Ao fim de nove dias, algumas dezenas de filmes, pintxos suficientes para comprometer qualquer dieta — chuva basca regulamentar, felizmente, quase não houve, pelo contrário, dias de sol e calor — e a habitual pergunta existencial sobre porque continuamos voluntariamente a ver três ou quatro filmes por dia quando já temos idade para saber melhor, depois da exibição de Tender Loving Care, de Mike Leigh, o Festival de San Sebastián 2026 já tinha encontrado a maneira certa de acabar: entregar-lhe a Concha de Ouro. Não foi apenas o melhor prémio possível para um grande filme. Foi um daqueles momentos raros em que um festival, ao premiar alguém — neste caso uma das grandes figuras do cinema contemporâneo, que, debilitado pela idade, põe em princípio um ponto final na carreira — consegue também aumentar o seu próprio prestígio.
Tender Loving Care saiu, na verdade, de Donostia com três prémios do palmarés oficial: Concha de Ouro, Prémio do Júri para Melhor Argumento, entregue ao próprio Mike Leigh — mas tudo à distância —, e Concha de Prata de Melhor Interpretação Protagonista para Kate O’Flynn, ex aequo com Asta Kamma August, do filme norueguês Growth of the Soil, de Hans Petter Moland. Se juntarmos o Prémio Transforma — não oficial —, são quatro distinções para o filme.
E percebe-se. Leigh filmou precisamente aquilo que toda a gente anda a dizer que desapareceu do cinema: pessoas. Não super-heróis, assassinos em série, multiversos ou adolescentes escolhidos para salvar o planeta antes do intervalo. Pessoas que trabalham, envelhecem, cuidam umas das outras, bebem um copo, falham, voltam para casa e tentam perceber como continuar. Duas assistentes sociais, um casal idoso, uma família, um sistema público que começa a perder parafusos e, sobretudo, humanidade.
Uma Concha que vale uma carreira
Mike Leigh tem 83 anos e admitiu durante o festival que é “mais do que provável” que este seja o seu último filme. Se for mesmo assim, termina de maneira quase obscenamente perfeita: Palma de Ouro em Cannes por Segredos e Mentiras, Leão de Ouro em Veneza por Vera Drake e agora Concha de Ouro em San Sebastián. Não são muitos os realizadores que conseguem fechar o currículo fazendo o circuito pelos três grandes aquários europeus e levando o peixe maior para casa.
Porém, seria injusto transformar Tender Loving Care apenas numa espécie de prémio de carreira. O júri presidido por Ira Sachs premiou um filme, não um cartão de cidadão cinematográfico. O argumento tem aquela precisão aparentemente desarrumada que é uma das especialidades de Leigh: ninguém parece estar a dizer uma frase importante até percebermos, cinco minutos depois, que acabámos de ouvir uma vida inteira. E Kate O’Flynn, justamente premiada pela sua interpretação, merece também a Concha de Prata porque faz exatamente aquilo que os grandes atores de Leigh sempre fizeram: parece não estar a representar.
Já tinha escrito aqui durante a semana que não queria olhar para Tender Loving Care como um testamento. Continuo a não querer. Os testamentos fecham portas; este filme abre-as. Há nele uma defesa quase insolente da compaixão numa época em que o cinismo passou a ser confundido com inteligência. Leigh dizia que o filme partia da ideia de que “nunca deixamos de ser seres humanos” e recusava que fosse entendido como escapismo romântico. Talvez seja precisamente isso que a Concha de Ouro 2026 premiou: um cineasta que ainda acredita que observar alguém com atenção é um ato político no sentido mais elementar da palavra: viver em sociedade.
Rebordinos sai pela porta grande
A escolha ganha ainda outra dimensão por esta ter sido a última edição dirigida por José Luis Rebordinos, que comanda o festival desde 2011 e será substituído, em janeiro de 2027, por aquela que tem sido o seu braço-direito nos últimos anos, Maialen Beloki. Rebordinos transformou San Sebastián sem tentar transformá-lo em Cannes com chuva ou Veneza sem canais. Reforçou a indústria, aproximou o festival do público, consolidou a ligação ao cinema espanhol, percebeu a importância de Toronto como parceiro natural e, sobretudo, soube aquilo que Donostia podia ser, em vez de passar quinze anos a desejar aquilo que nunca seria.
