Há guerras que terminam no campo de batalha e outras que começam precisamente aí. O conflito em torno do Irão pertence à segunda categoria. Porque mais do que uma disputa militar, aquilo que está em causa é uma reconfiguração silenciosa, mas profunda, do equilíbrio de poder no Médio Oriente.
Durante décadas, a estratégia ocidental assentou numa premissa relativamente simples: pressão económica, isolamento diplomático e, em último recurso, superioridade militar tecnológica seriam suficientes para conter Teerão. Essa premissa começa agora a revelar as suas limitações. Não por falta de capacidade de destruição, mas por ausência de capacidade de transformação. O poder e o domínio militar não mais conseguem impor o domínio político.
Os EUA e Israel demonstraram, uma vez mais, que conseguem atingir infraestruturas críticas, degradar capacidades militares e impor custos elevados ao regime iraniano. Mas isso não é o mesmo que alterar o regime. E essa distinção, que muitas vezes se perde no ruído mediático, é hoje central.
Sem presença no terreno, sem controlo territorial, sem uma estratégia de reconstrução política, qualquer intervenção externa fica condenada a um paradoxo: pode enfraquecer o adversário militarmente, mas tende a fortalecê-lo politicamente. O Irão conhece bem essa lógica. Sobreviveu a sanções devastadoras, a isolamento internacional e a ciclos sucessivos de confrontação. E, em cada um desses momentos, conseguiu transformar pressão externa em coesão interna.
Há um elemento estrutural que explica essa resiliência: o regime iraniano não é apenas um regime político, é uma arquitetura de poder profundamente enraizada na sociedade, com múltiplos centros de influência, desde os Guardas da Revolução até às redes económicas paralelas. Destruir uma base aérea é possível. Desmontar esse sistema é outra coisa.
É neste contexto que o cenário mais incómodo para o Ocidente ganha forma. Um Irão que, apesar dos danos sofridos, emerge desta crise não derrotado, mas reafirmado. Não necessariamente mais forte em termos militares convencionais, mas mais relevante enquanto ator estratégico.
O estreito de Ormuz é a peça central desta equação. Cerca de um quinto do petróleo mundial passa por aquele corredor. A simples capacidade de o ameaçar, mesmo sem o fechar, é suficiente para influenciar mercados, pressionar economias e condicionar decisões políticas em Washington, Bruxelas ou Pequim. O Irão não precisa de vencer uma guerra para exercer poder. Basta-lhe manter a capacidade de perturbação e de resistência.
A guerra, para o Irão, nunca foi de choque, mas de resistência, uma lógica moldada por 47 anos de regime.
Ao mesmo tempo, a guerra reforça a utilidade geopolítica de Teerão para outros atores. A China vê no Irão um parceiro energético e um elemento de estabilidade relativa na sua estratégia de acesso a recursos, mas também esta guerra transformou a importância da China na região. A China sairá mais forte. A Rússia encontra ali um aliado tático num momento de confronto aberto com o Ocidente. Mesmo alguns países do golfo, apesar da rivalidade histórica, são obrigados a recalibrar a sua posição perante um regime que não desaparece.
O resultado é uma inversão subtil, mas significativa. Aquilo que começou como uma tentativa de contenção e domínio pode acabar por legitimar o Irão como potência indispensável no equilíbrio regional. Não porque seja invencível, mas porque é incontornável.
Há também uma dimensão interna que não deve ser ignorada. O regime enfrenta tensões sociais, económicas e geracionais profundas. Mas a História mostra que regimes sob ataque externo tendem a consolidar-se, não a fragmentar-se. A narrativa da resistência continua a ser um instrumento poderoso de mobilização.
E a ideia, algo peregrina, de apresentar Reza Pahlavi como o grande salvador da pátria também não reúne, até ao momento, o apoio interno necessário para sustentar uma verdadeira transformação política e social.
Tudo isto coloca o Ocidente perante um dilema estratégico clássico, mas raramente assumido: é mais fácil destruir do que substituir. E, no caso iraniano, a ausência de uma alternativa credível torna qualquer vitória militar uma espécie de vitória incompleta.
Talvez por isso a verdadeira questão não seja se o Irão sai desta guerra mais forte ou mais fraco. A questão é outra: sai mais necessário.
E, no Médio Oriente, ser necessário é muitas vezes a forma mais eficaz de poder.
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