A última vez que a China travou uma guerra fora das suas fronteiras foi há 47 anos, quando dezenas de milhares de soldados do Exército Popular de Libertação invadiram o vizinho Vietname. Na linguagem oficial, a invasão desencadeada em fevereiro de 1979 foi “um contra-ataque de autodefesa” para “dar uma lição aos pequenos hegemonistas” de Hanói, que dois meses antes tinham invadido o Camboja e derrubado o governo dos Khmers Vermelhos, apoiado por Pequim. Para a China, a União Soviética era “o inimigo principal”, e ao atacar um aliado de Moscovo, ganharia a confiança dos EUA, país com o qual acabara de estabelecer relações diplomáticas e que poderia ajudá-la a desenvolver a política de “reforma económica e abertura ao exterior,” adotada em dezembro de 1978.
Quase meio século depois, “Vietname e China estão agora perfeitamente alinhados”, afirmou um comentador de um jornal de Hong Kong a propósito da visita que o novo Presidente vietnamita, To Lam, efetuou em abril a Pequim. Os dois países divergem ainda quanto à soberania de algumas ilhas do mar do Sul da China, disputadas também pelas Filipinas e outros países da região, mas, segundo a imprensa oficial, as relações “entraram num período de oportunidades históricas sem precedentes”. “São dois vizinhos socialistas com ideais e interesses estratégicos partilhados”, disse um académico vietnamita citado por um jornal do PC Chinês.
Além de partilharem uma fronteira com 1300 quilómetros de extensão, defendem o “papel dirigente” dos respetivos partidos comunistas, o que o Presidente chinês, Xi Jinping, considerou “o maior interesse estratégico comum”. O celebrado “alinhamento” parece, no entanto, mais pragmático do que ideológico.
Mais de seis mil empresas chinesas se estabeleceram nos últimos anos no Vietname, investindo 36 mil milhões de dólares numa das economias mais dinâmicas do Sudeste Asiático. Desde 2014, o PIB vietnamita cresce em média 6,5% ao ano, e em 2025 chegou aos 8%. No ano passado, o comércio bilateral somou 296 mil milhões de dólares – mais 68 mil milhões do que a China comprou e vendeu à Rússia. “A China não é apenas um parceiro: é o mais estável e acessível reservatório de recursos a que o Vietname pode recorrer no meio da turbulência global”, afirmou um professor universitário de Guangxi, uma das províncias chinesas que confinam com o Vietname.
Um trabalhador vietnamita ganha metade do que ganha um chinês, e comparando com um de Xangai, a capital económica da China, será cerca de um terço. Em vez de “made in China”, muitos têxteis, artigos eletrónicos e outros produtos à venda nos EUA e na União Europeia são hoje “made in Vietname”… em fábricas com capitais chineses. Um quarto dos cerca de 21 milhões de turistas que visitaram o Vietname em 2025 era de chineses − um aumento de 41,3% em relação ao ano anterior.
O “contra-ataque de autodefesa” contra os “pequenos hegemonistas de Hanói” durou apenas um mês. Militarmente, a operação chinesa não parece ter sido um grande sucesso e ambos os países evitam recordar esse episódio. Já tinha havido confrontos fronteiriços entre a China e a antiga URSS, mas a guerra sino-vietnamita de 1979 foi a mais violenta disputa entre dois Estados comunistas. Segundo estimativas ocidentais, o número total de baixas, mortos e feridos, ultrapassará os 50 000. No plano geopolítico, porém, aquela guerra “estabeleceu uma relação estratégica entre os EUA e a China face à União Soviética”, escreveu Ruan Ming, um antigo professor da Escola Central do PC Chinês. Moscovo, que tinha um pacto de “assistência mútua” com o Vietname, reforçou as tropas estacionadas junto à fronteira com a China, mas não entrou na guerra. Internamente – salienta também Ruan Ming –, “a guerra consolidou a aliança entre as fações dogmáticas e militaristas, acabando com a aliança entre as forças democráticas dentro e fora do partido”. Pouco antes da invasão do Vietname, um jovem eletricista, Wei Jingsheng, desafiou publicamente o “arquiteto-chefe das reformas económicas”, Deng Xiaoping. Num manifesto afixado numa movimentada rua de Pequim, Wei acrescentou uma “quinta modernização” às “quatro modernizações” preconizadas por Deng para Agricultura, Indústria, Defesa e Ciência e Tecnologia. Terminada a guerra, e consolidada a posição de Deng no topo da liderança chinesa, Wei foi preso e condenado a 15 anos de prisão por “atividades contrarrevolucionárias”. A “quinta modernização” era a Democracia − outra história.
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