A semana passada decorreu em Ancara a cimeira anual da NATO, entre a permanente instabilidade de Trump e o ambicioso lançamento de um modelo 3.0 da aliança defensiva filha da II Guerra Mundial.
Em Portugal, a atenção foi escassa, porque o País mediático e o Governo estavam mais concentrados no mundial de futebol, por entre transmissões de jogos a horas tardias e as três deslocações de Montenegro à América do Norte, mesmo com o País em situação de alerta devido à primeira vaga de incêndios rurais.
É certo que o tempo é já de férias e de distração, antecipando a silly season tão ansiada por este Governo precocemente estafado, mas não deixa de ser espantoso ver um primeiro-ministro a falar do risco dos incêndios rurais a partir da zona de flash interview do estádio de Dallas e também da barracada com a correção dos exames do ensino secundário a partir do concerto de Nick Cave, em Algés.
A cimeira da NATO permitiu ao Governo invocar como mérito a forma espremida como atingiu os 2,01% do PIB de despesas em Defesa em 2025, com muita ajuda de contabilidade criativa de despesas, sobretudo feitas pelas Finanças e pelo MAI, e prometer garbosamente chegar aos 3,1% já em 2026, com o contributo decisivo, mas mal esclarecido, do famoso PTRR.
Foi assim contornada a hipótese de reprimenda de Trumpe desta vez escapámos à humilhação de ser referidos como prestimosos colaboradores, nas Lages, da guerra contrária ao direito internacional feita ao Irão, que motivou os impropérios pela falta de solidariedade dirigidos a Espanha, França, Reino Unido e até à Itália de Meloni.
Mas se a cimeira começou com declarações de Trump sobre a deserção americana da Europa e novas ameaças à Dinamarca, por causa da Gronelândia, acabou com capitosas declarações de amor do instável autocrata de Washington ao espírito de amizade transatlântica.
A imprevisibilidade marcará os próximos tempos e a única certeza é de que a Europa terá de gastar mais em Defesa e estará cada vez mais por conta própria.
Neste quadro, o secretismo de Montenegro e de Nuno Melo sobre as opções em matéria de investimentos em Defesa é um perigoso sinal de falta de transparência, de ausência de estratégia e de desperdício de uma oportunidade única de apostar na indústria portuguesa e na elevação do padrão tecnológico nacional.
Sabe-se que cerca de 50% das despesas em Defesa, de 2025, foram com salários e pouco se conhece da forma como se atingiram os 2% finais. Para o futuro só se fala de compras de equipamentos milionários, como a aposta nos F-35 americanos, a cerca de 100 milhões de euros por unidade, ou das 3 fragatas italianas, que custam cerca de mil milhões de euros cada, com recurso aos empréstimos SAFE.
Em abril, o ministro Nuno Melo, confrontado com a falta de escrutínio político e de controlo legal de todo o processo, prometeu um modelo bizarro de acompanhamento, já para depois das decisões estarem tomadas, com a participação da IGF, da PGR e do Tribunal de Contas, mas nada aconteceu até ao encerramento do ano parlamentar.
Mas mais grave ainda do que a opacidade e o desinteresse por reunir consensos alargados, numa área de tradicional convergência política, é a sensação do desastre que representa para a economia nacional uma opção feita essencialmente de compras de equipamento sofisticado sem qualquer preocupação de envolvimento da tecnologia e da ciência nacionais, muito menos da participação da indústria portuguesa no desenvolvimento de projetos estratégicos na área da Defesa ou de fabrico em Portugal de componentes dos novos equipamentos.
Sabemos que para o sabujo Mark Rutte o aumento de despesa europeia em Defesa é muito boa notícia porque já criou 200 mil empregos nos Estados Unidos, mas do Governo português espera-se uma defesa mais ativa do interesse nacional, utilizando até experiências anteriores nas áreas militares e civis.
A participação portuguesa na construção do avião de transporte militar KC-390 da Embraer trouxe conhecimento e centenas de empregos qualificados paraÉvora e a nova fábrica da Lufthansa Tecknik em Santa Maria da Feira, associada à candidatura à compra da TAP, vai criar 700 empregos diretos.
Portugal foi uma inexistência na cimeira da NATO e o secretismo de Nuno Melo não contribui para o indispensável debate sobre o impacto das despesas militares nas opções de investimento até 2035, período que será marcado pelo novo ciclo de fundos europeus 2028/34 e pelo objetivo de chegar aos 5% em despesa na área da Defesa até 2035.
Muito mais do que o mero crescimento das despesas militares, o que está em causa são as consequências destas opções para o modelo social europeu, o potencial de contributo para a elevação tecnológica e de especialização da economia portuguesa e o nosso papel específico, como detentores do maior espaço marítimo europeu, no quadro de um modelo de autonomia estratégica europeia para lá do incerto futuro da NATO.
Para além das larachas sobre Olivença, das celebrações revisionistas do 25 de novembro e de tiradas de patriotismo serôdio, Nuno Melo é um governante na clandestinidade a decidir muitos milhões do nosso futuro, sem controlo democrático nem dimensão estratégica, que merece o prémio Limão Azedo da temporada política que está a terminar.
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