Eram sete e meia da noite e a estrada era só nossa. Chegaríamos a tempo ao concerto de fado da Carminho, no Theatro Circo, em Braga. Foram poucas as vezes em que saímos assim, só eu e a minha avó. O carro cumprimentava as curvas e eu procurava algo para ouvir, num rádio sem antena. De repente, como se quisesse romper um silêncio familiar, a minha avó começou a falar-me da sua vida. Mantive os olhos na estrada, as mãos no volante, mas os meus ouvidos eram cativos da sua voz. Estávamos apenas a uma hora de casa, mas o que a minha avó estava prestes a contar-me levou-me a um destino bem mais longínquo.
Falou-me de como tinha fugido de casa ainda adolescente, deixando a sua aldeia das Quintãs, nas encostas de Foz Côa; de como rumou à capital, à procura de si mesma e de uma vida melhor. Conseguiu trabalho como aprendiz de cabeleireira num salão de Lisboa, e ali encontrou um grupo de mulheres que a acolheu como família. Quantas delas haviam fugido também de algo, como a minha avó?
A sua aventura durou pouco. O pai dela, acompanhado pela polícia, veio buscá-la a Lisboa, e levou-a de volta para a aldeia, no Alto Douro. As amigas nada podiam fazer. Durante o Estado Novo, uma mulher solteira era propriedade do seu pai – e, uma vez casada, era propriedade do seu marido.
Em breve ficaria noiva de um homem que, segundo os pais dela, já havia desonrado a família, por namorar a filha enquanto cortejava outras mulheres na aldeia. O casamento restauraria a honra da família, diziam os pais. Casou-se contra a sua vontade.
De certa forma, ainda vivemos sob o manto dessas memórias traumáticas, dos hábitos de sobrevivência e preservação adquiridos no decorrer dessas vivências. E são essas vivências que em larga medida desconhecemos
Três malgas, três colheres e três garfos. Foi tudo o que recebeu como dote de casamento. Começava assim uma vida a dois, em Felgueiras, na terra do novo marido.
Desejei várias vezes parar o carro e ficar somente a ouvi-la, ou mesmo gravá-la a falar. Infelizmente nunca o fiz. A minha avó falava-me de um mundo que já não existe, mas que deixou marcas profundas na sua vida – e na de muitos portugueses da sua geração.
Meses depois, a minha avó morreu, numa deterioração súbita da sua saúde. Eu não estava por perto. A história da sua vida nunca ficou registada, mas o pouco que havia partilhado deixou em mim uma marca indelével.
Esmagado pela perda da esposa, o meu avô ainda ficou entre nós por mais dez anos, mas foi sempre muito difícil fazê-lo falar do passado. Contou-me apenas fragmentos de uns tempos em Angola, a trabalhar em minas, e na construção de uma enorme barragem hidroelétrica. Trabalho pesado que o deixou com fraca audição para o resto da vida. Um dia, em jeito de explicação pela quantidade de botas e sapatos amontoados à porta da entrada, confessou-me que tinha crescido a andar descalço. “Não havia dinheiro para sapatos.”
De outros membros da família, ouvi alusões de que o meu avô e mais um dos seus nove irmãos teriam ajudado pessoas a “dar o salto”, atravessando clandestinamente a fronteira com Espanha, para de lá irem para França, em busca de uma vida melhor.

Hoje chora-se a perda das gerações mais bem formadas para o estrangeiro. Naqueles tempos de ditadura emigrava-se para fugir da pobreza, com pouco mais do que a roupa que o corpo vestia.
Por vezes, não eram nem histórias que eu ouvia dos meus avós, mas comentários sobre “como era antigamente”, no tempo deles. “Partilhava-se uma sardinha entre toda a família…” Eu mesmo ainda me lembro de na minha escola primária ter colegas que chegavam de manhã com “bigode de vinho” nos lábios. Hábitos antigos que no passado taparam o que faltava em casa. O vinho, acreditava-se, dava força. Em miúdo, fazia-me impressão ver os adultos a roer as patas de galinha, depois de terminado o arroz de frango. Hoje compreendo que até isso era um luxo, nos tempos dos meus avós. Matar uma galinha era só em dias de festa.
Não é difícil perceber por que os meus avós raramente falavam do seu passado. Talvez não quisessem lembrar, reviver algo doloroso, embaraçoso. Esquecer, seguindo em frente, foi mais fácil, ou até necessário.
Talvez seja esse o maior feito de Salazar. Ainda conseguimos ouvir o silêncio.
As memórias dos meus avós, por ilustrativas que sejam, não formam uma história por si só. São pequenos fragmentos de uma História maior e escondida. Uma memória coletiva de um país sob uma ditadura fascista.
Os que por ela passaram estão a desaparecer, levando com eles essa memória. De certa forma, ainda vivemos sob o manto dessas memórias traumáticas, dos hábitos de sobrevivência e preservação adquiridos no decorrer dessas vivências. E são essas vivências que em larga medida desconhecemos. Uma cultura é a soma das histórias que contamos sobre nós próprios, enquanto comunidade.
Sou fotógrafo e realizador, e criei um projeto chamado Nas Brumas da Memória – um arquivo digital dedicado a recolher e preservar testemunhos pessoais de quem viveu o Estado Novo. Não a versão dos livros de História, mas as memórias reais de quem o viveu: o que se sentiu, o que se calou, o que nunca se disse aos filhos nem aos netos.
Um museu vivo para uma memória em vias de extinção.
O projeto está disponível em www.nasbrumasdamemoria.pt, e o convite é simples: se viveu esses anos, ou conhece alguém que os viveu, queremos ouvir a sua história. Pode fazê-lo anonimamente, com um texto escrito, uma gravação de voz ou vídeo, ou partilhando cartas, fotografias desses tempos, ou até mesmo um objeto com memória. Nada é demasiado pequeno. Nada é demasiado comum. Os livros registam a História. Nós lembramos quem a viveu. Ajude a manter viva a memória coletiva. visao@visao.pt
www.nasbrumasdamemoria.pt i
nfo@nasbrumasdamemoria.pt
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.