Construiu-se junto dos jovens, durante anos, a tese de que a política é desinteressante. A ideia de que a política só se faz “de gravata” e de que não influencia tudo aquilo que fazemos no nosso dia a dia continua muito enraizada na Geração Z. Não só porque a política parece complexa, mas também devido à crescente polarização das convicções políticas e morais. Contudo, este desinteresse vem de um fenómeno ainda mais transversal na sociedade atual, e que já se instala independentemente da geração de que falamos: o anti-intelectualismo.
O anti-intelectualismo no século XXI surgiu da democratização da internet e do crescimento das redes sociais, uma vez que passaram a ser eliminados do processo de transmissão de informação aqueles que analisavam a sua veracidade, como especialistas, professores ou até meios de comunicação social. Com esta revolução repentina, a desinformação inundou as nossas vidas, e assim transformou-nos numa sociedade onde a hiperinformação está na ordem do dia. Situações como esta levaram a uma enorme fadiga da sociedade em relação à aquisição de informação, e é assim que chegamos ao anti-intelectualismo, porque é mais fácil alienarmo-nos de tudo aquilo que nos transmitem de “mau”.
Os jovens adotam esta maneira de pensar porque o entretenimento criado nos dias de hoje se baseia na superficialidade, e tudo o que perturbe essa noção é tido como “complexo”, “desinteressante” ou até não passível de ser alvo de uma opinião. Questões associadas a direitos humanos básicos ou a problemas sociais importantes são muitas vezes ignoradas pelos jovens portugueses enquanto usam as redes sociais ou quando acompanham o seu reality show favorito. Combater qualquer tipo de discriminação ou apenas formar uma opinião sobre estes acontecimentos obrigá-los-ia a assumir uma posição crítica, e o objetivo daqueles conteúdos é apenas estimular os mais básicos impulsos humanos.
A Geração Z acaba também por viver numa sociedade em que existem milhares de pessoas a dizer-nos constantemente aquilo que devemos apoiar, fazer ou seguir. Basta ligarmos a televisão ou qualquer rede social para termos alguém a opinar sobre algo, o que nos leva a sentir menos necessidade de desenvolver uma opinião crítica própria. O problema destes ditos especialistas que aparecem na televisão ou nas redes sociais é que são, muitas vezes, pessoas que apenas têm opiniões convictas baseadas em questões ideológicas e não são especializadas naquilo de que falam; ainda assim, aparecer nestes meios de comunicação credibiliza-os a um nível elevado. O problema? Tanto as redes sociais como a televisão dão muitas vezes mais importância ao entretenimento, às métricas e às sondagens do que à veracidade da informação transmitida por um comentador ou por um “especialista do TikTok”.
Para agravar o problema do anti-intelectualismo, a falta de leitura, de estudo e de procura de informação, fruto dos facilitismos atuais, leva a que os jovens estejam cada vez mais desconfiados dos especialistas, tal como dos políticos, o que resulta também numa democracia mais frágil. Não é por acaso que uma parte considerável dos jovens diz não perceber muito de “direita ou esquerda” e nem sequer sabe onde se posicionar politicamente. Toda essa ignorância acaba por ser recompensada pelo ecossistema digital.
Vivemos hoje numa era em que o contraditório é recompensado e em que basear uma opinião num facto verídico já não é sinónimo da sua defesa. O anti-intelectualismo tem sido recompensado pela sociedade digital e foi incutido na população a níveis nunca antes vistos. Qualquer um de nós já teve a experiência de debater política com factos verídicos e vê-los desconsiderados de imediato, mesmo quando a outra pessoa fica sem qualquer razão. Assim, rejeitar consensos científicos passou a ser visto por certos grupos como um ato de “liberdade de expressão” e de rebeldia contra o sistema, transformando o anti-intelectualismo numa subcultura identitária atraente. E não apenas por certos grupos, mas mesmo por certos partidos que compõem a nossa Assembleia.
Não podemos pedir aos jovens que desenvolvam a sua cultura e se tornem mais intelectuais se continuamos a recompensar ideias erróneas só porque justificam as nossas ideologias vazias. Não será com cheques-livro que vamos resolver este enorme problema, cada vez mais grave na sociedade, não só portuguesa, como global.
Anseio pelos tempos em que os debates se baseavam em informação verídica, e não apenas em ideologias, ou em que os políticos, as maiores figuras de poder em Portugal, tomavam decisões assentes em dados e conclusões credíveis. O exemplo não começa em casa. O exemplo, por vezes, começa no Parlamento.
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