Dizem os especialistas do sono que, durante os sonhos, o olho humano, debaixo das pálpebras cerradas, está em movimento constante e veloz, “vendo” em loop as imagens que o subconsciente e, em certos casos, o ID (designação da psicanálise para o terceiro nível, o inconsciente, onde tudo nos é permitido…) projeta no período REM (rapid eye movement, na designação inglesa). Nesse momento, já próximo do regresso à vigília, o cérebro humano projeta esse “teleponto” a alta velocidade e, depois, ao acordarmos, permite que nos recordemos dos sonhos, pelo menos, de parte deles – esquecendo-os logo a seguir. Temos a impressão de que estivemos toda a noite a sonhar, vivemos verdadeiras longas-metragens –mas tudo se passou em escassos segundos. E daí que o olho se mova tão rapidamente… Talvez tenha sido esse o caso de Luís Montenegro, ao ler, no velocímetro… perdão, no teleponto, uma longa mensagem de Natal em que o objetivo era falar de tudo, a todos os eleitorados, de todas as coisas, e tudo enfiar em… cinco minutos de gravação. “O Rossio na Betesga”, diz o povo lisboeta. Ninguém fala àquela velocidade, nem quando está a ler. E o que o primeiro-ministro disse também será, em grande medida, parte de um sonho, no sentido freudiano em que um sonho é, sempre, a realização de um desejo. E o desejo, nesta “mensagem-REM” de Luís Montenegro foi o de descrever Portugal como “um referencial de estabilidade”.
Será agora essa a narrativa, cá dentro, para eleitorados que terão de se pronunciar, já neste próximo ano, em autárquicas (que serão difíceis para todos os partidos), e lá fora, para os mercados, sempre desconfiados das pequenas economias sujeitas às “constipações” das grandes, como é o caso português. Entre essas grandes, o chefe do Governo citou os casos de França e da Alemanha, por oposição ao “milagre português”, dependente do turismo e pouco mais, e que será desfeito assim que as famílias europeias tiverem de cortar nas férias.
Mas se a frente externa coloca problemas ao “referencial de estabilidade”, na frente interna, esse “referencial” equilibra-se em cima da corda bamba de uma maioria precária, obtida em coligação. Um “referencial” sujeito aos abanões de coligações negativas com a capacidade – e a vontade – de impor ao Governo medidas das quais discorda e impedindo-o de cumprir o seu programa, mau ou bom. Um “referencial” que dificilmente aprovará um segundo Orçamento, a não ser que as linhas vermelhas – que já começaram a cair, como veremos adiante, nas políticas securitárias – sejam substituídas por um “pedido de batatinhas” ao Chega, que venderá caro o seu “voto sim”. O seguro de vida de Luís Montenegro é a Constituição. E a sua longevidade é garantida, apenas, pela “secretaria”: somente por razões constitucionais o Governo não poderá cair antes do final do verão de 2026, mesmo que tenha de governar por duodécimos. A partir de meados de setembro, o Presidente da República perde o poder de dissolver a Assembleia e o próximo só poderá fazê-lo seis meses depois de tomar posse. Mas se este seguro de vida tiver de ser acionado, o “referencial de estabilidade” ficará assente na paz podre de um Governo que, sem ser ainda de gestão, estará já a prazo.
É por isso que 2025 será tão decisivo para Montenegro. Ele já terá avisado, um a um, os ministros: agora já não há mais desculpas, nem mais PowerPoints a anunciar amanhãs que cantam. Agora, é preciso governar, agarrar os eleitores, mostrar serviço e ganhar as autárquicas. Se não, a oposição ganhará forças, argumentos e eleitores.
Pela cabeça do Governo terá passado, portanto, que já que não podemos vencê-los, juntamo-nos a eles (à direita radical e populista que nos – os – assedia todos os dias). Se não formalmente, ao menos, roubando-lhes as ideias. Não é crível, é claro, que tenha havido uma ordem direta do Ministério da Administração Interna para que se executasse o “arrastão policial” que varreu a zona do Martim Moniz. Nem essa ordem era necessária. No processo securitário de inspiração populista e guiado pelas perceções (“perceção” devia ser a palavra do ano…), foi suficiente criar um determinado ambiente para que as autoridades se sentissem respaldadas e agissem em conformidade. Entre outras peças táticas, destaque-se a famosa comunicação ao País que Montenegro escolheu fazer, em horário nobre (mas um pouco envergonhadamente, tendo em conta que o Benfica jogava para a Champions à mesma hora… ) e em que falou das instruções do Governo para que a segurança fosse garantida “num dos países mais seguros do mundo, mas onde não podemos dormir à sombra da bananeira”. Na altura, pareceu inusitado tanto suspense para tão banal declaração. Mas, agora, percebe-se tudo.
Poucas semanas antes, o Chega tinha feito, naquele mesmo local, uma manifestação contra a imigração alegadamente “descontrolada”. Aquele era, portanto, um local politicamente sensível, onde qualquer demonstração policial de força exigiria uma consulta à tutela – que ninguém acredita que não tivesse sido feita. A imagem que ficaria, ou corria o risco de ficar, é que André Ventura tinha passado a bola e a polícia, sem a deixar cair no chão, tinha-a rematado para golo.
Isto aconteceu, note-se bem, numa zona da cidade de Lisboa que, não obstante as ocorrências de índole criminal, é hoje mais segura do que em qualquer época, nos últimos 40 anos. Basta comparar o Intendente de há 15 anos com o Intendente de hoje… A polícia não encostou à parede suspeitos de delinquência, residentes num bairro problemático, mas pessoas insuspeitas de qualquer crime, numa zona não problemática, povoada por imigrantes trabalhadores. Os resultados da operação, a apreensão de pouco mais do que um canivete, falam por si. E não se comparam com as apreensões de droga e armas brancas que uma operação similar poderia garantir, caso os alvos fossem, por exemplo, algumas claques de futebol. Claro que é muito mais fácil encostar à parede cidadãos indefesos do que elementos das claques, pelo menos, em tão grande número e ao mesmo tempo…
Os sinais de instabilidade política e social, no País “referencial de estabilidade”, acumulam-se, portanto, nas ruas, no SNS e no Parlamento. E esses sinais não deixarão de ter consequências na mensagem dos candidatos presidenciais, a começar pelo almirante Gouveia e Melo. O “herói” da vacinação anti-Covid perfila-se num tempo em que os assuntos da Defesa exigem, na Europa, uma nova atenção. O seu know-how, nessa matéria, pode ser por ele invocado, e é seguro que vai alegar, face às circunstâncias da geopolítica internacional, ser o candidato certo no momento certo. Mas não é por aí que Gouveia e Melo segue à frente, nas sondagens. O que um certo eleitorado ultramontano e antissistémico espera dele é um discurso naturalmente suprapartidário e, se necessário, antipartidário. O fenómeno não é novo: Fernando Nobre conseguiu um resultado razoável com esse discurso. Antes dele, Otelo teve o voto populista do povo de esquerda, em 1976. Depois dele, o próprio Manuel Alegre obteve um milhão de votos por ir contra o sistema – e muitos vieram de uma certa direita marialvista que não gostava das origens populares de Cavaco. No entanto, esta seria a primeira vez que um candidato ganharia sem ter uma máquina partidária por detrás. Marcelo viveu bem, em 2016, sem a máquina partidária do PSD, mesmo estando ela à sua disposição. Mas Marcelo, que terá cumprido todos os seus sonhos, dorme pouco. E o seu REM está sempre ligado.
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