Há muitos anos, quando decidi juntar-me a um partido, compreendi que a associação à política inspirava dois tipos de reação por parte da maioria das pessoas: ou sentiam respeito por ter escolhido um caminho repleto de desafios ou demonstravam incredulidade por ter tomado uma opção que lhes parecia minada de associações negativas. Não levei muito tempo a descobrir que se tinha normalizado a existência de pessoas que se sentiam condicionadas a não expressar a sua posição ideológica ou partidária devido a receio de represálias por parte de empregadores ou patrocinadores.
Hoje, como então, continuamos a não poder exercer plenamente a cidadania por receio de retaliação laboral. Podia referir vários casos concretos referentes a esta incapacidade e, infelizmente, alguns nem sequer posso tornar públicos. Eu própria levei algum tempo até conseguir firmar o meu lugar numa atividade que implicou muitas perdas pessoais, mas nunca, em momento algum, considerei a hipótese de desistir.
Enquanto sociedade, temos uma difícil relação com a política, marcada por distanciamento e aversão. Algures, ao longo do caminho, as pessoas perderam a crença na capacidade do Estado de defender os seus interesses, tornando-se demasiado permeável aos interesses do grande capital.
A realidade política atual é muito mais brutal em todos os sentidos e já não aceita o silêncio como posição. Quando o artista Ed Sheeran pediu recentemente desculpa pelos erros cometidos na forma como geriu a expulsão de Macklemore da tour por este ter expressado em palco o seu apoio à Palestina, grande parte dos danos já estavam feitos. Palavras tão simples como “Free Palestine” são descritas como “uma realidade política complexa” para Sheeran, mas a verdade é que escolheu estar em cima do muro, perdendo o respeito de muitos dos seus fãs. Nas semanas anteriores a essa declaração, perdeu milhares de seguidores e preferiu ceder aos bilionários donos dos estádios que exercem aquilo a que poderíamos chamar autoritarismo corporativo.
Não há dúvidas de que o genocídio na Palestina se tornou a maior questão moral dos nossos tempos e um campo de batalha ideológico divisivo. Há poucas décadas, a comunidade internacional seria muito mais veemente e unida na sua condenação da catástrofe em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria e em todos os territórios afetados. Hoje, aceitamos o inaceitável e ainda tentam confundir-nos com argumentos frágeis e dúbios. Enquanto comunidade internacional, baixámos a nossa fasquia moral, e passaram a ser os cidadãos enquanto coletivo a exercer pressão e a denunciar os horrores da guerra, assim como as tentativas de movimentos sionistas de condicionarem o debate público. A polarização nunca foi tão grande e torna-se mais intensa. Mas a diferença é que hoje já não lidamos apenas com a passividade dos decisores políticos, ou com a brutalidade de regimes. Temos de lidar também com a influência de um grupo de detentores das maiores fortunas no planeta a interferir cada vez mais nos nossos direitos e liberdades.
O poder político não pode tornar-se cúmplice da concentração de poder económico que limita a liberdade política dos cidadãos, e não podemos aceitar que isto aconteça sem qualquer escrutínio democrático. Antigamente, quando pensávamos em ameaças à liberdade, pensávamos em termos de regime político repressivo, com partidos autoritários, controlo do sistema judiciário e prisões. A natureza do poder mudou e grande parte dele reside fora da esfera política. São sobretudo os empresários, os patrocinadores e os proprietários a controlar o espaço, o tipo de discurso e a visibilidade. Alguém com dinheiro suficiente para tornar a frase “Free Palestine” prejudicial em termos profissionais.
Há muitos anos, tomei a decisão de não permitir que o medo das consequências financeiras determinasse as minhas ações e as causas que defendo. Um dos maiores desafios que enfrentamos é o de não permitirmos que a enorme concentração de poder económico condicione a nossa liberdade de expressão, a um ponto em que só aqueles que têm capacidade financeira podem suportar as consequências. Isto deixou de ser um mero conflito de opiniões e transformou-se no lento esboroar das nossas democracias. Cabe-nos, a nós, não aceitar o silêncio.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.