O seu corpo está preparado para a vida que ainda quer viver?
Nas últimas semanas, enquanto estava de férias, dei por mim a observar corpos. Muitos corpos. Diferentes idades, tamanhos, formas e histórias.
E percebi que não estava a pensar em estética.
Estava a pensar em saúde.
Ou, mais concretamente, em futuro.
Talvez a praia seja um dos poucos lugares onde vemos corpos reais em toda a sua diversidade. Sem a roupa que habitualmente os esconde, sem os enquadramentos cuidadosamente escolhidos das redes sociais e sem a ideia de perfeição que durante décadas nos foi vendida.
E ainda bem.
Um corpo não deve ser motivo de julgamento. Muito menos podemos olhar para alguém e concluir, apenas pela sua aparência, como se alimenta, quanto exercício pratica ou qual é o seu estado de saúde.
Mas há uma reflexão que não devemos evitar por receio de falar sobre corpos: a forma como estamos a cuidar deles terá inevitavelmente consequências na forma como viveremos os próximos anos.
E esta já não é uma questão estética. É uma questão de saúde e de longevidade.
Durante demasiado tempo, reduzimos a conversa sobre o corpo ao peso. Quantos quilos temos. Quantos queremos perder. Qual é o número que aparece na balança depois das férias.
Mas o peso, isoladamente, conta-nos muito pouco sobre a forma como estamos a envelhecer.
Duas pessoas com exatamente o mesmo peso podem ter composições corporais completamente diferentes. Uma pode apresentar maior quantidade de massa muscular e menor acumulação de gordura visceral; outra pode ter pouca massa muscular e maior quantidade de gordura metabolicamente ativa na região abdominal.
O número na balança pode ser semelhante.
O risco para a saúde pode não ser.
É por isso que precisamos de começar a falar mais de composição corporal, força e capacidade funcional.
A massa muscular, por exemplo, é muito mais do que aquilo que associamos a um corpo atlético. É um verdadeiro órgão metabólico e uma reserva funcional fundamental para o envelhecimento.
É o músculo que nos permite subir escadas, transportar compras, levantar-nos de uma cadeira, brincar com os filhos ou netos, recuperar de uma doença e continuar independentes ao longo dos anos.
E começamos a perdê-lo progressivamente muito antes de nos considerarmos “velhos”, sobretudo se não lhe dermos estímulo através do movimento e, particularmente, do treino de força.
Quando essa perda se torna significativa e compromete a força e a função, entramos no território da sarcopenia, uma condição associada a maior risco de quedas, fragilidade, perda de autonomia, hospitalização e mortalidade.
Por isso, quando penso em longevidade, interessa-me muito menos saber se alguém consegue vestir o mesmo tamanho que vestia aos 25 anos do que perceber se, aos 70, conseguirá levantar-se do chão sem ajuda.
Esta mudança de perspetiva é fundamental.
Também precisamos de conseguir falar sobre obesidade com maturidade.
A obesidade é hoje reconhecida como uma doença crónica, complexa e multifatorial. Não é simplesmente o resultado de “comer demais e mexer-se pouco”, muito menos uma demonstração de falta de força de vontade.
Genética, ambiente, condições socioeconómicas, padrões de sono, stress, saúde mental, determinados medicamentos, mecanismos hormonais e metabólicos e comportamentos interagem de formas diferentes em cada pessoa.
Reconhecer a obesidade como doença não significa julgar quem vive com ela. Pelo contrário. Significa deixar de a tratar como uma falha de carácter ou uma simples questão estética e começar a encará-la com a complexidade clínica que exige.
Mas retirar o julgamento da conversa também não significa retirar a saúde.
O excesso de tecido adiposo, sobretudo quando existe acumulação de gordura visceral e disfunção metabólica, está associado a maior risco de diabetes tipo 2, doença cardiovascular, alguns tipos de cancro, doença hepática e outras condições crónicas.
Podemos — e devemos — falar sobre esses riscos sem diminuir a dignidade de ninguém.
Tal como devemos reconhecer o contrário: um corpo magro não é automaticamente um corpo saudável.
Uma pessoa pode apresentar um peso considerado normal e, ainda assim, ter pouca massa muscular, baixa capacidade cardiorrespiratória, excesso de gordura visceral, alterações metabólicas, dormir mal, ser sedentária ou alimentar-se de forma pouco equilibrada.
A aparência nunca deve substituir uma avaliação de saúde.
Talvez seja precisamente por isso que precisamos de mudar a pergunta.
Em vez de perguntarmos constantemente “quanto peso?”, talvez devêssemos perguntar: quanta força tenho?
Como está a minha composição corporal?
Consigo subir vários lanços de escadas sem dificuldade?
Tenho mobilidade suficiente para me baixar e voltar a levantar?
O meu corpo permite-me fazer aquilo que gosto?
E estará preparado para continuar a fazê-lo daqui a vinte ou trinta anos?
Estas perguntas mudam completamente a relação com o corpo.
Deixamos de o tratar como um objeto que precisa de corresponder a determinado padrão estético e começamos a vê-lo como aquilo que realmente é: a estrutura que terá de nos acompanhar durante toda a vida.
E talvez o final das férias seja um momento particularmente interessante para fazer esta reflexão.
Setembro aproxima-se e, com ele, regressam as promessas.
“Agora vou perder peso.”
“Agora vou voltar ao ginásio.”
“Agora vou fazer dieta.”
Durante algumas semanas, tentamos compensar excessos, recuperar rapidamente aquilo que acreditamos ter perdido e regressar ao número que consideramos ideal.
E se este ano fizéssemos diferente?
E se setembro não fosse o mês de começar mais uma dieta, mas o momento de começar a construir o corpo de que vamos precisar no futuro?
Talvez isso signifique iniciar treino de força duas ou três vezes por semana.
Caminhar mais.
Interromper períodos prolongados sentado.
Garantir proteína adequada ao longo do dia.
Comer mais alimentos pouco processados.
Dormir melhor.
Beber água.
Avaliar a composição corporal e alguns indicadores metabólicos quando existe indicação para isso.
E, quando necessário, procurar acompanhamento profissional em vez de iniciar mais uma solução rápida encontrada nas redes sociais.
Nada disto produz transformações espetaculares numa semana.
Mas a longevidade nunca foi construída numa semana.
É construída através da acumulação silenciosa de escolhas suficientemente boas, repetidas durante anos.
Talvez também precisemos de fazer as pazes com outra ideia: cuidar do corpo não significa rejeitá-lo como ele é hoje.
Podemos respeitar o nosso corpo e, simultaneamente, reconhecer que existem aspetos da nossa saúde que precisam de mudar.
Podemos praticar aceitação sem cair na resignação.
Podemos querer melhorar sem viver em guerra connosco.
E podemos retirar definitivamente a estética do centro desta conversa.
Porque chegar aos 70, 80 ou 90 anos com força para caminhar, viajar, carregar uma mala, brincar com os netos, levantar-se sozinho e continuar a escolher como queremos viver parece-me infinitamente mais interessante do que caber num determinado tamanho de roupa.
Se a longevidade se constrói todos os dias, talvez a pergunta não seja: “Gosto do corpo que vejo ao espelho?”
Talvez exista uma pergunta muito mais importante: “Este corpo está a permitir-me construir a vida que quero continuar a viver?”
Porque cuidar do corpo não é prepará-lo para o próximo verão.
É prepará-lo para os próximos trinta anos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.