É difícil imaginar os filhos de Estaline ou de qualquer outro líder da antiga União Soviética frequentando um curso superior na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América. O Presidente chinês, Xi Jinping, não se importou: a filha, Xi Mingze, estudou durante quatro anos naquela “universidade burguesa”, onde em 2014 concluiu a licenciatura em Psicologia. Não é a única diferença entre o regime chinês e a ex-URSS, nem um fenómeno raro entre as elites chinesas. Deng Zhifang, o filho mais novo de Deng Xiaoping, o “arquiteto-chefe” das reformas que transformariam a China na segunda economia mundial, doutorou-se em Biofísica na Universidade de Rochester, em Nova Iorque.
Cerca de 266 000 chineses estudam atualmente nos EUA, a maioria dos quais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. No caso de Harvard, que é uma das mais prestigiadas universidades do mundo, são cerca de 1 500, quase um quarto dos estudantes estrangeiros da instituição. Estima-se que três milhões de chineses terão estudado nos EUA ao longo dos últimos 40 anos. Esta afluência constitui também uma boa fonte de receita para muitas universidades. Só em 2024, os estudantes oriundos da China injetaram 14,6 mil milhões de dólares na economia dos EUA, referiu um jornal de Hong Kong citando um relatório sobre Ensino Superior patrocinado pelo governo norte-americano.
Simbolismos à parte, o percurso universitário de Xi Mingze ilustra a singular relação da família Xi com os EUA. Tudo começou no outono de 1980, menos de dois anos depois de Washington e Pequim terem estabelecido relações diplomáticas. O vice-primeiro-ministro Xi Zhongxun, avô de Xi Mingze, chefiou então a primeira delegação de governadores provinciais da China enviada aos EUA. Eram sete no total. Xi Zhongxun dirigia o governo de Guangdong, a “vanguarda” da nova política de “Reforma Económica e Abertura ao Exterior”, que confina com Hong Kong e Macau. A visita, de três semanas, incluiu um passeio pela Disneylândia, onde o pai do atual Presidente chinês deu um aperto de mão a um sósia do Rato Mickey. “A América tem muitos métodos e experiências que a China pode usar como referência”, concluiria Xi Zhongxun.
Os EUA foram também o primeiro país ocidental que Xi Jinping conheceu, em 1985. Tinha 32 anos e liderava a organização do partido em Zhengding, um pequeno condado rural da província de Hebei, no norte da China. No estado de Iowa, ficou em casa de uma família local, visitou várias quintas e passeou de barco no Mississippi. Trinta e oito anos mais tarde, ainda se lembrava do nome da família que o acolheu e da respetiva morada: “Fiquei em casa dos Dvorchaks, na Bonnie Drive 2911”, recordou Xi Jinping no banquete oferecido pelo Presidente Joe Biden, em 2023.
América, em chinês, diz-se Mei Guo. É uma espécie de tradução fonética, como Fa Guo (França) ou Ying Guo (Inglaterra), que significa literalmente Belo País. Em 1988, o belo país atraiu um jovem professor de Ciência Política da Universidade Fudan, em Xangai, chamado Wang Huning. Durante seis meses, Wang visitou mais de 30 cidades e quase 20 universidades, procurando respostas para duas perguntas: “Como é que um país com uma curta História de apenas 200 anos se tornou o mais desenvolvido do mundo?” e, inversamente, por que razão “uma civilização tão antiga como a chinesa, com mais de dois mil anos de História, entrou em decadência na era moderna”? O resultado foi um livro de 340 páginas publicado no ano seguinte com o título América Contra a América.
O autor, nascido em 1955, já era filiado no Partido Comunista, mas “como académico”, optou por não repetir a visão “dogmática” (os EUA como “uma ditadura da burguesia”) ou estereotipada (“o paraíso perfeito”). Embora descreva a América como “um país rico com muita gente pobre”, critica “a rejeição total do capitalismo” e “a influência da ideologia esquerdista” que durante muito tempo predominou no seu país. O discreto académico tornou-se, entretanto, o principal ideólogo da República Popular – o “pensador chefe”, como lhe chamou a revista The Economist. É hoje presidente da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês, uma espécie de senado, ocupando o quarto lugar da hierarquia comunista, a seguir a Xi Jinping (secretário-geral do PCC), Li Qiang (primeiro-ministro) e Zhao Leji (presidente da Assembleia Nacional Popular).
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.