Sam Neill não precisava de correr mais depressa do que os dinossauros. Bastava-lhe olhar para eles com a expressão resignada de quem já conhecia monstros piores: milionários, maridos possessivos, polícias corruptos e homens convencidos. Como Alan Grant, em Parque Jurássico (1993), de Steven Spielberg, tornou-se o único sujeito sensato num parque concebido por um excêntrico que achara prudente ressuscitar predadores pré-históricos para entreter famílias. Enquanto toda a gente gritava, Neill franzia o sobrolho. Era o seu superpoder.
O ator neozelandês morreu esta segunda-feira, 13 de julho, em Sydney, aos 78 anos, rodeado pela família. A morte foi súbita e inesperada, segundo os seus parentes. Em 2023 revelara ter sido diagnosticado com um raro linfoma do sangue; no momento em que morreu, segundo a família, continuava livre do cancro. Não se conhece a causa do falecimento. Sam Neill transmitia aquela ilusão de permanência própria das árvores antigas, dos bons vinhos e dos atores que nunca precisam de anunciar a sua importância.
Nascera Nigel John Dermot Neill, em 1947, na Irlanda do Norte, mas cresceu na Nova Zelândia e trocou Nigel por Sam aos 12 anos. Explicou que o mundo se atravessava com maior facilidade sendo Sam. Tinha razão. Nigel talvez vendesse seguros; Sam podia enfrentar o filho do Diabo em A Profecia III — O Conflito Final (1981), de Graham Baker, enlouquecer dentro de um casamento em Possessão (1981), do realizador polaco Andrzej Żuławski, perseguir um submarino em A Caça ao Outubro Vermelho (1990), de John McTiernan, ou abrir uma porta para o inferno em O Enigma do Horizonte (1997), do cineasta britânico Paul W. S. Anderson. Tudo com a tranquilidade de quem ainda tinha de regressar a casa para tratar das vinhas.
Foi em 1993 que o planeta percebeu definitivamente quem ele era. Steven Spielberg entregou-lhe o chapéu de Alan Grant em Parque Jurássico (1993) e Jane Campion deu-lhe, em O Piano (1993), um marido colonial, reprimido e incapaz de compreender o desejo da mulher. De um lado, o herói que protegia crianças de velociraptores; do outro, o homem que mutilava aquilo que não conseguia possuir. Poucos atores atravessariam semelhante distância sem parecerem dois intérpretes diferentes. Neill mostrava o ponto exato em que a bondade podia apodrecer até se transformar em crueldade.
Regressou aos dinossauros em Parque Jurássico III (2001), de Joe Johnston, e em Mundo Jurássico: Domínio (2022), de Colin Trevorrow, com o ar de quem fora chamado para verificar os estragos provocados por uma geração que não ouvira os avisos. Passou ainda pelas séries de televisão Merlin (1998), Os Tudors (2007–2010) e Peaky Blinders (2013–2022), onde fez do major Chester Campbell um agente da lei tão viscoso que até os gangsters pareciam pessoas de confiança. Em À Caça dos Selvagens (2016), do cineasta neozelandês Taika Waititi, transformou um homem rabugento numa criatura ferida sem lhe pendurar ao pescoço uma placa a dizer: este senhor tem sentimentos.
Nunca teve o narcisismo muscular das grandes estrelas nem o desespero de quem entra em cena a pedir um prémio. Sabia escutar, esperar e ficar quieto. Um silêncio, um sorriso enviesado ou uma sobrancelha levantada bastavam-lhe para desarrumar uma personagem inteira. Podia ser romântico, sinistro, paternal ou ameaçador, mas conservava sempre qualquer coisa de civilizado, mesmo quando interpretava um bruto. Talvez por isso fosse tão simpático: não parecia interessado em vencer-nos. Apenas em convencer-nos.
Fora do cinema, instalou-se entre vinhas e animais na propriedade Two Paddocks, em Central Otago, na Nova Zelândia. Produzia vinho e, ironicamente, batizava galinhas, patos e vacas com nomes de colegas atores e amigos de profissão. Era uma forma elegante de manter Hollywood no seu devido lugar: dentro de um curral. Nas memórias publicadas em 2023, com o título Did I Ever Tell You This?, falou da doença sem sentimentalismo industrial. Não tinha medo de morrer, dizia; irritava-o, isso sim, não poder assistir ao crescimento das árvores e dos netos.
Também esteve perto de ser James Bond. Chegou a fazer um teste para suceder a Roger Moore, mas o papel acabou por ficar com Timothy Dalton. Talvez tenha sido melhor assim. Neill não precisava de um smoking, de um Aston Martin ou de uma licença para matar para possuir elegância. A sua vinha parecia-lhe mais interessante do que o casino, os animais tinham nomes melhores do que muitos vilões e o seu humor dispensava frases de efeito. Nunca fez da masculinidade uma demonstração de força; mostrou-a frequentemente como dúvida, desconforto, ternura ou medo mal disfarçado.
Sam Neill morreu antes de ver amadurecer tudo aquilo que plantou. Ficam cinco décadas de trabalho, personagens que nunca levantaram a voz para permanecerem na memória e aquele chapéu de Alan Grant, provavelmente ainda coberto de pó jurássico. Os dinossauros continuarão a rugir, porque Hollywood não deixa extinguir nada que venda bilhetes. Mas o homem que os enfrentava com inteligência, cansaço e boas maneiras desapareceu. E, de repente, o parque parece muito menos seguro.