O primeiro artigo da Constituição chinesa, em vigor há 44 anos, é taxativo: “A República Popular da China é um Estado socialista sob a ditadura democrática do povo, liderado pela classe trabalhadora e assente na aliança operário-camponesa.” A frase confirma os pergaminhos revolucionários do regime, mas, socialmente, o país mudou muito e, entretanto, emergiu uma nova classe.
“A classe média chinesa emergiu como a força condutora da política de desenvolvimento da China e está a tornar-se o maior grupo de consumidores que o mundo já viu”, escreveu em 2016 Li Cheng, autor de mais de uma dezena de estudos sobre a política interna chinesa. “O crescimento da classe média trouxe com ele crescente influência política e a liderança do Partido Comunista Chinês acabou gradualmente por reconhecer que para manter o poder devia respeitar a classe média.”
Aquele académico vivia então nos EUA, onde se formou em Ciências Políticas. Durante 13 anos trabalhou num influente think tank, o Brooklins Institution, onde dirigiu o respetivo Centro de Estudos sobre a China. Como centenas de outros académicos chineses radicados nos EUA fizeram nos últimos anos, em 2023 regressou à China, atraído pelas novas oportunidades do país. É agora professor na Universidade de Hong Kong.
Na semana passada, num fórum internacional na ilha de Hainan, afirmou que “nos próximos anos, os EUA deverão permanecer atolados em conflitos autoinfligidos”. Segundo o relato do jornal South China Morning Post, Li Cheng salientou que “enquanto na Europa e nos EUA as classes médias estão a diminuir, na Ásia, incluindo na China, estão a aumentar”.
Pelos critérios estabelecidos no 14º Plano Quinquenal (2021-2025), para um casal com um filho, o estatuto de classe média correspondia a um rendimento anual entre 100 000 yuan (12 500 euros) e 500 000 yuan (62 500 euros). Segundo as estimativas do governo, em 2025 mais de 400 milhões de chineses já pertenciam à classe média e dentro de uma década o número atingirá os 800 milhões.
Capital económica da China, com cerca de 30 milhões de habitantes, Xangai é considerada “o berço da nova classe média”. Há duas décadas – apurou Li Cheng –, 82% das famílias da cidade já eram proprietárias das casas onde viviam e 22% tinham até duas casas. Na primavera de 2022, durante os dois meses de drástico confinamento imposto pela política de Covid-zero, o chefe dos serviços de saúde mental do município pediu à população para “reprimir o seu anseio por liberdade”. Zìyóu (Liberdade, em chinês) foi também o que centenas de manifestantes reclamaram no outono seguinte nas ruas de Xangai, Pequim e outras cidades, e que forçaram o governo a mudar subitamente a sua atuação. Não foi uma revolução, palavra de conotações um pouco assustadoras. Han Han, um escritor e corredor de automóveis, nascido em 1982, já tinha falado sobre isso por ocasião das primaveras árabes: “Revolução e democracia são duas coisas completamente diferentes. Não há nenhuma garantia de que a revolução traga democracia (…) só podemos avançar um pequeno passo de cada vez (…) Reforma é a melhor resposta.”
Constitucionalmente, as empresas públicas (“propriedade de todo o povo”, segundo a terminologia oficial) são “o setor dirigente da economia nacional” e o setor privado é “uma componente importante da economia de mercado socialista”. A avaliar pelas estatísticas oficiais, a ordem devia ser ao contrário: “Principal motor de inovação e transição verde” da China, as empresas privadas asseguram 80% dos novos empregos criados nas zonas urbanas, 56,8% do comércio externo e 60% do PIB.
Em 1972, quando Richard Nixon se encontrou em Pequim com Mao Tsé-Tung, todos os chineses pareciam igualitariamente pobres. Os empresários eram “inimigos de classe”. Com quase um quarto da população mundial, a China representava menos de 2% do PIB global (hoje ronda os 18%).
Cerca de 40 anos depois da histórica viagem de Nixon, um coronel do Exército chinês, Liu Mingfu, publicou um livro com um título que viria a tornar-se uma bandeira da Era Xi Jinping: O Sonho da China. O subtítulo da obra é um sinal dos tempos: Pensamento de Grande Potência e Postura Estratégica na Era Pós-Americana. A China já era a segunda maior economia do planeta, à frente do Japão e da Alemanha, e dentro de poucos anos poderá ser a primeira. Um pesadelo para a América, diria o coronel Liu: “Os EUA não têm medo de uma China socialista, têm medo de uma China forte.”
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