Na primeira pessoa: “Vi uma entrevista do meu filho, em que se assumia como homossexual e protagonista de filmes pornográficos. Desmaiei e fartei-me de chorar. Depois percebi que estava a ser uma má mãe”

Foto: Lucília Monteiro

Na primeira pessoa: “Vi uma entrevista do meu filho, em que se assumia como homossexual e protagonista de filmes pornográficos. Desmaiei e fartei-me de chorar. Depois percebi que estava a ser uma má mãe”

O Sidney é o oitavo filho do meu irmão (já falecido), que emigrou para França quando era muito novo. O bebé nasceu com 27 semanas e a minha cunhada morreu no hospital. A Segurança Social francesa queria dá-lo para adoção ou entregá-lo a uma família de acolhimento. Hesitei, mas acabei por ficar com o Sidney em minha casa, quando tinha 5 meses. A partir daí, foi como se estivesse a criar um filho.

Sempre quis ter uma família numerosa, não foi possível por causa de uma histerectomia. Só tive uma filha biológica, que convenceu o meu marido a receber o Sidney. Durante a escola primária, o ciclo e o secundário, o meu filho deu alguns problemas, porque tinha défice de atenção e não obedecia a regras. No ensino profissional tornou-se muito bom aluno, tirou o curso de Design e na prova de aptidão profissional teve 20 valores. Aos 18 anos, arranjou logo um bom emprego no Porto. De repente, quis mudar-se para a Alemanha, onde dizia haver muita procura de profissionais da sua área.

Para mantermos o contacto, resolvi fazer um curso de iniciação aos computadores. Queria dizer-lhe: “A mãe já está nas redes sociais, agora vai ser uma grande festa.” Não foi isso que aconteceu. Quando regressei de férias, várias colegas de trabalho perguntaram-me se tinha ido à Alemanha e aquilo pareceu-me estranho. Até que uma amiga me mostrou uma entrevista dada pelo meu filho, em que se assumia como homossexual e protagonista de filmes pornográficos. Senti-me mal, desmaiei e fartei-me de chorar. Apesar de termos uma relação próxima, nunca me deu um sinal e foi difícil aceitar.

Nessa noite, mandei-lhe uma mensagem: “Meu porco, ajudei a criar-te, ninguém te quis, é este o prémio que me dás?” Não respondeu. No dia seguinte, escrevi-lhe outra mensagem ainda pior. À terceira mensagem, bloqueou-me.

Fiquei sem chão. Nem sabia onde o Sidney morava. Mas antes de ir à sua procura, quis saber mais sobre a sexualidade, porque a minha ignorância era total. Vivi tudo isto em segredo. Ia para a biblioteca e dos livros fui retirando palavras, com as quais fiz um glossário à minha maneira. À noite, mal o meu marido adormecia, vinha para o computador e procurava mais informação, sobre identidade de género, sobre o que era ser gay, lésbica, transgénero, cisgénero, binário, não binário.

Comecei a perceber que havia qualquer coisa de errado dentro de mim. Para ter a certeza, fui falar com o meu orientador na igreja. A resposta do padre foi: “Oh Eulália, ele nem teu filho é! Deixa-o ir, ele é do mundo!” Dizer-me para esquecer um filho… Isso era abdicar da minha vida! Não apareci mais na igreja. Para rezar e pedir a Deus, posso fazê-lo na minha casa. Fiz um nicho com a Santa Rita, da qual sou devota, mais a Nossa Senhora de Fátima, e todos os dias pedia-lhes para nos iluminar.

Depois percebi que estava a ser uma má mãe. O meu filho precisava da minha ajuda. Estava a criar pedras dentro de mim, para quê?

Para o encontrar, procurei em sites que até tenho vergonha. Clicava em todas as combinações de nomes. Um dia, vejo o nome Foster Riviera. Foster era o nome da atriz lésbica [Jodie Foster] de que ambos gostamos muito. Riviera era onde ele tinha nascido. Vejo então uma filmagem do meu filho nu, apenas com botas da tropa, a dar uma injeção na pila (para prolongar a ereção). Fiz mais pesquisas e cada imagem era pior do que a outra. Fiquei numa inquietude enorme. Passava os dias na cama, não queria falar com ninguém, fazia projetos na minha cabeça, só adormecia por exaustão e tinha pesadelos horríveis.

Há cinco anos que pertenço à comissão organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto – sinto que as pessoas são valorizadas e não precisam de mendigar os seus direitos. Os nossos filhos não merecem ser mantidos na invisibilidade. Conheci muitas histórias dramáticas na comunidade, de pessoas que se suicidaram, que perderam ou não conseguem arranjar emprego, que não têm casa…

Um dia, senti o telefone de casa a tocar e era o Sidney: “Olá, velhota! Queres vir à Alemanha?” Aceitei logo. Pedi a Deus para me tirar as pedras guardadas no peito, não queria levá-las comigo, queria pedir perdão ao meu filho por tudo o que tinha feito.

Em Colónia, levou-me a festas LGBTI, apresentou-me a todos os amigos, mostrou-me onde trabalhava. Não fiquei chocada com nada, senti que aquela comunidade era muito unida, sem maledicência. 

Quando vim embora, confessei-lhe que tinha gostado das relações que tinha criado, do seu mundo. Percebi que era amado, feliz, e uma mãe só quer a felicidade do filho. Prometi-lhe que ia ter muito orgulho da mãe, iria passar a ser uma ativista dos direitos LGBTI e ajudar outros pais a compreender este mundo. Associei-me então à Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género (AMPLOS), com quem aprendi muito.

Com o documentário Até que o Porno nos Separe, realizado pelo Jorge Pelicano, ganhei muitos amigos. Ao contar a nossa história, mostrei aos pais que, quando há amor, tudo é possível. Vinha de uma geração muito conservadora, na minha família não se falava de nada disto. Alguma vez me passava pela cabeça que ia andar nestas coisas, com a minha idade? Tinha a minha vidinha na igreja, dava catequese, fazia os cursos com os noivos… Hoje estou numa estrada limpa, sem pedras, com arvoredo de cada lado.

Há cinco anos que pertenço à comissão organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ do Porto – sinto que as pessoas são valorizadas e não precisam de mendigar os seus direitos. Os nossos filhos não merecem ser mantidos na invisibilidade.  Conheci muitas histórias dramáticas na comunidade, de pessoas que se suicidaram, que perderam ou não conseguem arranjar emprego, que não têm casa… A sociedade portuguesa é muito homofóbica, é difícil enfrentá-la, por isso muitos se fecham em armários.

O Sidney trabalhou com os maiores atores de pornografia gay do mundo, ganhou prémios. Sempre manteve outros empregos, fora desse mundo, e hoje está muito bem profissionalmente. Sinto que é uma pessoa livre. Não foi para a Alemanha em busca de dinheiro, foi para me dar sossego e para não me magoar. Mas aquilo correu mal. Atualmente assumimos tudo com muita naturalidade.
Depoimento recolhido por Joana Loureiro

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