O histórico militante do CDS-PP, Narana Coissoró, morreu neste sábado, 29 de agosto, informa uma nota de pesar do partido que o enaltece “pelo rigor do pensamento, pela força da palavra, pela firmeza nos valores e nas convicções e pela defesa corajosa de causas”. Tinha 94 anos.
Militante dos centristas desde a primeira hora, o advogado foi eleito para a Assembleia da República logo na primeira legislatura após o fim do Estado Novo, tendo permanecido no Parlamento em dois períodos distintos, primeiro entre 1976 e 1995 (de 1978 a 1991 no papel de líder parlamentar) e, depois, entre 1999 e 2005 (em funções de vice-presidente da casa da democracia), num total de oito legislaturas e 25 anos.
Nascido em 1931, em Goa, à época território português, no seio de uma família hindu ortodoxa, Narana Coissoró veio para Portugal aos 18 anos, com o propósito de tirar o curso de Direito, obtendo a respetiva licenciatura na Universidade de Coimbra. Mais tarde, haveria de doutorar-se em Ciência Política, na Universidade de Londres.
Em 1998, em declarações à VISÃO para um artigo sobre como se vivia o amor em vários pontos do mundo, Narana contou que tinha posto de lado certas tradições da religião hindu para poder casar pelo civil, aos 26 anos, com a sua mulher, uma portuguesa das Caldas da Rainha por quem se apaixonou e de quem tem uma filha, sua única descendente. Tinham passado quase 40 anos do casamento e assumia o seu conceito de família: “Mantenho a ideia de que sou o principal responsável pelo seu bem-estar. Seria totalmente impensável divorciar-me. Porque, para mim, o amor não é apenas uma dádiva entre um homem e uma mulher, mas antes um nó cultural no qual estão entrelaçados vários sentimentos e a memória do nosso passado familiar e cultural.”
Já reformado da política, e também da advocacia e da carreira de professor universitário, o emblemático militante do CDS haveria de revelar, numa entrevista ao portal Sapo por ocasião dos seus 90 anos, em 2021, que o seu pensamento político pendia mais para o lado do PSD, após o 25 de abril de 1974. No entanto, por influência da sua companheira de toda a vida, que tinha preferência pelo partido fundado, entre outros, por Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, decidiu pensar melhor.
“Foi mais por causa da minha mulher, que se meteu na política logo quando se começaram a formar os partidos. Quem se filiou logo no CDS foi a minha mulher. A minha vocação, na altura, era mais para o PSD. Mas depois era um problema, a minha mulher no CDS, eu no PSD… De modo que para evitar confrontos… Além disso os partidos eram muito próximos”, partilhou, sem arrependimentos, como garantiu.
Nuno Melo, atual líder dos centristas, diz que Narana Coissoró “deixa uma saudade profunda, mas também um exemplo de vida e um legado que permanecerá bem vincado no Ensino, na Justiça, no CDS-PP e na história recente de Portugal”, enquanto José Ribeiro e Castro, antigo líder (2005-2007), recorda-o como “um deputado de grande categoria política e humana, muito combativo, e um grande amigo também”.