Domingo, 4 de Março de 2001
Eram 22h quando Jorge Coelho, ministro do Equipamento Social, pegou no telefone para ligar ao primeiro-ministro António Guterres.
– António, temos aqui um problema.
– O que foi?
– Uma ponte caiu em Entre-os-Rios. Ainda não sei muitos detalhes mas temos de estar atentos.
Da atenção ao alerta passaram escassos minutos. Setenta dos ocupantes de um autocarro que atravessava a ponte quando um pilar ruiu estavam dados como desaparecidos. Outros já se encontravam mortos. Uma tragédia colossal. À medida que a noite se prolongava, o número de vítimas ia subindo. Duas… cinco… 14… 30… 41… Não foi preciso chegar ao número 59 para que Jorge Coelho pegasse de novo no telefone.
– António, vou-me demitir.
Do outro lado da linha, Guterres resistiu…
– Não faças isso, Jorge. Não tens culpa nenhuma do que aconteceu!
… mas Jorge Coelho estava inamovível.
– Alguém tem de dar a cara pelo que aconteceu. São muitos mortos, pá! Temos de dar o exemplo. A culpa não pode morrer solteira. *
Guterres calou-se, resignado. Sabia que era a única atitude digna a tomar.
Eram três e meia da manhã quando Jorge Coelho, numa conferência de imprensa improvisada, assumiu politicamente a responsabilidade da desgraça ainda em curso, solidarizando-se com as famílias das vítimas e anunciando a sua demissão.
Domingo, 15 de Outubro de 2017
O país transformou-se num inferno a céu aberto. No final da noite fazem-se as contas: mais de 500 fogos num só dia. Há mortos, claro. Pior do que isso: há a expectativa de que no dia seguinte (hoje, portanto) sejam muitos mais (o que se viria a confirmar). Isto depois de já terem morrido 64 pessoas há apenas quatro meses em Pedrógão Grande.
Pergunta: o que diz a ministra da Administração Interna, que tutela o combate aos fogos?
Resposta de Constança Urbano de Sousa: “Para mim seria mais fácil ir-me embora e ter as férias que não tive.”
Pois seria. Assim como ser inteligente é bem melhor do que ser pateta e estar morto é o contrário de estar vivo. Nesta fase dos acontecimentos, alguém devia explicar duas ou três coisas ao cadáver político de Constança Urbano de Sousa.
Uma: é uma pena que a ministra só tenha descoberto há três meses que não se vai para o Governo de um país como quem apanha um avião em executiva rumo a um bungalow de luxo nas Maldivas. Ser governante, ser um bom governante, é necessariamente mau porque acontecem coisas más, porque se conhecem pessoas horríveis e, finalmente, porque têm de ser assinadas medidas que afectam a vida de milhões de pessoas. E isso é doloroso.
Outra: cometida a imprudência de aceitar governar, tem de se ser corajoso, mesmo quando não se é, e tomar decisões pessoalmente devastadoras em função do bem comum. Talvez Constança ainda não consiga compreender esta premissa.
Finalmente: a História, com “H” maiúsculo, é quase sempre boa conselheira, por isso talvez não perdesse nada em ver o que outros, como Jorge Coelho, ensinaram no domínio da dignidade política perante acontecimentos extremos. Claro que não foi Constança quem ateou as centenas de fogos deste fim-de-semana, mas a banalidade olímpica que tem exibido no exercício das suas funções é um perigoso combustível que só serve para incendiar ainda mais o desprezo dos cidadãos em relação à classe política.
* Diálogo constante do livro “O Todo-Poderoso”, a biografia de Jorge Coelho, editada pela Matéria-Prima