Eu sempre quis repensar o Natal, mas nunca pensei que fôssemos repensá-lo por causa de uma virose. Mais: sempre detestei redações sobre o Natal e aqui estou eu a fazer uma redação sobre repensar o Natal, o que é, no mínimo, deprimente. Ainda assim, menos deprimente do que repensar a praia que, felizmente, ninguém teve de repensar. E nada precoce, se pensarmos que 2020, como se diz nos memes, resume-se a Janeiro, Fevereiro, Covid-19, Dezembro.
O Natal é aquela altura do ano em que estamos com as pessoas de quem gostamos e com as pessoas que só vemos uma vez por ano. Este ano, vai ser o ano em que não vamos estar com as pessoas de que gostamos, precisamente porque gostamos delas, nem com as pessoas que só vemos uma vez por ano, o que faz com que este ano seja o ano em que nem essas pessoas veremos. Resumindo, isto de repensar o Natal, quando finalmente acontece, é para pior. E olhem que havia muito mais por onde repensar.
Ocorre-me logo o bolo-rei, que tem o epíteto de rei precisamente porque ninguém votou nele, ninguém clamou por ele, toda a gente o trocaria por qualquer outra sobremesa, mas está lá porque todos os seus antepassados já lá estavam. E, apesar de todos questionarem o espaço que ocupa na toalha, há sempre a desculpa da tradição e da preservação do simbolismo do Natal. Em síntese, o monarca dos bolos é como a monarquia nos países democráticos: há que repensar. Até porque se o mantemos por uma questão de iconografia, poderíamos envernizar um exemplar e mantê-lo, de ano para ano, como as árvores de Natal de plástico. Assim como assim, metade da sua constituição já é fruta cristalizada.
Outra coisa a repensar é o esgotamento feminino com a logística natalícia. Gerações e gerações de mulheres, juntas ou sozinhas na cozinha, esgotadas, exauridas, exangues, fazendo sonhos, fritando rabanadas, assando perus, cozendo bacalhau, nos dias que antecedem, nos dias em que decorre e nos dias após o Natal, até um de janeiro. Numa repetição de rotinas, gestos e rituais, que se habituaram a ver nas suas mães, e que fazem questão de reproduzir porque, afinal, isso é que é o Natal. Elas são a produção, vivem a tradição dos bastidores e se, para os outros, o Natal é estar à mesa, para elas é estar na cozinha, numa missão hercúlea, muitas vezes autoimposta, que representa a mais inculcada forma de exploração do patriarcado – o serviço à família. O que se estende por todo o ano, na dupla jornada, exacerba-se nos dias em que o estar em família também se exacerba, e as mulheres, numa espécie de clímax da sua condição, fazem a alquimia de tornar festa e celebração, o que é (quase sempre) servidão.
Por falar nisso, já repensávamos o excesso de comida, de desperdício, de consumo e de prendas para as crianças. Podíamos comer na mesma, oferecer na mesma e fazer as crianças igualmente felizes, sem exagerar, sem gastar tanto e sem deitar tanta coisa fora. Restos, embalagens, papel e todas essas dionisíacas manifestações de uma abundância que, na realidade, não vivemos e que, para bem do planeta, nem deveríamos simular. Podíamos repensar esses excessos, por toda a antecipação que implicam, num frenesim de compras e trânsito nas semanas anteriores, e também pela quantidade de tralha que as crianças levam para casa, quase toda em plástico. Até porque, na bebedeira do excesso, nem chegam a prestar atenção aos brinquedos, e é maior a ansiedade de rasgar papel de embrulho do que propriamente a alegria.
Agora, há coisas no Natal que gostava de não repensar. As histórias do Tio Zé, sobretudo as mais impróprias para contar à mesa. A aletria da Tia Cristina. A roupa-velha que queria comer no dia vinte seis, mas que quase nunca se faz. Ir a Vila do Conde. Ver os amigos emigrados que vêm à cidade para as festas. E o ritual pós-Natal, de sortear entre amigos a pior prenda do ano. Isso e saúde para todos (!), porque para viver o Natal é preciso muita saúde.
(Crónica publicada na VISÃO 1443 de 29 de outubro)