Faltam, à data da saída desta edição da VISÃO, apenas dez dias para as eleições presidenciais de 2026. Os portugueses vão escolher o oitavo Presidente da República da democracia e o sexto eleito por sufrágio direto e universal. Ao longo deste tempo, desde 1976 (ano do 1º PR eleito), vimos passar por São Bento 14 primeiros-ministros e pelo Vaticano seis Papas. Na Presidência, tivemos, desde 1974, dois militares, os mais prestigiados do País, antes do formato definido pela Constituição aprovada em 1976: António de Spínola e Francisco da Costa Gomes. Seguiu-se um terceiro militar, o primeiro eleito, e o mais prestigiado do pós-revolução. António Ramalho Eanes foi reeleito e cumpriu, assim, dois mandatos, o que se tornaria regra para todos os seus sucessores.
Em 1986, pela primeira vez, os portugueses puderam escolher um civil. Com a sociedade polarizada como não se via desde os tempos do PREC, o País teve de ir às urnas duas vezes, nas únicas presidenciais que exigiram uma segunda volta. Em confronto, duas das maiores figuras políticas nacionais e dois fundadores civis do regime: Mário Soares era o político mais influente, na luta pela liberdade, antes e depois do 25 de Abril, o mais decisivo na construção do regime, por ter lutado, primeiro, contra a ditadura e, depois, contra a tentativa de imposição de uma ditadura de sinal contrário. Líder histórico do PS, Soares enfrentava um grande professor de Direito e fundador histórico do CDS, Diogo Freitas do Amaral. Bastante cúmplices durante o processo revolucionário, onde, por diversas vezes, concertaram táticas e posições, parceiros de um governo “contranatura” de acordo de incidência parlamentar entre o PS e o CDS, não viraram, desta vez, a cara a um duro braço de ferro pessoal onde valeu quase tudo. E só a índole pouco rancorosa de ambos e, sobretudo, a profunda cultura democrática de um e de outro permitiram que, pouco tempo decorrido sobre a pugna, fizessem as pazes e cimentassem uma longa amizade.
No rescaldo das eleições, tendo Freitas do Amaral perdido por, como então se dizia, “um Estádio da Luz de diferença”, muitos dos seus apoiantes pressionaram-no a não aceitar os resultados eleitorais, a impugná-los e, a partir do Norte, marchar sobre Lisboa. A invocação do 28 de maio de 1926 ou até a da marcha de Mussolini sobre Roma passou mesmo a sério pela cabeça de inúmeros apoiantes radicais de Freitas, que, por sua vez, recusou terminantemente a aventura e se apressou a reconhecer os resultados e o novo Presidente “de todos os portugueses”. Essa atitude valeu-lhe a inimizade perpétua de antigos apaniguados, como descreve no 3º volume das suas memórias – Mais 35 Anos de Democracia, Um Percurso Singular (Bertrand, 2019), mas o não reconhecimento de resultados eleitorais, de que Portugal poderia ter sido, entre as democracias ocidentais, um precursor, faria o seu caminho, como se viu, com Donald Trump, nos EUA, em 2020…
A Mário Soares seguir-se-ia Jorge Sampaio, em 1996. Mais uma vez, a luta era entre um dos mais capazes e prestigiados políticos do País, que estava a revolucionar, como autarca, o rosto da capital portuguesa e exibia um percurso de impecável intervenção cívica, desde 1962, Jorge Sampaio, e o primeiro-ministro mais realizador da democracia portuguesa, que modernizara o País e o colocara no trilho da Europa, Cavaco Silva. Os perfis encaixavam, mais uma vez, inquestionavelmente, na figura de Presidente da República. Ganhou Sampaio como poderia ter ganhado – e veio a ganhar, dez anos depois… – Cavaco Silva. Com efeito, em 2006, Cavaco voltaria a apresentar-se, mas teve de enfrentar o regresso de Mário Soares, que, aos 80 anos, queria fazer, ao menos, um terceiro mandato. O principal motivo para que o “velho leão” entrasse na liça foi o de não suportar a ideia de que “um tipo sem mundo e sem conversa” ocupasse o mais alto cargo da Nação, mas Soares subestimou o adversário. E até o seu concorrente “interno”, Manuel Alegre, que foi mesmo para a frente com a bravata de uma candidatura que, alegadamente, o líder do PS, José Sócrates, prometera apoiar (antes de roer a corda, preferindo Soares) acabou por ficar em 2º lugar, à frente de Soares. Mas, nesse ano de 2006, começou a notar-se alguma deterioração da qualidade do pessoal político, a este nível. Cavaco era o último grande senador e as restantes figuras gloriosas do passado, incluindo Soares, ou tinham desaparecido ou estavam fora do prazo de validade.
Esse problema voltou a colocar-se em 2016, quando o melhor que saiu ao caminho do passeio triunfal de Marcelo Rebelo de Sousa foi um professor universitário, prestigiado, é certo, mas praticamente desconhecido dos portugueses, pouco empático e sem currículo político que o recomendasse como figura óbvia para nos representar em Belém: António Sampaio da Nóvoa, de quem voltou a ouvir-se falar este ano, não tinha o carisma nem a gravitas. E Marcelo, mesmo sem um passado político especialmente brilhante e com zero cargos executivos, era, pelo menos, um “histórico” e uma inteligência brilhante que se credibilizara em mais de duas décadas de comentário político de grande audiência em horário nobre.
Dez anos depois, aqui chegados, a crise de valores na política, pelo menos, para o nível da Presidência da República, é absolutamente gritante. As grandes figuras como António Guterres, Durão Barroso, António Costa, Pedro Passos Coelho ou, até, Paulo Portas, que bateriam facilmente qualquer dos candidatos em disputa, pelo menos, a nível de currículo e de reconhecimento público, não viram no apelo de Belém qualquer motivação ou chamamento. Dir-se-ia que o País, que parece crescentemente seduzido pelo apelo populista de um líder arrivista como André Ventura, deixou de os merecer. É como se Portugal já não valesse a pena.
Mas as coisas são como são. O próximo Presidente da República deverá sair deste trio (e apenas porque André Ventura ainda está a crescer): Luís Marques Mendes, Henrique Gouveia e Melo ou António José Seguro (com Cotrim de Figueiredo à espreita). E se é verdade que haverá, de novo, com Portugal outra vez muito polarizado, uma segunda volta, essa circunstância não dá qualquer liberdade para se votar com o coração na primeira. Se há alguma coisa que as sondagens demonstram é que André Ventura fixou o eleitorado do Chega que, mais coisa, menos coisa, corresponde a 23%. Ora, foi precisamente com apenas mais dois pontos – cerca de 25% – que Mário Soares, em 1986, conseguiu ir à 2ª volta. E, nessa altura, os votos não estavam tão dispersos, pelo que os tais 23% bem poderão ser hoje suficientes. O que quer dizer que o adversário de Ventura, designado à primeira volta, será o próximo Presidente da República. À falta de um fundador da democracia, de um ex-primeiro-ministro de sucesso ou de um político de topo experiente, os portugueses terão de optar por um ex-ministro e ex-líder partidário (nunca sujeito a votos) que, como comentador, se tornou um Marcelo de marca branca; ou um militar profissional, cuja medalha cívica maior foi a coordenação de uma vacinação durante uns meses; ou um antigo ministro e líder partidário cuja grande vantagem é a de se ter afastado da política durante dez anos. Mas também foi para isto que as repúblicas se fizeram: para acabar com as castas e com os privilégios. Qualquer cidadão pode ser Presidente. Agora, é cruzar os dedos…