Ridley Scott chegou aos 88 anos com uma vantagem sobre boa parte dos realizadores que têm metade da sua idade: continua a filmar como se o cinema fechasse amanhã. Depois de imperadores, Napoleão, extraterrestres, replicantes e casas de moda homicidamente disfuncionais, regressa à ficção científica com um Cessna, um cão, meia dúzia de sobreviventes e um mundo onde quase toda a gente morreu. A redução de escala é apenas aparente. Em Na Companhia das Estrelas, Scott volta ao que sempre o fascinou: o que sobra do ser humano quando se retiram as instituições, o conforto e a ilusão de controlo.
Baseado no romance The Dog Stars, publicado por Peter Heller em 2012, o filme conta a história de Hig (Jacob Elordi), um jovem ex-mecânico e piloto que sobreviveu a uma pandemia que dizimou quase toda a população mundial e vive num aeródromo abandonado do Colorado com Jasper, o cão, e Bangley (Josh Brolin), um antigo sniper militar e homem que provavelmente considera a esperança um defeito de fabrico. Hig continua a levantar voo num velho Cessna. Num desses voos capta uma transmissão de rádio. É pouco, quase nada. Mas, num planeta transformado num gigantesco cenário de vazio e destruição, uma voz desconhecida pode justificar atravessar montanhas e arriscar a vida.
O Cessna como cavalo de western
A boa ideia de Scott é recusar, em parte, o catálogo habitual das obras pós-apocalípticas. Não há zombies — mas quase — a correr, nem a obrigação contratual de destruir um edifício ou um monumento famoso a cada vinte minutos. O realizador disse, aliás, que queria evitar mais um filme de zombies e que o otimismo neste seu novo filme era essencial. O resultado aproxima-se mais de um western crepuscular: o pequeno aeroporto é o forte, o Cessna é o cavalo, o rádio substitui o horizonte e cada desconhecido pode trazer a salvação ou uma bala.
Quando a violência chega, chega com a eficácia seca de um homem que filmou batalhas, monstros e guerras durante meio século. Mas a parte mais interessante de Na Companhia das Estrelas vive nos intervalos: a rotina, a desconfiança, a solidão, o absurdo de continuar a organizar os dias quando já não existe sociedade para os validar. Depois da pandemia real que atravessámos, é impossível olhar para este mundo sem reconhecer alguma coisa. Não necessariamente o vírus, mas a memória das portas fechadas e dos seres humanos a descobrirem que a civilização depende de gestos muito menos sofisticados do que imaginávamos.
Scott já tinha feito da ficção científica um laboratório moral, mas aqui interessa-lhe menos saber se a tecnologia nos salva do que perceber se ainda sabemos viver uns com os outros. É talvez o seu filme de ficção científica mais despido: um hangar, uma avioneta e um cão são quase um contraponto à sua própria reputação de grande construtor de mundos.
Jacob Elordi confirma que deixou de ser apenas o rapaz bonito que Hollywood gosta de pôr em enquadramento. Depois de Priscilla (2023), Saltburn (2023) e Frankenstein (2025), trabalha aqui sobretudo a contenção: Hig continua a mexer-se porque parar obrigá-lo-ia a contabilizar tudo aquilo que perdeu. Elordi tem corpo de herói clássico, mas Scott filma-lhe o cansaço, as marcas e a culpa de ter sobrevivido. Josh Brolin, de Este País Não É para Velhos (2007) e Sicario — Infiltrado (2015), faz praticamente o contrário: ocupa cada cena com desconfiança, humor seco e uma agressividade que funciona como colete à prova de sentimentos.
A relação entre os dois, juntamente com a relação de Hig com Jasper — aquele cão com quem se deita no relvado a olhar para as estrelas —, é o verdadeiro motor emocional do filme. Jasper não é um mero adereço sentimental colocado ali para comover o espectador. É a última ligação física de Hig ao mundo que desapareceu, à vida que existia antes da pandemia e ao homem que ele próprio foi. Num planeta onde quase tudo morreu, o cão é família, memória e companhia. Talvez seja também a última criatura em quem Hig confia sem precisar de pensar duas vezes.
O problema de sobreviver ao argumento
Margaret Qualley, excelente em Pobres Criaturas (2023) e A Substância (2024), entra como Cima quando o filme abre a porta à possibilidade de outra comunidade e, sobretudo, à hipótese de Hig voltar a estabelecer uma relação com alguém. Guy Pearce, Allison Janney e Benedict Wong completam um elenco demasiado bom para funcionar apenas como vítimas do apocalipse.

É aqui que o argumento de Mark L. Smith revela por vezes as costuras: sabe exactamente o que quer dizer — comunidade, risco, confiança, amor depois da catástrofe — e ocasionalmente faz questão de voltar a dizê-lo. O filme é melhor quando cala a tese catastrofista e deixa os atores trabalhar à vontade.
