, uma espécie de novo normal. E voltar a repetir-se, uma e outra vez, mais depressa do que era costume.
A melhor forma de nos prepararmos é, por isso, assumirmos que podemos vir a ter o verão mais perigoso de sempre. Não só por causa das condições meteorológicas que se esperam – temperaturas elevadas, ventos fortes e falta de humidade −, mas também porque o inverno deixou nos solos, em longas extensões de terreno, material altamente combustível.
Ao contrário do que sucedia ainda não há muito tempo, desta vez há quase unanimidade em reconhecer que o verão que agora se inicia será de alto risco. Mas não basta ter consciência disso. Nem as ameaças vão resolver-se só por se terem as equipas de bombeiros e de proteção civil em estado de alerta ou a linha de telemóvel pronta para acionar o mecanismo europeu de emergência, no caso de serem precisos mais meios aéreos se os incêndios se descontrolarem.
A perspetiva de um verão perigoso, depois de um inverno terrível, devia ser o impulso para nos prepararmos, a sério, para o desafio das alterações climáticas. Em todas as vertentes e prevenindo as consequências transversais que elas têm, num país como o nosso. Temos de nos preparar para os incêndios, sim, mas não deixando tudo para a fase de combate, e apostando mais na prevenção (é incompreensível o estado em que se encontram algumas matas, nos primeiros dias de junho…). Temos de preparar os hospitais e centros de saúde para os efeitos terríveis dos dias de calor numa população cada vez mais envelhecida. Temos de garantir informação precisa e eficaz sobre situações de emergência. Temos de criar uma cultura de proteção civil enraizada nas populações, desde os primeiros anos escolares, em que cada um saiba exatamente o que deve fazer em caso de catástrofe.
Temos, no fundo, de nos preparar para o pior. E de deixar de continuar à espera que venha sempre o melhor – e, depois, quando as coisas correm mal, atirar as culpas para os outros. A solução tem de estar no reforço do sentido de comunidade. Porque, em breve, mesmo que não seja já este ano, vamos ter o verão mais perigoso de sempre.