Há praias onde nos apetece ficar ainda antes de estender a toalha. Foi assim que me senti quando cheguei à Praia do Creiro, na serra da Arrábida, em Setúbal. A serra abriga a enseada, a brisa chega leve e a água oscila entre o azul e o verde-esmeralda. A minha neta corria entre a água e a areia como se o verão tivesse sido inventado só para ela. Entrava e saía do mar à procura de pedras lisas e conchas. Para ela, eram tesouros. Houve um tempo em que eu achava que a felicidade cabia inteira num gelado, num dia de calor. Mas na verdade a felicidade estava em tudo o que acontecia à volta dele. Entre mergulhos, perguntei-lhe:
O que te apetece comer?
Nem hesitou.
Posso comer um gelado?
Fomos de mão dada até ao quiosque. Quando eu era pequena, os gelados chegavam à praia carregados ao ombro, ao pregão de “olhó gelado, é prò menino e prà menina”. Hoje, esperam-nos em quiosques coloridos, enquanto pelo areal passam vendedores com as irresistíveis bolas de Berlim. Mudaram os tempos, mas a praia portuguesa continua a construir-se à volta destes pequenos rituais. As geleiras trazidas de casa são muitas vezes um reflexo do que já temos na cozinha. Aproveitam-se ingredientes, transformam-se sobras, inventam-se sandes e saladas, junta-se fruta e, claro, o gelado. Há uma gastronomia de praia que raramente aparece nos livros de cozinha, mas faz parte da nossa memória coletiva. Há sabores que pertencem a uma estação. Como as sardinhas em junho ou as castanhas no outono, o gelado continua a saber a verão. Podemos comê-lo o ano inteiro, mas sabe diferente com os pés na areia e o corpo salgado. Até o mais simples dos prazeres de verão aprendeu a falar a linguagem do tempo. Aos sabores da nossa infância juntaram-se gelados artesanais, versões sem açúcar, veganas ou sem lactose. A minha neta observou as fotografias com a solenidade de quem toma uma decisão importante e escolheu um gelado de fruta e água. Por segundos pensei que um de leite teria mais proteína e cálcio. Foi um pensamento breve. Há batalhas que não valem a pena quando estamos diante de um par de olhos escuros absolutamente convencidos de que aquele é o gelado certo. E quem sou eu para discutir com a felicidade? O gelado era enorme e tinha um adversário impossível de vencer: o mar. Ela dava um mergulho, voltava para uma dentada e corria novamente para a água. Quando dei por mim, era eu quem estava a comê-lo. E veio a culpa silenciosa dos adultos. Enquanto eu fazia contas ao açúcar, ela já estava dentro de água, feliz porque encontrara uma concha diferente. Já nem se lembrava do gelado. Eu ainda estava a pensar nele. As crianças entregam-se por inteiro ao momento. Quando comem um gelado, comem um gelado. Quando entram no mar, entram no mar. Nós estamos quase sempre um passo à frente. Quando comemos, contamos calorias. Quando descansamos, pensamos no trabalho. Quando estamos na praia, pensamos no trânsito do regresso. Agosto avança e começa a lembrar-nos de que o verão não dura para sempre. Os dias encurtam e contamos os fins de semana de praia que ainda restam. É nessa altura que um gelado parece saber ainda mais a verão. Como se fosse possível prolongá-lo mais uma dentada. Quando saímos da praia, a minha neta levava um saco de pedras e conchas. Mais tarde, espalhou-as sobre a bancada da cozinha como quem regressa de uma grande expedição. Olhei para aquele pequeno tesouro e percebi que eu também trazia o meu. Não cabia num saco. Era a recordação de um gelado interrompido por um mar bonito demais para esperar. E a certeza de que a felicidade continua exatamente onde sempre esteve. Nas coisas pequenas, à espera de que tenhamos tempo para as viver.