A discussão sobre Inteligência Artificial na educação tem sido frequentemente dominada por duas questões: como utilizar estas tecnologias na escola e se elas poderão substituir os professores. Ambas são relevantes, mas nenhuma delas atinge o núcleo do problema.
A questão decisiva é outra: que tipo de formação é necessária para exercer uma profissão cujo centro não é a transmissão de informação, mas o julgamento pedagógico numa relação humana?
Durante muito tempo, a formação de professores organizou-se em torno de dois eixos principais: o domínio dos conteúdos disciplinares e o domínio de técnicas de ensino. Esta arquitetura correspondeu a uma visão relativamente estável da escola moderna, na qual o professor era entendido como mediador entre o conhecimento científico e os alunos.
Essa conceção nunca foi inteiramente adequada à realidade do trabalho docente, mas torna-se hoje claramente insuficiente.
Transmissão de conhecimento
A Inteligência Artificial veio tornar evidente que uma parte significativa daquilo que entendíamos como transmissão de conhecimento pode ser realizada por sistemas automáticos cada vez mais sofisticados. Explicações, exercícios, resumos, simulações e respostas a perguntas deixaram de ser exclusivamente humanos.
Mas há algo que permanece fora deste movimento de automatização: a interpretação situada de pessoas concretas em contextos concretos.
É aqui que emerge o núcleo da questão formativa.
Aristóteles distinguia entre diferentes formas de saber. A episteme referia-se ao conhecimento científico. A techne ao saber-fazer técnico. Mas havia ainda uma terceira forma de racionalidade prática: a phronesis, ou prudência, isto é, a capacidade de deliberar bem em situações concretas, onde nenhuma regra geral é suficiente.
É esta forma de saber que mais se aproxima do núcleo da profissão docente.
Um professor não trabalha com abstrações. Trabalha com situações humanas irrepetíveis: uma turma concreta, um aluno concreto, um momento específico de aprendizagem ou de bloqueio. Decidir como intervir, quando esperar, quando exigir mais ou quando recuar não é aplicação de regras, mas exercício de julgamento.
A Inteligência Artificial pode fornecer sugestões e analisar padrões. Mas não pode assumir responsabilidade por decisões pedagógicas que envolvem pessoas reais em contextos reais.
É por isso que a formação de professores não pode ser reduzida nem ao treino técnico nem à aquisição de competências operacionais. Isso seria formar profissionais para um tipo de educação cada vez mais deslocado da realidade.
A questão torna-se então mais exigente: como se forma o julgamento pedagógico?
Escolas de residência profissional
A resposta não pode ser apenas teórica. O julgamento não se aprende apenas em livros. Também não se aprende apenas por imersão espontânea na prática. Aprende-se num processo estruturado de participação em comunidades profissionais onde a prática é observada, discutida e reconstruída coletivamente.
É neste ponto que ganha relevância uma proposta que tem vindo a ser desenvolvida por António Nóvoa: a ideia de uma formação de professores dentro da profissão, organizada num terceiro espaço entre universidade e escola, e concretizada em dispositivos como as chamadas escolas de residência profissional.
Nesta perspetiva, a formação inicial deixa de ser concebida como um momento prévio à profissão para passar a ser um processo de imersão prolongada em contextos reais de trabalho educativo. A escola deixa de ser apenas o lugar onde se aplica aquilo que foi aprendido e passa a ser também o lugar onde se aprende a profissão.
Este deslocamento é decisivo.
Significa reconhecer que o conhecimento profissional docente não se separa da prática. Pelo contrário, constitui-se na prática, através da observação, da reflexão partilhada e da construção coletiva de critérios de julgamento.
A formação de professores passa, assim, a ser entendida menos como aquisição de competências individuais e mais como entrada progressiva numa cultura profissional.
Essa cultura não é apenas técnica. É ética e relacional. Implica aprender a lidar com a incerteza sem a reduzir a fórmulas simplificadoras. Implica aprender a reconhecer que cada decisão pedagógica envolve responsabilidade perante outros. Implica aprender a sustentar relações educativas que não podem ser automatizadas nem normalizadas.
Dimensão profundamente humana da educação
É neste ponto que a Inteligência Artificial desempenha um papel paradoxalmente revelador. Ao automatizar tarefas antes associadas ao ensino, torna visível aquilo que nunca foi automatizável: a dimensão profundamente humana da educação.
E essa dimensão não pode ser ensinada à margem da profissão. Não se forma julgamento pedagógico fora das situações que exigem julgamento. Não se aprende responsabilidade educativa fora das relações que exigem responsabilidade. Não se constrói cultura profissional fora das comunidades que a praticam.
Talvez por isso a questão central da formação docente no século XXI não seja tecnológica, mas antropológica. Que tipo de profissional precisa de ser formado para educar outros seres humanos num mundo onde o conhecimento já não é escasso, mas excessivo, e onde as máquinas participam cada vez mais na produção desse conhecimento?
A resposta não pode ser o ‘técnico da aprendizagem’, nem o ‘operador de plataformas educativas’, nem o ‘executor de programas predefinidos’. Tem de ser um profissional capaz de exercer julgamento numa relação de responsabilidade com o outro.
É por isso que a formação de professores não pode prescindir de três dimensões fundamentais: a imersão prolongada em contextos reais de prática; a participação em comunidades profissionais que tornam visível a complexidade do trabalho docente; e o desenvolvimento de uma cultura de reflexão sobre a prática.
Nenhuma destas dimensões pode ser substituída por algoritmos. A Inteligência Artificial poderá apoiar o ensino, enriquecer recursos pedagógicos e ampliar possibilidades de aprendizagem. Mas não pode formar o julgamento que está no centro da profissão docente.
E é precisamente por isso que quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais exigente se torna a formação dos professores. Não para competir com elas. Mas para preservar aquilo que nenhuma tecnologia pode substituir: a capacidade humana de educar outros seres humanos.