E pronto. O País político volta a estar dominado pelos debates televisivos, desta vez em contexto de presidenciais. O debate televisivo, desde o que, nos EUA, em 1960, opôs John F. Kennedy a Richard Nixon, é uma peça de comunicação política de eficácia extrema, sobretudo entre indecisos que, frequentemente, serão, no dia das eleições, o fiel da balança. O nosso “momento Nixon vs Kennedy” ocorreu 15 anos depois do célebre debate na América, a 6 de novembro de 1975, entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. Nesse dia, juntaram-se fatores irrepetíveis: a RTP sabia que o debate era decisivo, ao ponto de poder definir o futuro regime político, em Portugal. Os moderadores, competentes, imparciais e com cultura política, sabiam que, em consonância, teriam de deixar falar os interlocutores, sem interrupções que fizessem dos jornalistas os protagonistas ou as estrelas – ao contrário do que, frequentemente, vemos, na atualidade. E todos sabiam que a importância do momento exigia que não houvesse “compromissos publicitários” nem (mesmo se houvesse, e não havia, canal concorrente) cumprir um horário para poder fazer contraprogramação: aquele debate não tinha hora para acabar. Debates de meia hora são, nos nossos dias, um aperitivo para conhecer o estilo dos debatentes e são, sobretudo, entretenimento puro e duro. Não têm qualquer valor informativo. Mas o modelo segue as tendências da nossa época: superficialidade, pressa, espetáculo e clickbait.
Nos últimos anos, as audiências, perante debates políticos, na televisão, têm subido, mas não se sabe se os espectadores (e eleitores) ficam presos ao ecrã pelas melhores razões. Será a ânsia de ficarem mais bem esclarecidos ou veem a contenda, de pipocas na mão, como se estivessem a assistir a um combate de boxe? A própria lógica mediática, que nos interpela a todos nós, jornalistas, segue o guião da busca de luta na lama. Os termos bélicos – confronto, combate, “murros no estômago”, “rasteira”, levar o adversário “ao tapete” – são de uso e abuso corrente, no contexto do debate político-mediático. Duvida-se de que alguém fique preso a um debate com o objetivo de conhecer melhor as ideias do debatente, para melhor poder decidir o voto: olha-se para o debate com espírito de claque, esperando que o candidato da nossa simpatia consiga “arrasar” o adversário, independentemente do mérito das ideias que, aliás, até é preferível que não existam: não nos obriguem a pensar, escolher, decidir. Em casa, cada espectador se mune do seu cachecol.
Nestas eleições presidenciais há, assim, duas curiosidades principais: como se sairá Henrique Gouveia e Melo, o único candidato que nunca participou num debate nem enfrentou contraditório, no ringue destes combates? Como encaixará os ganchos de direita ou de esquerda, como se esquivará aos golpes baixos e como atingirá os adversários? Tem conversa para o confronto, ou vai refugiar-se em frases curtas e ideias redondas, como fez nas entrevistas? Surpreenderá pelo seu estilo diferente e desconcertante ou espalhar-se-á ao comprido? Segunda curiosidade: alguém conseguirá levar André Ventura ao tapete?
Escrevo este texto segunda-feira, 15, poucas horas antes de António José Seguro e Ventura abrirem, na TVI, a “época de caça”. Gouveia e Melo estreia-se, precisamente, esta quinta-feira, enfrentando, na RTP, Cotrim de Figueiredo. Por sorte, o almirante não se estreia contra um tubarão, nem nenhum dos principais adversários, e tem, portanto, alguma margem de erro. Nas entrevistas, Gouveia e Melo revelou candura nas suas ideias, algum calculismo aqui e ali – quando tinha receio de meter “a pata na poça” – mas, na maior parte das vezes, um certo “simplismo” que pode aproximá-lo do português comum. Tem um estilo direto, a frase curta, o ar marcial. Faz lembrar Eanes e, sobretudo, Cavaco Silva, na aridez do discurso, mas também na clareza do raciocínio. O seu maior trunfo é essa frontalidade e a seriedade que contorna o “pé atrás” do espectador, lá em casa. A sua principal fragilidade será a falta de jogo de cintura, a falta de agilidade para ir ao repique do que diz o opositor e a falta de capacidade de encaixe para o ataque rasteiro (cuidado com André Ventura e cautela com a “cobra” Marques Mendes…).
