Há uma espécie de fatalidade instalada em Portugal: a de nos queixarmos do nosso atraso, mas pouco ou nada fazermos para cumprir as tarefas e obrigações a tempo e horas. Não precisávamos de ser como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas, sempre apressado de relógio na mão, mas escusávamos de nos conformar a estar no campo diametralmente oposto. Aquele em que já não nos indignamos com os atrasos e até os encaramos com o habitual encolher de ombros.
Ou antes, indignamo-nos depressa, mas apenas no momento em que nos encontramos sob maior pressão. Depois, depressa relativizamos tudo, com aquela resignação que já nos caracteriza e que é continuamente alimentada das mais diversas formas e nos mais variados locais. Todos temos exemplos dessa resignação tão entranhada sempre que se trata de cumprir horários ou prazos: embora tantos se exasperem, ninguém verdadeiramente faz nada para que sejam mais céleres os processos na Justiça; embora todos os anos se prometa reduzir os tempos de espera na Saúde, milhões de portugueses aceitam pacificamente continuar a aguardar meses para conseguirem realizar o tratamento ou exame de diagnóstico que lhes foi receitado. Da mesma maneira, achamos normal que os transportes públicos não respeitem os horários estabelecidos ou que seja aceitável haver horas de atraso para uma consulta médica, tanto nos hospitais públicos como nos consultórios privados.
A técnica do improviso e, em especial, a do desenrascanço, associadas aos esquemas, cunhas e redes de conhecimentos, têm constituído o antídoto principal para contornar os tempos de espera ou as longas demoras. Mas com um preço que depois se paga nos temas e nos casos realmente importantes: deixamos que a cultura do “continuamente atrasados” se espalhe e crie raízes profundas na sociedade.
O resultado desta cultura é o que explica, em parte, a perpetuação dos canais burocráticos que entopem serviços e, na prática, impedem a concretização de projetos e até de decisões. Quando a poucos meses do final do prazo de concretização do tão ambicionado PRR se percebe que ainda há tanto por fazer, alguém deveria sobressaltar-se em vez de só procurar desculpas. Não é admissível que um programa de muitos milhões de euros termine com uma percentagem elevada de não aproveitamento. Mas é precisamente isso que se prevê que possa acontecer, quando a própria comissão de acompanhamento do programa se alarma ao concluir que apenas 20% dos investimentos estão concluídos e 30% em linha com o planeado. O costume, portanto: quando se falham os prazos, o mais certo é haver, a partir de agora, um caminho aberto para o improviso e o desenrascanço.
Porventura ainda mais grave é o atraso que se acumula na entrega e na concretização dos apoios às vítimas das tempestades do último inverno. Até porque, ainda durante os dias da emergência, já era perfeitamente plausível que isso iria acontecer – sempre com o Governo a negar e a garantir que, desta vez, tudo iria ser feito a tempo e horas. Afinal, os piores receios acabam por se confirmar, mas sem que, mais uma vez, se deixe de considerar isto tudo “normal”.
Foi isso, aliás, que fez o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, quando admitiu, de forma absolutamente franca e sincera, que vai ser muito difícil ter as matas limpas do material derrubado pelas tempestades a tempo dos mais do que previsíveis incêndios de verão. A candura do ministro, justificada na entrevista ao Público pelo excesso de burocracia existente, é o reflexo desta nossa incapacidade irremediável de cumprir prazos e horários.
No entanto, o que este caso revela, mais uma vez, é uma absoluta incompetência na liderança, na avaliação correta dos riscos em causa e uma ausência de prioridades em matéria de proteção civil, de defesa do território e das populações. O excesso de burocracia não pode ser justificação para que se atrase a limpeza das matas, antes de mais um verão em que, com toda a probabilidade, vamos ser assolados por novas ondas de calor. Por isso, uma certeza podemos ter: se o verão correr bem, em matéria de incêndios, não se deverá ao planeamento nem ao improviso. Será apenas uma questão de sorte.