“A União Soviética de hoje é a China de amanhã”, diziam os comunistas chineses no início da década de 1950. Setenta anos depois, provavelmente muitos russos gostariam que acontecesse o inverso. Embora o seu Presidente, Vladimir Putin, tenha proclamado na semana passada em Pequim que as relações entre os dois países atingiram “um alto nível sem precedentes”, no plano económico e tecnológico parecem bastante “assimétricas”. Aos olhos de muitos observadores – e contrariamente ao que os comunistas chineses sentiriam nos primeiros anos da sua governação –, será a Rússia que depende agora da China.
Cui Hongjian, o antigo diplomata que dirige o Centro de Estudos Europeus da Beiwai (Universidade de Estudos Internacionais de Pequim), prefere falar em “relação assimétrica e transversal de interdependência mútua”.
“Enquanto não houver uma resolução real nas relações EUA-China, a China continuará a depender da Rússia para a estabilidade estratégica e o equilíbrio militar”, disse ao jornal South China Morning Post.
Num recente seminário em Hong Kong, Wu Dahui, vice-diretor do Instituto de Investigação sobre a Rússia da Universidade Tsinghua, disse que a relação entre os dois países era “melhor do que uma aliança” e “cada uma das partes extrai dela o que precisa”. Segundo esta visão, a essência destes laços não assenta no apoio ao que o outro faz, mas em “não se opor ao que o outro faz”. “Se emergir uma frente unida contra a China, a natureza dessa frente permanecerá inalterável enquanto a Rússia não aderir a ela – e o inverso também é verdadeiro”, afirmou Wu Dahui.
Apesar das tarifas decretadas por Donald Trump, que provocaram uma queda de quase 30% nas exportações chinesas para os EUA, o mercado americano ainda é muito importante para a China. Esta continua a ser o maior parceiro comercial da Rússia, mas em 2025, pela primeira vez nos últimos cinco anos, o comércio bilateral caiu 7%, para 228,1 mil milhões de dólares − o que corresponderá a cerca de metade do que a China vende e compra aos EUA. Para Pequim, no entanto, o relacionamento entre grandes potências não se limita a estas contas.
“A confiança política é a característica mais marcante das relações sino-russas”, realçou Xi Jinping durante a visita de Putin. Nos EUA, pelo contrário, predomina a desconfiança. Muitos políticos, democratas e republicanos, encaram a rápida ascensão da China como uma ameaça. “Somos dois grandes países, com dois sistemas diferentes, de facto não confiamos um no outro”, comentou um antigo embaixador dos EUA em Pequim, Max Baucus, numa entrevista difundida em Hong Kong. Referindo-se à “relação construtiva de estabilidade estratégica” acordada na visita de Trump à China, o antigo diplomata considerou-a uma forma de “prevenir” crises. “Ambos querem estabilizar a relação, impedindo-a de piorar”, acrescentou.
Xi e Putin já se encontraram mais de 40 vezes desde 2013 − um fenómeno muito raro na diplomacia internacional. Além da defesa de uma “ordem mundial multipolar” e da comum rejeição do “hegemonismo”, China e Rússia partilham uma fronteira com quase 4200 quilómetros de extensão. As duas economias são consideradas “largamente complementares”. A Rússia é rica em recursos energéticos e a China, o país do mundo que mais investe nas energias renováveis e no nuclear, é o maior importador de petróleo.
Durante a última visita de Putin a Pequim, os dois países assinaram cerca de 40 acordos e memorandos de entendimento, mas a grande empreitada que a Rússia desejaria “extrair” desta cimeira, e que Moscovo propôs há já 20 anos, parece ter ficado mais uma vez adiada. Trata-se do gasoduto Poder da Sibéria 2, com 2600 quilómetros de extensão, e capacidade de transportar, através da Mongólia, 50 mil milhões de metros cúbicos de gás por ano. “Um megaprojeto como o Poder da Sibéria 2 não é algo que a China sinta que deve assegurar imediatamente. Do lado de Pequim, o sentido de urgência simplesmente não existe”, comentou o académico Zhang Xin, citado pelo South China Morning Post.
Oficialmente, a parceria anunciada por Putin e Xi nas vésperas da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, não tem “limites”. Contudo, cada um tem as suas prioridades e, na área da energia, a China aposta em primeiro lugar na diversificação das suas fontes e, em última instância, na autossuficiência. Será isto que o professor Wu Dahui queria dizer quando afirmava que cada um “extrai o que precisa” desta relação?
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