Nem sempre teve uma Competição Oficial irresistível. Este ano também houve filmes que dificilmente sobreviverão à limpeza do disco rígido da nossa memória. Mas houve Mike Leigh, Jesse Eisenberg, Pablo Larraín, Hans Petter Moland, Amanda Kernell, Ah Biao e um cinema espanhol que já não vem ao festival apenas ocupar quota nacional: vem mostrar serviço.
Entregar a última Concha da era Rebordinos a Leigh tem, por isso, uma elegância involuntária. Rebordinos despede-se oferecendo ao palmarés um dos grandes nomes do cinema contemporâneo. E Leigh talvez se despeça acrescentando San Sebastián aos grandes festivais que marcaram a sua carreira. Um saiu do festival, o outro talvez saia do cinema. Nenhum precisava de discursos de despedida.
Um palmarés com poucas maluqueiras também é notícia
O Prémio Especial do Júri para Border, de Ah Biao, recompensa precisamente aquilo que o filme tem de mais perturbador: não tenta ser agradável. Sexual, físico, por vezes agressivamente livre na forma, anuncia um cineasta que ainda não sabe — felizmente — comportar-se. O próprio júri destacou a ousadia formal, a explicitude sexual e a emergência de uma nova voz no cinema mundial. Concordemos ou não com tudo o que o filme faz, ninguém sai dele a perguntar quem o realizou. Esperemos novidades em breve deste ainda jovem realizador chinês.
A realizadora sueca Amanda Kernell recebeu justamente a Concha de Prata de Realização por Garrat du váimmu / Brace Your Heart. O filme conta a história de Ejva, uma jovem criadora de renas que herda o rebanho do pai falecido e enfrenta uma violenta espiral de ciúmes e traumas na comunidade depois de se apaixonar. A obra explora a sua luta pela sobrevivência, pela identidade e pela cura emocional no norte do território Sápmi. Trata-se de um filme cuja força está menos na proclamação do que na maneira como observa uma jovem a tentar ocupar um território tradicionalmente masculino. É cinema de identidade sem cartazes pendurados ao pescoço.
E Growth of the Soil, do norueguês Hans Petter Moland, levou dois prémios: interpretação protagonista para Asta Kamma August, partilhada com Kate O’Flynn, e fotografia para Oskar Dahlsbakken. Também aqui a decisão se compreende. Moland fez um épico rural à antiga, com terra, clima, corpos e paisagem, e Dahlsbakken fotografou aquela natureza não apenas como se fosse um retrato ou tirasse partido da bela paisagem norueguesa, mas como uma personagem que também trabalha, castiga e envelhece.
O conhecido ator espanhol Javier Cámara, ganhou a Concha de Prata de Interpretação Secundária por 5 Minutos Más, de Javier Ruiz Caldera, uma comédia de ficção científica que foi, sem dúvida, um dos melhores filmes do festival. Mistura comédia cruel, crise conjugal, ficção científica e uma espécie de terror psicológico num mecanismo temporal sufocante, elevado pela química brilhante do elenco e pelo argumento inteligente de Berto Romero. E há, claro, Javier Cámara, capaz de transformar cada silêncio, olhar ou embaraço numa pequena cena dentro da cena. Talvez seja o prémio mais fácil de explicar: Cámara consegue aparecer num filme em que o tempo recua cinco minutos e fazer-nos acreditar que aquilo é apenas mais uma segunda-feira complicada. Já tinha ganho em 2015, por Truman, juntamente com Ricardo Darín. Infelizmente, ficou sem prémio The Debut, do ator agora realizador norte-americano Jesse Eisenberg, com Julianne Moore em grande destaque e uma das grandes surpresas desta edição e, para mim, uma das ausências mais difíceis de justificar na atribuição dos prémios. Mas enfim, um festival onde o nosso palmarés pessoal coincide exatamente com o do júri é, na maioria das vezes, uma enorme exceção.
