Há quem acorde num corpo conhecido, mas com um cérebro que responde de outra forma. Uma lesão cerebral pode durar segundos, mas a reconstrução de quem éramos pode levar anos ou décadas. Quando o cérebro sofre uma lesão, o impacto não se limita ao que deixamos de conseguir fazer. Muitas vezes, a perda mais difícil de explicar é outra. Pode deixar de existir a sensação de continuidade entre quem éramos antes da lesão e quem somos agora.
Tradicionalmente, a recuperação de uma lesão cerebral costuma ser medida pelas capacidades que regressam. Os músculos voltam lentamente a obedecer-nos. A fala devolve-nos a nossa voz. As memórias, pouco a pouco, devolvem-nos pequenos fragmentos de uma vida anterior. Mas a recuperação não termina no que o corpo volta a fazer. Mesmo que os exames mais modernos consigam mostrar o que o cérebro perdeu, preservou ou recuperou, ainda não conseguem responder à questão “Eu ainda sou a mesma pessoa?”.
O que está verdadeiramente em causa após uma lesão é aprender a reconhecer-se de novo e a habitar um cérebro que já não é exatamente o mesmo. É esse o verdadeiro caminho de regresso a si próprio.
Algo que tento transmitir aos meus alunos é que o cérebro não é apenas o guardião das nossas memórias, das línguas que falamos, da forma como nos movemos no espaço ou da forma única como nos relacionamos com os outros. O que verdadeiramente importa é que é nele que permanece enraizada a nossa história, a nossa voz, os nossos afetos, as nossas escolhas e a forma irrepetível como existimos no mundo. É nele que vive aquilo a que chamamos “eu”.
Quando um médico diz que um paciente poderá recuperar até 90% da sua função cerebral, o paciente não vai pensar apenas na percentagem recuperada. O que nos perguntamos aterrorizados é “que parte de mim vivia nesses 10% que nunca mais existirão?”. A pergunta é feita em poucos segundos, mas a resposta pode levar anos a construir-se.
Num ensaio autobiográfico publicado na The New Yorker, o escritor e editor britânico Robert McCrum traduziu com rara precisão a sua vida depois de um AVC hemorrágico como uma existência dividida em duas: a “vida antiga” e a “vida nova”. Quando voltou a escrever, agora apenas com a mão direita, perguntou-se se continuava a ser o mesmo homem que antes escrevia com as duas mãos. Dito assim, pode parecer apenas uma dúvida sobre a escrita, mas esse é um dos medos mais frequentes associados a uma lesão cerebral. Podemos permanecer vivos e funcionais, e ainda assim, sentir que alguma continuidade essencial se perdeu.
Neste Dia Mundial do Cérebro, esta é uma homenagem a todos os que sofreram uma “fratura” na sua identidade após uma lesão cerebral e tentam reencontrar-se num cérebro diferente. A todos os que sobreviveram, mas não regressaram exatamente ao lugar onde estavam antes da lesão. Aos que não voltaram a ser exatamente quem eram e estão a ter de reaprender a habitar o seu próprio cérebro. Para muitos não será possível devolver-lhes exatamente o cérebro de antes. Mas a ciência avançou o suficiente para ajudar muitos a reconhecerem-se novamente no cérebro que agora têm. E esses muitos ainda poderão, pouco a pouco, olhar para o que ficou e reconhecer “Ainda sou eu!”.
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