Perante a morte de uma figura como Francisco, é natural perguntar qual o legado, o que ficará para o futuro, qual será o seu lugar na História. Naturalmente, estamos longe de ter um afastamento que nos permita uma análise isenta do momento presente, mas muito se pode já avaliar, essencialmente, naquilo que ele tornou incontornável para o seu sucessor.
Nos próximos dias, até ao conclave, os cardeais eleitores terão um árduo trabalho de reflexão sobre esse legado. E a questão será simples: o próximo Sumo Pontífice deverá ser um Francisco II, um quase-Francisco, mas mais “calmo” nas mudanças, ou um anti-Francisco. Em nenhuma das equações, Francisco fica de fora, tal foi a marca que ele deixou.
Vemos, nos comentários dos católicos, a vertigem perante a possibilidade do recuo na dinâmica de mudança. De facto, nada é irreversível, uma vez que Francisco trabalhou muito no campo da sua pastoral, não na criação de medidas legais e formais que marquem definitivamente a vida e a organização da Igreja Católica.
Possivelmente, o mais importante e que Francisco fez foi semear, não no campo da legalidade, mas nas mentalidades, a necessidade de uma Igreja que viva das bases para o topo, liberta dos constrangimentos do clero, inclusiva. Mas essas alterações, no campo das mentalidades, demoram muitos anos a se cimentar e, não sendo do campo da legalidade, são sempre passíveis de ser refutadas.
E a sementeira, ou é cuidada, ou morre. E é aí que o sucessor terá de ser um árduo agricultor, ou não. Mas sempre com Francisco em pano de fundo, como modelo, ou a ser seguido, ou a ser negado. A sinodalidade, essa igreja liberta do peso do clero, é a única dimensão irreversível que Francisco lega ao seu sucessor. Com um calendário já definido até 2027 (definiu-o quando estava internado), o próximo Papa já tem um caderno de encargos definido.
Mas a marca deste Papa é muito mais indelével do que as marcas deixadas na sua Igreja. Francisco centrou-se num regresso ao básico, num encontro com o que de mais simples os valores humanistas defendem e definem e, assim, tornou-se uma “caixa de ressonância do ocidente”, dos seus valores humanistas.
Francisco foi em direção às bases, não apenas dos crentes católicos, mas de todos os que se revêm numa crítica à “economia que mata” e à “globalização da indiferença”, usando duas das suas afirmações mais fortes. Foi o único líder a lutar abertamente por causas humanistas e afirmar, abertamente e sem medos, o que muitos desejariam dizer, mas não tiverem coragem para o fazer.
Francisco foi além do seu pontificado. Se defendeu uma Igreja aberta, sem muros, construtora de pontes, ele próprio foi esse exemplo, quer com o Judaísmo e com o Islão, exatamente como fez também com as Igrejas Protestantes e Ortodoxas. Mas fez pontes, sobretudo, com os não religiosos, com os que culturalmente se revêm na afirmação de uma ética moderna.
O pontificado de Francisco correspondeu a uma afirmação de orgulho na cultura popular, não apenas, mas, sobretudo, católica. Surgiram filmes e séries televisivas, alimentando já esse medo do fim do seu pontificado e na vinda de um Papa que desfaça o que ele fez.
É imagem desta transversalidade de Francisco, a forma como os mais variados indivíduos e grupos se unem nas homenagens que surgem por estes dias: católicos dos mais diversos setores; crentes das mais variadas religiões; políticos das mais distintas linhagens ideológicas, todos afirmam, na morte do Papa, o que muitos lhe não disseram em vida – por vezes, disseram o oposto.
Morto, Francisco torna-se ainda mais incontornável e, dessa forma, definidor do que os cardeais irão afirmar no voto. O resultado deste conclave será a prova do lugar social que a Igreja Católica quer para si mesma, através da leitura que os cardeais façam do tempo presente e futuro. Nessa votação, veremos se Francisco foi um intervalo numa longa linhagem essencialmente conservadora, ou se a tal mudança de mentalidades e de paradigma já está a ter efeito.
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