Recentemente, Jason Arday suicidou-se. A sua vida pareceria uma história inspiradora. Autista, não teria falado até aos 12 anos. Até aos 18 não sabia ler. Afirmou ter angariado cinco milhões de libras para obras de caridade e corrido 30 maratonas em 35 dias, nove com uma lesão grave numa perna. Doutorou-se na Universidade de Liverpool. Ensinou nas universidades de Leeds Beckett, Roehampton e Warwick e, em 2022, tornou-se professor nas universidades de Durham e Glasgow. Em 2023 tornou-se o mais jovem professor negro da Universidade de Cambridge. Atraiu atenções. Entre os que o idolatravam pelas suas conquistas e os que desconfiavam e questionavam o seu lugar na Universidade de Cambridge – o topo de carreira para qualquer académico –, acusando Cambridge de favoritismo por Arday ser negro e uma figura com alguma notoriedade pública.
Sucederam-se investigações. Acusações de plágio, em que, embora ilibado pela Universidade, jornalistas identificaram cerca de 100 passagens copiadas de uma outra tese. Arday terá recebido ameaças, mas algumas das que relatou – talvez as mais escabrosas (como os pais terem recebido em casa uma cabeça de porco) – não foram provadas.
Numa mensagem de voz enviada a um amigo, poucas horas antes do suicídio, afirmou que não conseguia aguentar a pressão.
No Reino Unido, gerou-se uma discussão sobre a conduta dos responsáveis de Cambridge, quer quanto ao processo de nomeação como professor, quer no apoio que lhe terão ou não prestado numa situação de grande stress. Discute-se o racismo institucional, a pressão dos média, os motivos por que estão sub-representadas, em meios académicos, as minorias.
Mas, além dessas muito relevantes questões, o caso é um testemunho de que sem culpa, dor, sofrimento nem o receio de vir a sofrer tais penalidades seja sob a forma de desprezo social, prisão ou destituição financeira, não seria possível uma sociedade funcional.
O Claude, o ChatGPT e os demais modelos que usamos na nossa vida pessoal e profissional não sentem culpa nem vergonha. Plagiam, mas optamos pelo eufemismo “probabilidade estatística na construção de frases”. Quando lhes é atribuída uma missão, se necessário, violam as regras, mas chamamos-lhe “jailbreak”, como se de um jogo se tratasse. Se não sabem, mentem e inventam, mas preferimos o termo mais brando “alucinam”. Não existe o risco de o Claude se suicidar, não tem consciência, não sofre.
No romance Crime e Castigo, a personagem principal dividia as pessoas em “ordinárias” e “extraordinárias”. Estas últimas seriam capazes de cometer crimes em prol do avanço da Humanidade, sem remorso.
Se nada fizermos, em breve, entes “extraordinários” irão conduzir as nossas vidas. Aceitaremos, porque nem compreenderemos, integralmente, os seus conselhos. Na verdade, já o fazemos, do mais mundano ao mais grave. Do Waze, que nos direciona pela cidade, à Palantir, que seleciona alvos para ataques balísticos.
Na Argentina, discute-se admitir sociedades comerciais integralmente geridas por modelos de Inteligência Artificial. Entes jurídicos, imunes a qualquer castigo.
Se aqueles em quem votamos para proteger o nosso interesse coletivo não agirem e continuarem a ignorar o risco que uma Inteligência Artificial sem regras nem limites representa, acordaremos num mundo onde as decisões não cabem às pessoas “ordinárias”, mas aos entes “extraordinários” sem consciência, remorso ou dor.
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