Cheguei à Beira Baixa no início dos anos 90 e penso que nunca lá havia estado antes e, se estive, foi numa visita fugaz. Não conhecia aquela “região”, embora estivesse habituada a fazer trabalho de campo no âmbito da minha formação académica.
Lembro-me sempre de me dizerem: “É muito quente, a vegetação é verde-acinzentada, a paisagem é ressequida.” Ainda bem que não confiei nos ditos, porque era precisamente o contrário. Até nessa secura dos dias de verão, descobri “vagas” imensas de herbáceas douradas que mudam de direção como cabelo ao vento. E ali fiquei, muitas vezes, apenas a olhar para as planícies e a pensar na dinâmica destes movimentos, na dispersão de energia, do pólen amarelo agarrado à minha roupa e claro sempre acompanhada pela “orquestra filarmónica” das cigarras que só dão tréguas quando, à noite, são os grilos, mais brandos, que iniciam os seus chamamentos.