É a eterna discussão sobre a forma como a política partidária tenta capturar a cultura dentro das suas malhas fininhas. Se tudo é político e a cultura é maior do que os sentidos alcançam, o seu aprisionamento dentro das caixinhas da esquerda e da direita garante a escolha segura das vistas curtas, o conforto de quem não quer ser desassossegado das visões do mundo rígidas que já formou. Esta semana tivemos um bom exemplo disso na Câmara Municipal de Lisboa.
A discussão em torno da EGEAC (empresa municipal que gere equipamentos culturais em Lisboa) corre à solta há vários meses. Em janeiro, Margarida Bentes Penedo, que tinha sido deputada municipal do CDS e agora pertence ao Chega, fez um discurso na Assembleia Municipal em tudo emblemático, defendendo uma “cultura de direita” e criticando Carlos Moedas por ter ido inaugurar “uma placa com o nome de José Saramago” em vez de ter ido a um concerto do fadista João Braga, “dos poucos artistas que se têm ligado sempre à direita”.
Seguiu-se uma carta aberta de vários profissionais da cultura a denunciar uma tentativa de censura e fascismo cultural. Por outro lado, seguiram-se também mudanças nas direções dos equipamentos culturais da capital. Rita Rato, antiga deputada do PCP, foi afastada do Museu do Aljube, e Francisco Frazão, do Teatro do Bairro Alto, o teatro cuja programação Margarida Bentes Penedo tanto tinha criticado no seu discurso de janeiro.
Não faltam cartas abertas e petições contra o que está a acontecer com a cultura em Lisboa, a nível municipal, incluindo a petição Festas de Abril sem Abril, que critica a “progressiva desvalorização” do 25 de Abril na programação municipal, o que muito ofendeu Carlos Moedas, considerando-a um “ataque político”.
Mas no último mês a EGEAC, liderada por Pedro Moreira, também retirou o seu apoio ao Festival Política, parceria que mantinha desde 2017. O Festival Política deste ano tem como tema os 50 anos da Constituição e, embora se realize em várias cidades, o seu arranque acontece sempre em Lisboa. Como reação, a Junta de Freguesia de São Vicente veio dar o seu apoio ao evento.
Ao jornal Expresso, Pedro Moreira assume que o objetivo é retirar carga ideológica às opções culturais de Lisboa, garantindo que “a visão estratégica de Carlos Moedas se direciona para todos”.
E assim devia ser. Mas há visões estratégicas difíceis de explicar. Qual será a razão pela qual a EGEAC dá 75 mil euros por ajuste direto a um Chic-Nic? Para todos não foi, certamente, já que os participantes pagavam entre 150 e 300 euros para passar o domingo a “piquenicar” no Parque Eduardo VII, no Dia da Mãe. Anunciava-se uma experiência gastronómica com dez pratos dos “mais icónicos restaurantes da Avenida da Liberdade”, e concertos de David Fonseca e da Orquestra Académica Metropolitana de Lisboa. Uma organização do promotor de eventos Gonçalo Castel-Branco, que colaborou na noite eleitoral de Carlos Moedas.
Como diria Dâmaso Salcede, tudo “chique a valer”.