Também perde alguma personalidade sempre que troca a estranheza da sobrevivência pela mecânica mais previsível do thriller. Scott continua a montar ação com uma clareza que faria muito bem a muita gente quarenta anos mais nova, mas o filme respira melhor quando ninguém está a disparar.
E, no entanto, apesar de o realizador dizer o contrário, a determinada altura parece mesmo que entrámos num filme de zombies: ataques noturnos, figuras que surgem na escuridão, grupos que avançam para o saque e pilhagem, como hordas, armas, cercos, perseguições. Só que não há zombies. Há pessoas desesperadas. Talvez essa seja precisamente a ideia mais negra do filme: depois de a doença ter destruído quase toda a Humanidade, os sobreviventes tratam de fazer o resto.
Recordar a pandemia global
É impossível, em 2026, olhar para esta história como olharíamos antes de 2020. O romance de Peter Heller foi publicado em 2012, muito antes da Covid-19, mas a adaptação cinematográfica chega depois de todos termos aprendido que uma pandemia global não pertence apenas à ficção científica. Durante décadas imaginámos o desaparecimento da Humanidade provocado por bombas nucleares, meteoritos, invasões extraterrestres, alterações climáticas ou qualquer outra catástrofe suficientemente espetacular para justificar muitos milhões de dólares em efeitos especiais. A Covid-19 demonstrou-nos algo bastante mais desagradável e improvável até então: o perigo também pode ser microscópico, invisível e chegar num avião de passageiros.
Não exterminou a Humanidade, evidentemente, mas mudou a forma como olhamos para este tipo de histórias. Aeroportos vazios, fronteiras fechadas, cidades sem gente, medo do contacto físico, isolamento, máscaras, desconfiança perante o desconhecido; tudo aquilo que antes pertencia ao repertório da distopia entrou, durante algum tempo, na nossa vida quotidiana. Scott sabe que não precisa de explicar muito. Nós já conhecemos o princípio da história.
As grandes paisagens, muitas delas filmadas em Itália e transformadas num Colorado devastado, devolvem ao ecrã uma dimensão física que justifica plenamente a sala de cinema e um grande ecrã como o IMAX, onde, aliás, vimos o filme. Não é o habitual fim do mundo cinzento, poeirento e nebuloso. Pelo contrário: é um planeta estranhamente verde, belo, aberto e demasiado grande para tão pouca gente.
A música de Harry Gregson-Williams, novamente a trabalhar com Scott, ajuda bastante a construir essa sensação de solidão. Em vez de empurrar permanentemente a emoção para cima do espectador, alterna guitarras, texturas melancólicas, silêncio, motores, vento e tiros. O próprio Cessna ganha uma espécie de banda sonora: aquele motor a rasgar o céu é a prova de que Hig ainda consegue pôr alguma coisa em movimento num planeta que parou.
Na Companhia das Estrelas não precisa de ser parecido com os filmes anteriores do realizador, que, de facto, já fez filmes melhores. Mas este é um filme tardio no melhor sentido da expressão: realizado por alguém que já construiu impérios suficientes e pode agora interessar-se por uma pergunta muito mais simples. Quando quase tudo desapareceu, o que nos obriga a continuar?
Scott responde sem grande açúcar: um cão, uma voz no rádio, alguém a quem regressar, a hipótese de existir outra pessoa do outro lado da montanha. No fundo, sobreviver ao fim do mundo pode nem ser a parte mais difícil. A parte verdadeiramente complicada começa quando é preciso voltar a confiar em alguém.
Ridley Scott: Ainda sem tempo para a reforma
Nasceu a 30 de Novembro de 1937, em South Shields, no nordeste de Inglaterra, e tem, portanto, 88 anos. Estudou no Royal College of Art, passou pela televisão e pela publicidade e estreou-se na longa-metragem com Os Duelistas (1977). Dois anos depois fez Alien — O 8.º Passageiro (1979); seguiram-se Blade Runner — Perigo Iminente (1982), Thelma & Louise (1991), Gladiador (2000),
Perdido em Marte (2015) e uma filmografia onde convivem ficção científica, thriller, guerra, epopeia histórica e melodrama com orçamento para invadir um país. A fase recente é quase ofensiva para a noção de reforma: O Último Duelo (2021), Casa Gucci (2021), Napoleão (2023), Gladiador II (2024) e agora Na Companhia das Estrelas (2026). Nem todos têm o mesmo fulgor — seria milagre, não carreira —, mas poucos cineastas desta dimensão conservaram tamanha velocidade industrial e curiosidade visual.
Foi nomeado várias vezes pela Academia de Hollywood sem nunca ganhar competitivamente o Óscar de Realização; em junho passado, anunciou finalmente que lhe vai atribuir um Óscar Honorário, que Scott receberá a 15 de Novembro de 2026, nos Governors Awards. E não parece interessado em usar a estatueta como sinal de despedida: já prepara o projeto seguinte, uma nova adaptação de Robert Louis Stevenson. Aos 88 anos, continua a trabalhar com a serenidade de quem suspeita que parar é uma forma particularmente aborrecida de morrer. É preciso ação.