Porque é tão difícil poupar?
Poupar parece uma decisão simples. Se recebemos 2.000 euros e gastamos 1.800, em teoria deveríamos conseguir guardar os 200 euros que sobraram. No entanto, para muitas pessoas, a realidade é precisamente a contrária: chega o final do mês, o dinheiro desapareceu e a poupança ficou, mais uma vez, para o mês seguinte.
E o mês seguinte chega com a mesma promessa.
“Este mês vou ter mais cuidado.”
“Quando receber o subsídio, começo a poupar.”
“Quando ganhar mais, consigo finalmente criar uma poupança.”
O problema é que, na maioria das vezes, a poupança não acontece porque sobra dinheiro. A poupança acontece quando decidimos que uma parte do dinheiro que recebemos não está disponível para gastar.
Esta diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de olhar para o problema.
O dinheiro que sobra raramente é poupado
Imagine-se uma pessoa com um rendimento líquido de 1.500 euros. Decide que gostaria de poupar 200 euros por mês e, por isso, mantém os 1.500 euros disponíveis na conta e tenta gerir o mês de forma a chegar ao fim com 200 euros.
Ao longo do mês surgem os pequenos gastos habituais: mais 30 euros num jantar, 25 euros numa compra que não estava prevista, 40 euros numa saída, 20 euros numa subscrição que entretanto renovou, mais 50 euros numa despesa que parecia justificável. Nenhuma destas decisões, isoladamente, parece comprometer o orçamento.
Mas, quando chega o final do mês, os 200 euros já não existem.
Não houve necessariamente uma grande irresponsabilidade. Houve apenas uma sucessão de pequenas decisões tomadas sem que existisse um limite previamente definido.
Agora imagine exatamente a mesma pessoa, mas com uma alteração: no dia em que recebe o salário, transfere automaticamente 200 euros para uma conta destinada à poupança. Passa a gerir os restantes 1.300 euros.
A diferença não está no rendimento. Não está sequer nas despesas.
Está na ordem da decisão.
Num caso, gasta-se primeiro e poupa-se o que eventualmente sobrar. No outro, poupa-se primeiro e organiza-se o consumo com o que fica disponível.
Para muitas pessoas, esta simples alteração é suficiente para transformar uma intenção numa prática.
Poupar não começa com grandes quantias
Existe também a ideia de que só vale a pena poupar quando se consegue colocar de lado uma quantia significativa. É outra armadilha.
Uma pessoa que consiga poupar 50 euros por mês acumula 600 euros ao fim de um ano. Se conseguir aumentar para 100 euros, serão 1.200 euros. Ao fim de três anos, sem considerar qualquer remuneração, estamos a falar de 3.600 euros.
Não é uma fortuna. Mas pode representar uma diferença enorme perante uma despesa inesperada.
Uma reparação do automóvel de 800 euros, uma despesa de saúde de 500 euros ou uma máquina de lavar roupa que avaria num momento inoportuno deixam de significar necessariamente recurso ao cartão de crédito ou a um crédito pessoal.
É por isso que o primeiro objetivo da poupança não deve ser enriquecer. Deve ser criar margem.
E esta distinção é importante. A poupança pode ter diferentes objetivos: constituir uma reserva para imprevistos, preparar uma entrada para uma casa, financiar a educação dos filhos, preparar a reforma ou simplesmente criar capacidade para concretizar um projeto.
Mas antes de pensar em rentabilidade, produtos financeiros ou investimentos, existe uma etapa anterior: conseguir guardar dinheiro de forma regular.
O problema nem sempre está nos grandes gastos
Quando alguém diz “não consigo poupar”, a primeira reação costuma ser procurar grandes despesas que possam ser eliminadas. O problema é que nem sempre são essas despesas que explicam a ausência de poupança.
Imagine uma família que identifica os seguintes gastos mensais que poderiam ser ajustados:
- 30 € em subscrições pouco utilizadas;
- 25 € numa revisão de telecomunicações;
- 35 € através da revisão de um seguro;
- 40 € em refeições fora de casa que poderiam ser reduzidas;
- 20 € em pequenas compras recorrentes.
Estamos a falar de 150 euros por mês.
Ao fim de um ano, são 1.800 euros.
Nenhuma destas despesas, isoladamente, parece suficientemente importante para mudar a vida financeira de uma família. Mas a soma delas pode representar uma poupança significativa.
E há ainda outro ponto importante: nem tudo deve ser cortado.
Se uma família valoriza uma refeição fora por semana, essa despesa pode perfeitamente fazer parte do orçamento. O objetivo não é transformar a vida num exercício permanente de privação. É decidir conscientemente onde vale a pena gastar e onde estamos simplesmente a gastar porque nunca parámos para questionar.
Poupar não é deixar de viver
Esta é talvez uma das ideias mais importantes quando falamos de poupança.
Uma estratégia que obrigue uma pessoa a eliminar tudo aquilo de que gosta dificilmente será sustentável. Se alguém decide passar de um orçamento mensal de 2.000 euros para um orçamento de 1.000 euros de um dia para o outro, provavelmente conseguirá cumprir durante algum tempo. Mas dificilmente manterá essa disciplina durante anos.
Poupar deve ser compatível com viver.
