Recordei-me do título Angústia para o Jantar, uma obra de Luís de Sttau Monteiro, porque vi O Convite, da Olivia Wilde, e, embora a angústia não seja o sentimento mais evidente, está latente em todo o filme. A angústia de viver uma relação disfuncional, em que duas pessoas não sabem como acabaram por se odiar, e partilham uma vida entre quatro paredes, onde reina o fracasso da comunicação. É um lugar onde deixou de residir a felicidade, que se perdeu algures ao longo do caminho face à vivência conjunta repleta de altos e baixos, talvez mais baixos do que altos.
Quando o casal do filme, Angela e Joe, recebe um convite especial para tornar a sua vida sexual mais gratificante, podemos ver nos seus olhos a ânsia, a fome e a curiosidade, mas o espaço mental dominado pelo ressentimento e a crueldade que exercem um contra o outro não lhes permitem sequer desfrutar do que poderia ser uma noite consensual de prazer.
O Convite, realizado por Olivia Wilde e baseado numa peça de teatro de Cesc Gay, acaba por extravasar os limites do palco e da tela, ao oferecer-nos um retrato contemporâneo certeiro das relações amorosas. Evita a superficialidade e revela conflito, vergonha e desejo, humor e tragédia, mas também solidão e ternura, e creio que grande parte do sucesso do filme se prende com a sua capacidade de pintar uma imagem tão realista de uma relação destroçada.
Nunca se falou tanto como hoje da crise das relações amorosas. Dizem-nos que há mais dificuldade em encontrar o parceiro certo, há menos sexo, há menos disponibilidade emocional. Não ajuda que, na última década, a busca por uma nova relação se tenha deixado determinar por algoritmos de aplicações que trabalham cada vez pior, numa desesperada tentativa de fazer com que as pessoas comprem opções premium.
Que desencanto amoroso é este que vivemos nos nossos dias, sobretudo em sociedades ocidentais? Como mulher, estou exposta a um vocabulário sem fim (na língua inglesa) que usamos com frequência na descrição das nossas interações: as redes Meta rapidamente descobrem o nosso estado civil e bombardeiam-nos com vídeos e reflexões sobre red flags, attachment styles, situationships, avoidants, anxious, sexting, gaslighting, breadcrumbing, benching, e podia continuar. Defendem a valorização pessoal da mulher e formas claras de comunicação. A julgar pelos inúmeros testemunhos, abundam o desaparecimento e a cobardia. Nunca soubemos dissecar tanto o mundo das relações como agora e, no entanto, nunca comunicámos tão mal uns com os outros, precisamente porque nunca tivemos tantas ferramentas para comunicar como hoje. Antigamente, recorríamos a carta e telefone, mas as relações tinham de ser vividas em modo presencial. Hoje, mandamos mensagens de texto por aplicações diferentes e estamos a monitorizar a vida da outra pessoa. E assim a má interpretação é constante porque assumimos coisas através daquilo que foi escrito e fotografado. Questionamos a ausência de uma mensagem ou tentamos decifrar o significado de likes, essa coisa perniciosa que já vi destruir (ou confirmar) tantas relações. A monitorização leva-nos a ser pouco razoáveis. E não é exagero meu porque enfrento constantemente estas questões entre o meu grupo de amigas e dou por mim a pensar na loucura de transformar tudo numa investigação permanente, que só gera ansiedade e mágoa.
A verdade é que não há coisa mais fatal nas nossas mentes do que criar expectativas. No momento em que se criam, torna-se difícil recuar e fingir indiferença. O que nos leva a outra questão: porquê tanta indisponibilidade emocional, especialmente na vida a partir dos 40, a faixa etária retratada no filme O Convite? Esses casais não chegam inocentes a essa idade, ao fim de 20 anos de experiências e memórias, e muitas vezes não conseguem seguir facilmente em frente.
Li algures que há cada vez mais mulheres influenciadoras a escolherem expor as suas vidas solitárias e felizes e que desistiram de encontrar o amor. É uma escolha como qualquer outra. Hoje em dia, já aprendemos imenso sobre como identificar uma má relação, mas talvez esta não seja uma crise de relações, mas uma crise de expectativas criadas nas relações.
Voltando a pegar no título do livro de Sttau Monteiro, talvez a angústia que exista ao jantar esteja no facto de duas pessoas estarem sentadas à mesa e já não saberem como quebrar o muro e chegar uma à outra.
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