O “grande rejuvenescimento da nação chinesa” anunciado por Xi Jinping quando atingiu o topo do poder, em novembro de 2012, envolve também o futebol. Neste campo, o “sonho chinês” passa por três fases: qualificar-se para o Mundial, organizar um Mundial e sagrar-se campeão do mundo. É mais do que um sonho. Há 24 anos que a China não consegue qualificar-se para a fase final de um Mundial, ocupando hoje o 94º lugar no ranking da FIFA. Uma classificação imprópria para uma grande potência emergente, reconhecida como campeã da globalização.
Até 1992, o ano em que o Partido Comunista Chinês se converteu à “economia de mercado socialista”, os futebolistas eram assalariados da Comissão Estatal de Educação Física e Desporto, ganhando de acordo com a tabela em vigor na função pública. Quando iam jogar fora, viajavam de comboio, “como qualquer outro trabalhador”, e eram eles próprios que transportavam as bolas e o equipamento. Com a “reforma do futebol”, um jogador profissional passou a ganhar no mínimo 50 000 yuan por ano (cerca de 6500 euros) – 40 vezes mais do que o rendimento anual per capita nas zonas rurais, onde viviam dois terços da população – e alguns chegavam a receber 26 000 euros. A nova política autorizou também a contratação de jogadores e técnicos estrangeiros, o que contribuiu igualmente para aumentar a qualidade do futebol e a afluência aos estádios. “O nosso sonho é ir um dia ao Mundial”, dizia, já nessa altura, um diretor da Associação Chinesa de Futebol, Ma Kejian, ex-guarda-redes da seleção chinesa.
Em 2002, pela primeira e única vez, a China qualificou-se para um Mundial. Foi na Coreia do Sul, um dos organizadores da competição, juntamente com o Japão, o que aumentou o número de países asiáticos apurados para a fase final. A estreia não deixou saudades: a seleção perdeu os três jogos que disputou e não conseguiu marcar um único golo. Entretanto, surgiu um problema endémico na sociedade chinesa: a corrupção. Dezenas de técnicos, dirigentes e jogadores, entre os quais um antigo selecionador nacional – o internacional Li Tie, que chegou a jogar num clube inglês −, foram presos e condenados. Um ex-presidente da Associação Chinesa de Futebol, Chen Xuyuan, está a cumprir uma pena de prisão perpétua por envolvimento em “manipulação de resultados e outros crimes financeiros”.
Embora o basquetebol tenha mais adeptos, a paixão pelo futebol está a crescer. Mas a popularidade não é correspondida pela seleção nacional. Cúmulo da humilhação, na última fase de apuramento, o Japão venceu a China por 7-0. Pior do que isso só em 2013, quando a seleção chinesa perdeu em casa frente a uma espécie de equipa B da Tailândia por 5-1, um resultado visto como “uma vergonha nacional” e que gerou até tumultos violentos. Ainda por cima, a “desgraça” coincidiu com o 60º aniversário do Presidente Xi Jinping, um assumido adepto da modalidade e cuja liderança patrocinou a “grande reforma” do futebol aprovada há dez anos.
“Devemos desenvolver e revitalizar o futebol para assegurar que somos uma forte nação no domínio desportivo”, proclamou então o Grupo Central Dirigente do PCC para o Aprofundamento das Reformas, organismo presidido por Xi Jinping. A prática do futebol passou a ser uma “componente obrigatória” da disciplina de Educação Física em 20 000 escolas e em 2025 chegaria às 50 000.
Por ora, o “sonho chinês” para o futebol permanece uma miragem distante. O Mundial, no entanto, “continua a ser um grande acontecimento para os adeptos, cujo entusiasmo sobreviveu às tardias transmissões televisivas e à longa ausência da sua equipa da competição”, segundo o Global Times, do grupo Diário do Povo, o órgão central do PCC. Os mais entusiastas têm até por quem torcer: um dos 53 árbitros escolhidos pela FIFA para o Mundial de 2026 é o chinês Ma Ning.
“Sem equipa no Mundial, a China une-se em torno de um árbitro”, observou a plataforma online Sixth Tone, sediada em Xangai. Até 6 de junho – indicou a mesma fonte –, tópicos relacionados com este árbitro já tinham sido vistos mais de três mil milhões de vezes no Douyin, a versão chinesa do TikTok. Um grande jornal de Hong Kong, o South China Morning Post, assinalou o mesmo fenómeno: “A China põe as suas esperanças em Ma Ning.” E a FIFA, por sua vez, também espera muito da China. Segundo disse ao Global Times uma responsável da organização, “a China tem uma das maiores audiências do mundo e o público chinês é fundamental para o sucesso global do Mundial”.
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