A nostalgia é um direito novo na China, observou a escritora Jung Chang a propósito da “descontração” que emergiu no país após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, e a condenação da Grande Revolução Cultural Proletária, seis anos mais tarde. “Pela primeira vez, os chineses podem ter saudades de um tempo diferente daquele em que vivem”, comentou a autora de Cisnes Selvagens num encontro com correspondentes estrangeiros em Pequim, em 1993. Tinham acabado de abrir na cidade vários restaurantes decorados com propaganda da Revolução Cultural e empregados de mesa vestidos ao estilo dos jovens guardas-vermelhos que aterrorizavam os “seguidores do capitalismo”. “Há mais liberdade pessoal”, disse Jung Chang. “O controlo social não tem qualquer comparação com o que era no tempo de Mao.” A morte do antigo primeiro-ministro Zhu Rongji, na semana passada, também suscitou uma onda de nostalgia.
“Éramos pobres (…) Deslocávamo-nos de bicicleta e só no Ano Novo Chinês podíamos comprar roupa nova. Contudo, havia luz nos olhos das pessoas e um sentido de estar com os pés na terra. O amanhã era algo que elas podiam ver”, escreveu Zhao Jian, um economista que entrou na idade adulta quando Zhu Rongji dirigia a política económica da China. “A vida era difícil, mas era uma dificuldade sustentada pela esperança (…) Agora temos abundância material, escolhas, arranha-céus, ruas cheias de trânsito (…) Porque é que nos sentimos interiormente tão vazios?”
“O último reformista”, como lhe chamou a revista The Economist, foi vice-primeiro-ministro e depois chefe do governo entre 1991 e 2003. Liderou a transição do país para a economia de mercado, reformou o sector estatal e conduziu as negociações que culminaram com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Na imprensa ocidental chegaram a identificá-lo como “o Gorbachev da China”, um título suscetível de arruinar qualquer carreira política. “Não sou o Gorbachev da China”, protestou. “Sou o Zhu Rongji da China.” Nunca foi formalmente o número um, essa era a posição do secretário-geral do Partido Comunista, Jiang Zemin. Mas teve sempre uma voz própria e um estilo inconfundível. Falava de improviso, com humor e vivacidade. Era direto e pragmático.
No verão de 1990, durante uma visita aos EUA, Zhu explicou aos anfitriões que ambos os países tinham “sistemas económicos mistos”: “Embora sejam capitalistas, precisam de planeamento, e nós, socialistas, precisamos de bastante mais mercado.” Era então presidente da câmara de Xangai, a capital económica da China e sede da primeira Bolsa de Valores aberta no país depois da tomada do poder pelo Partido Comunista.
A proeminência adquirida por Zhu ilustra a ideia de liderança coletiva defendida desde o início dos anos 80 pelo “arquiteto-chefe da Reforma Económica e Abertura ao Exterior”, Deng Xiaoping. Um jornal de Hong Kong classificou agora o antigo primeiro-ministro como “engenheiro-chefe” dessa política.
A era Xi Jinping, iniciada em 2012, é diferente. Além dos três cargos ocupados pelos seus antecessores (secretário-geral do PCC, presidente da República e presidente da Comissão Militar Central, a liderança política das Forças Armadas), Xi preside vários organismos dirigentes da máquina partidária, nomeadamente sobre Segurança Nacional, Ciberespaço, Economia e Finanças e Negócios Estrangeiros. O limite de dois mandatos na chefia do Estado foi eliminado da Constituição e a um ano do próximo congresso do Partido Comunista ainda não se perfila um sucessor. No outono de 2027, Xi poderá iniciar um quarto mandato consecutivo na direção do PCC, mantendo-se mais cinco anos no “cargo político mais importante” do país.
O atual primeiro-ministro, Li Qiang, que tomou posse em março de 2023, continua a ser uma figura secundária. A única conferência de imprensa anual do chefe do governo, realizada após o encerramento da reunião plenária da Assembleia Nacional Popular e transmitida em direto pela televisão, foi mesmo abolida. O emotivo obituário escrito pelo economista Zhao Jian desapareceu do WeChat, o WhatsApp chinês, um dia depois da sua publicação. Segundo assinalou a newsletter Sinification, a nostalgia, neste caso, tocou num “nervo sensível”.
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