O neofascismo do século XXI não é apenas uma atualização estética de velhas doutrinas autoritárias; é uma mutação estratégica que combina heranças ideológicas do passado com instrumentos contemporâneos de poder. Chamar-lhe apenas “novo fascismo” pode até ser insuficiente. O que hoje observamos, em várias geografias e contextos políticos, aproxima-se de um fenómeno mais sofisticado: um fascismo com alma russa, sustentado por uma lógica de poder centralizado, por uma visão geopolítica de confrontação permanente e, sobretudo, por uma utilização sistemática da tecnologia como ferramenta de influência e controlo.
Ao contrário do fascismo clássico, que se afirmava de forma declarada, mobilizando massas em torno de símbolos e lideranças carismáticas, o neofascismo contemporâneo prefere a ambiguidade. Não se assume como tal. Pelo contrário, infiltra-se nos discursos democráticos, apropria-se da linguagem da soberania popular e apresenta-se como resposta legítima a crises reais — económicas, culturais ou identitárias. É precisamente nesta capacidade de disfarce que reside a sua força.
A referência a uma “alma russa” não deve ser entendida de forma simplista ou nacionalista, mas antes como metáfora de um modelo político que privilegia o controlo do Estado sobre a sociedade, a manipulação da informação e a projeção de poder através de meios não convencionais. Trata-se de um paradigma onde a verdade se torna relativa, onde a realidade pode ser moldada e onde a política se transforma num campo de operações híbridas — simultaneamente internas e externas.
E é aqui que entra o elemento central desta nova ideologia: a tecnologia. As plataformas digitais, os algoritmos e os sistemas de recomendação não são neutros. São infraestruturas que podem ser instrumentalizadas para amplificar discursos extremistas, criar bolhas de perceção e fragmentar o espaço público. O neofascismo compreendeu isso melhor do que muitos defensores da democracia. Em vez de censurar diretamente, como no passado, manipula fluxos de informação, promove desinformação e explora emoções como o medo, a indignação e a sensação de perda.
A tecnologia permite também uma vigilância difusa, muitas vezes invisível, que dispensa os mecanismos repressivos tradicionais. O controlo não precisa de ser explícito quando pode ser internalizado. A opinião pública é moldada não pela imposição, mas pela repetição, pela saturação e pela construção de narrativas aparentemente espontâneas.
Importa, contudo, evitar simplificações. Este fenómeno não nasce apenas de estratégias deliberadas de poder; ele alimenta-se de fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas. Desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e crises de representação criam o terreno ideal para que estas ideias prosperem. O neofascismo não impõe apenas uma visão — ele oferece respostas fáceis para problemas complexos, ainda que essas respostas sejam, no limite, profundamente excludentes e perigosas.
Dizer que o neofascismo é o fascismo com nova roupagem é correto, mas incompleto. Ele é mais do que isso: é um sistema adaptativo, que aprende, evolui e se reinventa. Um sistema que já não precisa de marchas ou uniformes para se afirmar, porque encontrou na tecnologia e na manipulação da informação os seus novos pilares.
Se há lição a retirar, é que o combate a este fenómeno não pode ser feito apenas com memória histórica ou indignação moral. Exige compreensão profunda, capacidade crítica e, sobretudo, a reconstrução de confiança nas instituições democráticas. Porque o maior risco do neofascismo não é a sua visibilidade — é precisamente a sua capacidade de parecer normal.
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