António José Seguro, mais do que Marques Mendes, curiosamente, é o Marcelo de 2016: agregador, educado, vem para reconciliar os portugueses e esbater a polarização. Não será fácil (ao contrário de mim, o leitor já tem a vantagem de ter visto o debate de segunda-feira, com Ventura…) não será fácil, dizia, bater-lhe sem ficar com uma imagem antipática de mal-educado. Seguro tem a vantagem de ser a “vítima perfeita”, com quem as pessoas simpatizam, caso seja atacado. Afinal, ele é “um homem sério”, uma pessoa cordata, o bom rapaz e o genro que qualquer sogra gostaria de ter. Desvantagem: é cinzento e pouco empolgante e tem um discurso “velho” de conciliação fora de moda e paninhos quentes bocejantes.
Marques Mendes, já aqui se disse, é a “cobra”. No rol das suas vantagens, estão as muitas horas de televisão e o correspondente poder de comunicador exímio. “Cobra”, no sentido em que saberá enlear os adversários, tratando-os como se fosse o fã nº 1 deles e, quando os adormece, dar-lhes a estocada. Fez isso, em entrevistas, sempre que se referiu àquele que identificou como o principal adversário, Gouveia e Melo. Desvantagem, uma certa “artificialidade” que, no seu discurso de pretenso independente, pode soar a falso. Tem de combater isso, porque isso nota-se, em televisão.
André Ventura será mais do mesmo, mas, agora, ainda mais radical e com menos filtro. Cada ataque dos adversários só vai dar-lhe mais força, porque o aproveitará, como nas artes marciais, a seu favor. Se perder um debate, é porque o ganhou. Se o ganhar, é porque esmagou. Ventura ganha sempre, mesmo que mate uma velhinha, na Avenida da Liberdade e à vista de toda a gente. Em princípio, não era uma velhinha: ele saberá convencer o respeitável público de que era um perigoso terrorista-subsodiodependente-muçulmano do Bangladesh, disfarçado de velhinha. A vantagem é ser Ventura. E não tem desvantagens.
Só há uma forma de o combater: pelo humor e pelo sarcasmo. Suponhamos que o leitor é adversário de Ventura num debate. E que os eleitores sabem bem que as suas ideias, a sua prática, o seu histórico e as suas declarações estão nos antípodas do seu adversário. Pois bem: nesse debate, a melhor forma de o derrotar é concordar com ele. E dizer “esfola”, ao mesmo tempo que caricatura o momento em que ele diz “mata”. “Três Salazares, dr. André Ventura?! Pelo amor de Deus! O País precisava, no mínimo, de cinco ou seis! [Neste ponto, Ventura já se baralhou.] Imigrantes? Deviam ser todos deportados, de preferência, de grilhões nos pés! Corrupção? Claro que o País está minado e eu próprio também sou um corrupto da pior espécie! Sim, também eu faço parte deste sistema corrupto que nos governa há 50 anos… Aqui me penitencio e me ofereço para me entregar na prisão, logo que o senhor seja eleito…” Ventura não está habituado a que concordem com ele. Ao contrário do que se possa pensar, ele vive do e medra no contraditório. Com um adversário que o surpreendesse desta maneira – um adversário que, além de todas as dúvidas, fosse identificado, pelos espectadores, como não sendo possível que estivesse a falar a sério – ganharia o debate a Ventura, com este discurso caricatural.
Não vai acontecer.