Os grandes desafios enfrentam-se com frontalidade, convicção na estratégia, noção realista das dificuldades que podem surgir-nos pelo caminho e, como válvula de segurança, mantendo viva toda e qualquer capacidade de improviso que for necessária para ultrapassar o improvável e o inesperado. De uma forma ou de outra, um pouco por todo o mundo este 2025, que agora esgota os seus últimos dias, foi um ano repleto de desafios para a maioria das nações e das pessoas. E se alguns deles podem ter parecido surpreendentes, a verdade é que a maior parte dos desafios que fomos obrigados a enfrentar coletivamente estavam há muito identificados.
Há precisamente 12 meses, nesta mesma página, escrevi que tínhamos acabado de viver o “ano zero do novo extremismo”. Um ano em que assistimos ao princípio do fim de uma certa era de globalização e de uma ordem internacional relativamente estável, mas em que se acumulavam já os indícios dos tempos turbulentos que iriam seguir-se: Donald Trump a virar os EUA de pernas para o ar, criando ondas de choque por todo o planeta; a Europa a mergulhar num dos períodos mais difíceis da sua História recente, cada vez mais dividida e irrelevante no concerto global; o discurso dos partidos de centro-direita a ser capturado pela retórica radical da extrema-direita; a esquerda perdida sem saber que rumo deve seguir; e, como semente e consequência de tudo isto, um espaço público refém da ditadura obscura e omnipresente dos algoritmos, em que cresce a polarização, renascem as piores manifestações de intolerância e se perdem, aos poucos, as noções basilares de humanismo, solidariedade e respeito pelos outros.
Em 2025, mesmo que inconscientemente, subimos mais um degrau na escalada da irracionalidade coletiva, em que se vulgarizam as tragédias, o horror passou a ser tolerado e a utilização da mentira é compreendida como uma arma normal, tanto no discurso político como no empresarial.
Os sinais já não eram novos. Quase todos os grandes debates e controvérsias que marcaram 2025 já tinham sido anunciados no ano anterior. A erupção de Donald Trump, desta vez acompanhado pela esmagadora maioria dos milionários que dominam as grandes tecnológicas americanas, apenas fez acelerar o processo – e banalizar ainda mais o clima de confronto permanente, de ataques desbragados, em que se ultrapassam todos os limites daquilo que, ainda há bem pouco tempo, classificávamos como decência – uma palavra agora caída em desuso, quase como se fosse um sinal de antiguidade.
Tudo isto que acabei de descrever não significa um sinal de pessimismo em relação ao futuro. É, admito, uma visão desencantada da realidade, magoada até nalguns momentos, nomeadamente pela forma como agora uma palavra como progresso, que associávamos a um movimento aglutinador da Humanidade, passou a ser esgrimida como mais uma proeza individualista, indiferente ao resto da sociedade.
Essa visão realista é o que permite considerar que estamos num ciclo que, como todos os outros, não durará para sempre. Estamos no início de algo novo – embora com estranhas semelhanças e ressonâncias de um passado tenebroso que pensávamos não poder ser repetível –, mas que, como sempre acontece, acabará por ter um fim. E, porventura, até mais rápido do que acontecia no passado, já que vivemos numa era em que, devido à tecnologia e à informação instantânea, tudo é mais acelerado, breve e efémero.
É nestes momentos que vale a pena refletirmos sobre como devemos enfrentar as adversidades. Qual é o nosso objetivo final e que estratégia devemos adotar. Temos visto, um pouco por todo o mundo, a forma como começa a crescer a revolta da juventude, nomeadamente nos países de maior desigualdade económica e social, mas em que os problemas são, tantas vezes, os mesmos que afetam as populações das nações mais ricas e desenvolvidas: a falta de acesso à habitação, o acesso vedado à valorização profissional, a ausência de perspetivas de futuro. Numa frase: o desencanto com um tipo de progresso que acumula cada vez mais riqueza entre uma pequena elite e deixa todos os outros abandonados a uma irrelevância, que não é admissível nem pode ser justificável.
Olhemos para esses movimentos, que irão crescer muito em 2026, com a atenção que merecem. O tempo não é de pessimismo, mas sim de resistência.