O cinema espanhol sempre a ganhar
Este, depois de Cannes foi, aliás, outro festival a confirmar o grande momento do cinema espanhol. Não porque tenha varrido o palmarés oficial — não varreu —, mas porque atravessou todas as secções, registou presença industrial, mobilizou público e voltou a demonstrar uma variedade que há alguns anos parecia improvável.
5 Minutos Más levou Javier Cámara à Concha de Prata; La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, venceu o Prémio do Público da secção Perlak; e as produções espanholas continuaram a aparecer entre prémios, secções e conversas de corredor. San Sebastián tornou-se uma rampa de lançamento privilegiada para este cinema precisamente durante os anos Rebordinos. Sobretudo num país onde, durante décadas, dizer “cinema espanhol” numa bilheteira podia provocar reações semelhantes às de anunciar uma consulta no dentista.
O público, aliás, escolheu A Bola Negra, da dupla Javier Calvo e Javier Ambrossi, vencedores do Prémio de Realização no último Festival de Cannes, filme que já tem estreia marcada para 5 de novembro em Portugal. Talvez porque os Javis entenderam há muito uma coisa que às vezes o cinema de autor esquece: comunicar bem com o público não é necessariamente uma concessão artística.
Também NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, depois do Prémio Especial do Júri em Veneza, recebeu em Donostia o Prémio do Público para Melhor Filme Europeu. O filme continua, assim, uma trajetória de festival em festival que prova que há documentários capazes de abandonar a gaveta reservada às “obras importantes” e entrar diretamente na conversa pública.
Nas outras secções, Body of Glass, de Naëmi Ada, venceu New Directors; La ilusión de un verano sin fin, de Alessandra Sanguinetti, ganhou Horizontes Latinos e também o Prémio da Juventude; e Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, de Jane Schoenbrun, que estreou esta semana por cá em Portugal, levou Zabaltegi–Tabakalera. Uma boa escolha para um filme que pega no velho slasher, no desejo, no género, no VHS e na nossa memória cultural e lhes enfia uma faca onde menos esperávamos.
San Sebastián 2026 termina, portanto, sem revoluções mas com uma bela sensação de coerência. Mike Leigh ganhou porque fez um grande filme. Kate O’Flynn porque foi extraordinária. Javier Cámara porque continua incapaz de fazer uma personagem banal. Ah Biao porque arriscou. Amanda Kernell porque soube filmar. O cinema espanhol saiu outra vez mais forte do que entrou. E José Luis Rebordinos deixou o Kursaal pela última vez como diretor, tendo conseguido aquilo que talvez seja a única verdadeira medida do sucesso de um programador: deixar o festival melhor do que o encontrou.
No último plano de Tender Loving Care, Mike Leigh volta praticamente ao rosto com que tinha começado. A vida continua, parece dizer. Em Donostia também. Só mudam os nomes na porta.
PALMARÉS — 74.º FESTIVAL DE SAN SEBASTIÁN
Concha de Ouro: Tender Loving Care, Mike Leigh
Prémio Especial do Júri: Border, Ah Biao
Concha de Prata — Realização: Amanda Kernell, Garrat du váimmu / Brace Your Heart
Concha de Prata — Interpretação Protagonista: Kate O’Flynn, Tender Loving Care, e Asta Kamma August, Growth of the Soil (ex aequo)
Concha de Prata — Interpretação Secundária: Javier Cámara, 5 Minutos Más
Melhor Argumento: Mike Leigh, Tender Loving Care
Melhor Fotografia: Oskar Dahlsbakken, Growth of the Soil
New Directors: Body of Glass, Naëmi Ada
Horizontes Latinos: La ilusión de un verano sin fin, Alessandra Sanguinetti
Zabaltegi–Tabakalera: Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun
Prémio do Público: La Bola Negra, Javier Ambrossi e Javier Calvo
Prémio do Público — Melhor Filme Europeu: NAZA, Yuval Abraham e Rachel Szor
Prémio da Juventude: La ilusión de un verano sin fin, Alessandra Sanguinetti
RTVE — Otra Mirada: Soudain, Ryusuke Hamaguchi
Prémio Zinemira: Txakun txakür, Elsa Oliarj-Inès.