Imagine uma família que consegue reduzir as suas despesas em 200 euros mensais sem eliminar atividades que considera importantes. Esses 200 euros podem ser canalizados para uma conta de poupança. Se, pelo contrário, para conseguir poupar os mesmos 200 euros tiver de eliminar todas as atividades de lazer, deixar de viajar e cortar completamente nos pequenos prazeres, é provável que a estratégia acabe abandonada.
A melhor estratégia de poupança não é necessariamente a que permite poupar mais num determinado mês. É aquela que conseguimos manter durante anos.
E se não houver mesmo margem?
Há situações em que a resposta é mais incómoda: algumas famílias não conseguem poupar porque, simplesmente, não têm margem suficiente.
Se alguém recebe 1.500 euros e tem 1.450 euros de despesas necessárias, não faz sentido afirmar que precisa apenas de “ter mais disciplina”. Existe um problema estrutural que precisa de ser analisado.
É aqui que importa voltar aos números de que falámos no artigo anterior.
É necessário perceber quanto entra, quanto sai, quais são os encargos fixos, quanto está comprometido com crédito e onde existe possibilidade real de intervenção.
Talvez seja possível renegociar um crédito. Talvez seja necessário rever seguros ou contratos. Talvez exista uma prestação demasiado elevada. Talvez seja necessário reorganizar algumas despesas. E, em determinadas situações, pode ser necessário reconhecer que o problema só poderá ser resolvido com um aumento do rendimento.
Poupar não significa ignorar a realidade financeira. Significa trabalhar sobre ela.
Começar pequeno também é começar
Para quem não tem qualquer hábito de poupança, a melhor decisão pode ser começar com um valor que pareça quase demasiado pequeno.
50 euros.
O objetivo inicial não é o valor. É criar o comportamento.
Depois de três ou quatro meses, se a pessoa perceber que consegue viver com os 50 euros a menos, pode aumentar para 75 ou 100 euros. Mais tarde, quando receber um aumento salarial, em vez de transformar automaticamente todo o aumento em novas despesas, pode direcionar uma parte para a poupança.
Imagine alguém que recebe um aumento líquido de 150 euros mensais e decide canalizar 100 euros desse aumento para a poupança, ficando com 50 euros adicionais para melhorar o seu nível de vida.
Ao fim de um ano, terá acumulado mais 1.200 euros, sem ter sentido uma redução do rendimento disponível que já tinha antes do aumento.
É assim que a poupança pode crescer sem se transformar numa penalização permanente do presente.
A ação começa hoje
Se a poupança tem sido sucessivamente adiada, talvez não seja necessário fazer um orçamento complexo ou tomar uma decisão radical. Comece por uma pergunta simples: quanto dinheiro consigo colocar de lado todos os meses sem comprometer as minhas despesas essenciais?
Depois, transforme esse valor numa decisão automática.
Se forem 50 euros, serão 50 euros. Se forem 100, serão 100. Se forem 250, melhor ainda. O importante é que o dinheiro destinado à poupança deixe de estar misturado com o dinheiro destinado ao consumo.
E, uma vez por mês, faça uma segunda pergunta: o que posso alterar para aumentar ligeiramente a minha margem?
Pode ser um contrato. Uma prestação. Uma subscrição. Uma despesa recorrente. Uma decisão de consumo.
Não é necessário mudar tudo. É necessário começar a mudar alguma coisa.
Ter finanças com cabeça não significa viver para poupar, nem transformar cada euro gasto numa fonte de culpa. Significa atribuir um propósito ao dinheiro e perceber que uma parte do rendimento de hoje pode comprar algo extremamente importante no futuro: liberdade de escolha.
Porque os 100 euros que não gastamos hoje podem representar uma emergência que conseguimos resolver amanhã sem recorrer a crédito. Podem ser parte de uma entrada para uma casa. Podem financiar uma formação. Podem permitir uma mudança profissional. Ou podem simplesmente proporcionar a tranquilidade de saber que, perante um imprevisto, existe alguma margem.
Poupar não é deixar de viver.
É criar condições para continuar a viver quando a vida não corre exatamente como planeámos.
E talvez seja por isso que poupar é tão difícil. Não porque não saibamos fazer contas, mas porque estamos constantemente a tomar decisões sobre o presente enquanto tentamos proteger o futuro. O presente é imediato, concreto e emocional; o futuro é distante e incerto. E, muitas vezes, aquilo que podemos gastar hoje parece mais real do que aquilo que poderemos precisar amanhã.
É precisamente aqui que entramos no próximo tema desta rúbrica: porque adiamos sempre as decisões importantes? Sabemos que deveríamos rever um crédito, constituir uma poupança, renegociar um contrato ou começar a preparar determinado objetivo, mas encontramos sempre uma razão para deixar para depois.
Porque é que fazemos isso? E, sobretudo, quanto nos custa adiar sucessivamente aquilo que sabemos que deveríamos decidir hoje?
É essa relação entre decisão, adiamento e custo que vamos explorar no próximo artigo.
Fale connosco
Dúvidas, comentários ou sugestões de temas para a rubrica Finanças com cabeça podem ser enviados para nuno.godinho@rede.doutorfinancas.pt