Há uma conversa com um avô que termina com um simples “até logo”, quando, na verdade, era um adeus. Há um verão com amigos que nunca mais se repete. Há uma fotografia em que ainda estão todos, mas só percebemos isso anos mais tarde.
O curioso é que quase nunca sabemos quando é a última vez e talvez seja essa uma das maiores diferenças entre a infância e a idade adulta.
Enquanto crescemos, colecionamos primeiras vezes: o primeiro dia de escola. O primeiro beijo. O primeiro emprego.
Depois, sem aviso, começamos a colecionar as últimas e ninguém nos prepara para isso.
Não existe uma conversa que nos explique que crescer também significa despedirmo-nos, lentamente, de partes da nossa vida.
Não apenas de pessoas, mas também de versões de nós próprios.
Chamamos-lhes lutos não reconhecidos. São perdas que não têm funeral, flores ou minutos de silêncio. Não geram licença no trabalho nem mobilizam mensagens de condolências, mas exigem que nos reorganizemos por dentro.
É o luto pelo corpo que já não responde da mesma forma. Pela amizade que desapareceu sem discussão. Pelos pais que deixaram de parecer invencíveis. Pelos filhos que já não pedem colo. Pelos sonhos que, um dia, percebemos que já não vão acontecer. Pela profissão que imaginávamos ter. Pela cidade onde pensávamos envelhecer. Pela versão despreocupada de nós, que ficou algures entre responsabilidades, contas para pagar e listas intermináveis de tarefas.
Nenhuma destas perdas parece suficientemente importante para merecer um nome, mas todas juntas deixam marca.
Talvez por isso tantos adultos sintam uma nostalgia difícil de explicar. Não é, necessariamente, saudade do passado, mas a saudade de quem eram enquanto o viviam.
Passamos muito tempo convencidos de que maturidade significa ganhar: mais experiência, mais estabilidade, mais segurança, mais controlo.
Mas talvez a maturidade seja exatamente o contrário. Talvez seja perceber que viver não é acumular apenas conquistas, é aprender a perder sem deixar de avançar. Aceitar que algumas pessoas vão embora. Que certos lugares deixam de ser nossos. Que algumas relações terminam. Que determinados capítulos não voltam a abrire que nem todas as perguntas terão resposta.
Há uma frase que repetimos muitas vezes: “Aproveita o momento.” Mas a verdade é que ninguém consegue viver permanentemente consciente de que tudo pode ser a última vez. Se o fizéssemos, viveríamos presos ao medo.
Talvez o desafio seja outro: não viver com a ansiedade da última vez, mas garantir presença suficiente para que, quando ela acontecer, não sintamos que passámos pela vida distraídos.
Porque o verdadeiro problema não é o término de algo, é descobrirmos, demasiado tarde, que não estivemos realmente lá enquanto acontecia.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.