Pedi para ir para a catequese. Os meus pais eram aquilo a que se chama católicos não praticantes. A minha mãe andava com pagelas de santinhos na carteira e rezava quando tinha uma aflição. O meu pai não se metia nisso. E a religião não era propriamente um tema em minha casa, a não ser nas vezes em que a minha mãe decidia perceber outros ritos e lá tínhamos nós mórmons ou testemunhas de Jeová em casa. Mas essa é outra conversa. E eu pedi para ir para a catequese em parte, estou certa disso, por causa da ideia do vestido branco e da festa da primeira comunhão, mas também porque tinha genuína curiosidade. Tive, claro, um vestido com laços cor-de-rosa, feito especialmente para mim, e os avós e primos do Porto num almoço. Mas quando a refeição foi servida e o bolo cortado, já eu tinha decidido que não acreditava em nada daquilo.
Tomei essa decisão definitiva quando percebi que tinha de inventar pecados para a confissão que iria dar-me acesso à hóstia sagrada. Mas era uma coisa que já andava a maturar nas aulas da catequese, enquanto a mente vagueava por dúvidas e eu percebia que esse Deus todo-poderoso não conseguia entrar nos meandros da minha mente de criança. Se eu conseguia mentir na confissão sem que nada me acontecesse, então nada daquilo fazia sentido, concluí eu. E não pensei mais nisso.
A ideia de que ninguém entra na nossa cabeça é uma das armas mais poderosas que se pode ter na infância. Percebi isso cedo. Usava esse superpoder para imaginar outros mundos, viajar sem sair do quarto, inventar histórias e conversas, quando o que estava à volta não me interessava, quando precisava de combater o tédio de não ter nada para fazer ou resolver o facto de não ter com quem brincar naquele momento. Esse músculo fica para a vida. Há uma resistência em quem consegue viver dentro da própria cabeça sem que lhe falte o ar.
Os tempos estranhos que vivemos fazem-me pensar em coisas como esta. No pensamento como resistência, na imaginação como arma. Vivi toda a minha vida sem ser realmente confrontada com a possibilidade de haver ideias interditas. É impossível andar pelo mundo sem perceber que algumas ideias pesam mais do que outras, algumas convicções vêm com preços altos a pagar. Sabemos disso. Mas o mundo ocidental ofereceu-nos nas últimas décadas a ilusão de uma bolha de liberdade que começa agora a revelar as suas fissuras.
No site da Casa Branca está em destaque um comunicado de 16 de julho no qual se anuncia que a Administração americana “vai lançar uma campanha global para esmagar o terrorismo da extrema-esquerda”. A palavra “global” é importante, porque este é um anúncio sobre como esta luta se vai estender internacionalmente e não é por acaso que, entre os 60 países que aceitaram ir a uma reunião sobre esta estratégia, está Portugal. Há muito poucos anos, independentemente da filiação política de cada um, ninguém se atreveria a defender que um antifascista era um alvo abater. Os antifascistas eram aqueles poucos que tinham passado 48 anos a sofrer na pele a tortura, a clandestinidade, a perseguição e o exílio por ousarem pensar de forma diferente, por lutarem contra a injustiça, por quererem igualdade e liberdade. Querem que nos esqueçamos disso.
Nunca tive dúvidas de que pensar é a coisa mais perigosa que existe. Nunca tive dúvidas de que imaginar é a atividade mais subversiva de todas. Mas também nunca pensei chegar a ver odia em que o pensamento voltasse a ser perseguido como um crime
A Estratégia de Combate ao Terrorismo dos Estados Unidos para 2026, publicada em maio, aponta os antifascistas como terroristas. Não há uma definição clara de que atividades estão aqui em causa. Só um pensamento. Aparentemente, ser contra o fascismo é o problema. É um crime pensar assim. E a indefinição sobre os termos daquilo que é proibido pensar faz com que a regra se torne suficientemente elástica para pôr qualquer um em perigo. Não era isso o fascismo? E, se ser antifascista é um crime, é suposto os cidadãos americanos serem a favor do fascismo? Estas são perguntas que devem fazer todos os democratas pensar.
Nunca tive dúvidas de que pensar é a coisa mais perigosa que existe. Nunca tive dúvidas de que imaginar é a atividade mais subversiva de todas. Mas também nunca pensei chegar a ver o dia em que o pensamento voltasse a ser perseguido como um crime e em que a imaginação fosse erradicada, substituída pelas fórmulas mastigadas e vazias de vídeos de TikTok e criações de Inteligência Artificial.
Habituámo-nos a pensar que o fascismo era uma coisa com cheiro a ranço, guardada no formol dos museus. Esquecemo-nos de que o fascismo quando nasce é revolucionário, apanha o comboio da modernidade do momento, é futurista e deslumbrado com as tecnologias que lhe servem os propósitos de repressão. Começa por prometer abalar o sistema que falha, para depois o substituir por um novo sistema velho, muito mais podre e instalado.
E o problema está em abrir-lhes a porta. Deixar que entrem e nos digam quais são as pessoas proibidas, as bandeiras proibidas, os livros proibidos, as palavras proibidas, as ideias proibidas. Enquanto invocam a liberdade, amordaçam, enquanto invocam a segurança, atemorizam, enquanto invocam a ordem, espalham o caos. Conhecemos os métodos. Sabemos ao que vêm. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.
Sabemos tudo dos livros e da nossa memória ou da dos outros. Mas isso não chega. E o problema não está só nos que entram, mas nos que lhes abrem a porta. Nos que fingem que está tudo bem. Nos que nos deixam frustrados com uma igualdade que não se cumpre, com uma liberdade que é um luxo exclusivo de alguns. É preciso dizer todas estas coisas em voz alta, uma e outra vez, antes de sermos obrigados a guardar para nós pensamentos que serão perseguidos. Outra vez. E desta vez com máquinas capazes de os adivinhar, com algoritmos capazes de nos fazer duvidar de nós próprios, com tecnologia capaz de nos aniquilar qualquer possibilidade de existência social antes mesmo de nos matar.
Nada está escrito antes de acontecer. As coisas não são inevitáveis. O pensamento não tem de voltar a ser proibido. A desigualdade não tem de ser galopante. A liberdade não tem de ser restringida. Repitam-no em voz alta e muitas vezes. E voltará a ser verdade.