Há uma frase que se repete todos os anos, à medida que as férias se aproximam: “Estou mesmo a precisar de parar.”
Dizemo-la quase como se fosse inevitável chegar a esta altura do ano cansados, saturados e a contar os dias para finalmente descansar. As férias tornam-se, assim, uma espécie de linha de chegada. O momento em que nos autorizamos a dormir mais, a abrandar, a estar com quem gostamos e, simplesmente, a ter tempo.
Mas talvez valha a pena fazer uma pergunta menos confortável: porque precisamos de chegar às férias para recuperar da vida que levamos durante o resto do ano?
A ciência mostra-nos que os períodos de descanso são importantes. Afastarmo-nos temporariamente das exigências profissionais e das rotinas habituais pode contribuir para reduzir a perceção de stress, melhorar o bem-estar e favorecer a recuperação física e psicológica. O problema é que estes benefícios tendem, muitas vezes, a diminuir depois do regresso ao quotidiano.
E talvez isso aconteça porque regressamos exatamente à mesma vida da qual precisávamos de recuperar.
Não são apenas o destino, o hotel ou a ausência de trabalho que nos fazem sentir diferentes nas férias. Muitas vezes, mudamos profundamente a forma como vivemos. Dormimos mais. Caminhamos mais. Passamos mais tempo ao ar livre. Comemos com menos pressa. Estamos mais disponíveis para conversar. Rimos mais. Olhamos menos para o relógio. Permitimo-nos não ser produtivos durante todas as horas do dia.
Nas férias, o tempo parece ter outra qualidade.
E o nosso organismo sente essa diferença.
Quando reduzimos a exposição prolongada ao stress e criamos espaço para a recuperação, o sistema nervoso tem maior oportunidade de sair do estado permanente de alerta. O sono pode melhorar, a tensão física tende a diminuir e recuperamos recursos cognitivos e emocionais que o ritmo diário foi consumindo. Não significa que alguns dias de descanso apaguem os efeitos de meses de stress crónico, mas recordam-nos de algo essencial: o corpo precisa de alternar entre exigência e recuperação.
Talvez por isso tantas pessoas digam, poucos dias depois de iniciarem férias, que voltaram a sentir-se “elas próprias”.
Esta expressão sempre me pareceu particularmente reveladora.
Se precisamos de parar para voltar a reconhecer-nos, talvez o problema não seja apenas o cansaço. Talvez, algures entre compromissos, horários, notificações e responsabilidades, tenhamos deixado pouco espaço para aquilo que também nos faz sentir vivos.
As férias devolvem-nos, muitas vezes, coisas muito simples.
Uma caminhada sem destino. Um pequeno-almoço sem olhar constantemente para as horas. Uma conversa que não é interrompida por uma tarefa. Um mergulho no mar. Um livro lido sem culpa. Uma sesta. Um jantar que se prolonga. A possibilidade de observar o pôr do sol sem sentir que deveríamos estar a fazer outra coisa.
Nada disto parece extraordinário. E, no entanto, para muitas pessoas, tornou-se excecional.
Também as relações ganham outro espaço durante as férias. Passamos mais tempo com a família, com os amigos ou com quem escolhemos partilhar a vida. Criamos memórias, conversamos com maior disponibilidade e recuperamos uma presença que, durante o ano, é frequentemente substituída pela logística.
Mas as férias também podem revelar algo menos confortável. Quando a rotina abranda e finalmente existe tempo para estar, algumas relações aproximam-se; outras expõem distâncias que o quotidiano conseguia esconder. Porque estar fisicamente junto não significa necessariamente estar verdadeiramente presente.
A longevidade constrói-se também aqui: na qualidade do tempo, na capacidade de recuperar, nas relações que nutrimos e nos momentos em que permitimos ao organismo sair do modo de sobrevivência.
Por isso, talvez o maior benefício das férias não esteja apenas nos dias em que estamos fora. Talvez esteja naquilo que elas nos podem ensinar sobre a vida para a qual regressamos.
Não podemos viver permanentemente de férias. Nem seria desejável. A vida precisa de compromisso, responsabilidade, desafio e propósito. Mas talvez possamos deixar de reservar tudo aquilo que nos faz bem para algumas semanas do calendário.
Podemos caminhar mais durante o ano.
Podemos criar refeições sem ecrãs.
Podemos proteger momentos de descanso sem sentir culpa.
Podemos marcar tempo com as pessoas de quem gostamos antes de a agenda ficar cheia.
Podemos passar mais tempo na natureza.
Podemos criar pequenos espaços onde não precisamos de produzir, responder ou cumprir.
Podemos, simplesmente, aprender a estar.
Não se trata de transformar o quotidiano numa versão permanente das férias. Trata-se de perceber o que muda em nós quando estamos de férias e perguntar o que dessa versão de nós próprios merece regressar connosco.
Talvez seja mais presença.
Talvez seja mais descanso.
Talvez sejam relações mais cuidadas.
Talvez seja menos pressa.
Talvez seja a sensação de que o tempo não serve apenas para cumprir tarefas, mas também para viver.
Na prática e no acompanhamento que realizo, observo frequentemente pessoas que adiam o descanso até estarem exaustas. Que esperam pelas férias para cuidar de si. Que passam meses a dizer “quando tiver tempo” e, sem perceberem, transformam o bem-estar numa promessa constantemente adiada.
Mas a saúde não pode viver apenas de pausas ocasionais. E a longevidade não se constrói em duas ou três semanas por ano. Constrói-se na terça-feira comum.
Na forma como começamos a manhã. Na pausa que fazemos — ou não fazemos. Na pessoa a quem telefonamos. Na hora a que desligamos o computador. Na qualidade do nosso sono. Na capacidade de dizer “hoje chega”. Nos pequenos momentos em que escolhemos estar verdadeiramente presentes na vida que já temos.
As férias são importantes. Devemos vivê-las, desfrutá-las e permitir que cumpram a sua função de descanso, prazer e recuperação. Mas talvez possamos regressar delas com mais do que fotografias e memórias.
Talvez possamos regressar com informação sobre nós próprios.
Se a longevidade se constrói todos os dias, talvez seja importante perguntar: o que existe nas suas férias que está a faltar na sua vida? E, mais importante ainda: o que pode trazer consigo quando regressar?
Porque talvez o maior ensinamento das férias não seja a importância de parar durante alguns dias. Talvez seja perceber o que precisamos de mudar para não passar o resto do ano à espera delas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.