A semana de classificação da segunda fase dos exames nacionais começou com a garantia de que a consultora Deloitte, chamada de urgência pelo ministro da Educação, tinha montado um sistema para garantir que as falhas detetadas na primeira fase não se repetiriam. “Há um novo sistema de controlo de falhas nos exames desenhado à medida com ajuda da Deloitte”, escrevia na segunda-feira o jornal Público, que foi em reportagem ao armazém onde estão guardadas as provas para perceber o que tinha mudado para que o caos não se voltasse a repetir.
Passada uma semana, os relatos de erros continuam a chegar. Desta vez, são apenas cerca de 90 mil os exames a classificar (mais cerca de 20 mil reapreciações) e não os 300 mil da primeira fase, pelo que o alarido é menor. Mas as falhas que continuam a ser reportadas no fórum da plataforma de classificação, em grupos de WhatsApp de professores e a monitorização feita pelo grupo Missão Escola Pública – que está a recolher e analisar queixas – mostram que o tal sistema montado pela Deloitte não é infalível.
Provas trocadas e professores pendurados
“Não sou docente da disciplina a que pertence este exame – Economia A. Solicito, por favor, a correção desta situação”, lê-se numa mensagem enviada por um professor ao Júri Nacional de Exames (JNE) a que a VISÃO teve acesso. Nas redes sociais, repetem-se relatos de professores que receberam itens de disciplinas que não lecionam para classificar. “Recebi de Biologia, sendo eu de Francês. Como devo proceder para reportar o erro?”, pergunta uma professora.
Também há quem se queixe de estar à espera de receber itens para classificar, depois de ter sido convocado para esta segunda-fase. “No meu caso, apesar de ter sido convocado, não recebi até ao momento nem itens nem reapreciações. Tal como eu estão pelo menos dois colegas de Economia”, conta à VISÃO o professor Tiago Castelhano, que recebeu da sua escola a indicação para continuar atento às reapreciações. “Isso faz com que todos os dias tenhamos de entrar na plataforma para perceber se recebemos alguma reapreciação. Amanhã é o meu último dia de trabalho, contudo, na convocatória o prazo final é 4 de agosto, o que nos pressiona mesmo depois de amanhã a vir sempre à plataforma confirmar se temos ou não trabalho. E a plataforma nem sempre está operacional, pois quando tentamos entrar nem sempre conseguimos”, relata o professor.
Continuam a faltar folhas de continuação
Cristina Mota, da Missão Escola Pública, confirma à VISÃO que os problemas subsistem. “Ainda que em menor número, continuamos a receber relatos de problemas como falta de folhas de continuação. Os classificadores queixam-se, mais uma vez, de não conseguirem planear o trabalho pois, ao contrário do que foi referido, não receberam a totalidade itens a classificar e têm-se deparado com o aumento de itens sem aviso”.
A estas falhas, semelhantes às registadas na primeira fase dos exames nacionais, soma-se outro problema. “Um problema novo são as reapreciações, só começaram a ser distribuídas esta quarta-feira e temos relatos de professores que recebem provas de outras disciplinas que não as suas”, afirma Cristina Mota.
Em comunicado, o SOS Escola Pública elenca os problemas que lhe têm sido reportados na última semana: professores que não conseguem entrar na plataforma; plataforma em estado intermitente (atrasando o procedimento); provas de disciplina enviadas para professores que não lecionam aquela área disciplinar; docentes convocados para classificar exames até dia 4, colidindo este período com as suas férias, estando de férias ou de baixa por doença; falta de folhas de continuação; falta de resposta dos supervisores e Júri Nacional de Exames às questões colocadas pelos professores classificadores; itens que desaparecem da plataforma após os professores classificadores terem iniciado a sua classificação; professores classificadores que, tendo acedido à plataforma, encontraram ainda provas da 1.ª fase; separadores para classificar e, ainda, para reapreciar; convocatórias de professores classificadores via telefone (não lhes foi enviado, até à data, qualquer comunicação escrita via email); professores classificadores que já classificaram a primeira remessa de provas continuam a receber mais provas; emails do JNE – EduQa a pressionar os professores classificadores para concluir a submissão dos itens já classificados; mensagens do JNE a agradecer o trabalho de classificação e, simultaneamente, a informar que serão enviadas mais respostas para classificar para poder “cumprir os prazos de afixação das pautas”.
“Os últimos itens da lista que acima elencámos deixam a nu a falta de respeito e o caráter pidesco, o tom autoritário de que se servem para intimidar, condicionar e responsabilizar o trabalho realizado pelos professores classificadores”, ataca o coletivo SOS Escola Pública.
Deloitte soma contratos milionários
Segundo o Correio da Manhã, o Ministério da Educação já assinou quatro contratos públicos, em 2026, com a consultora privada que Fernando Alexandre chamou para resolver o caos nos exames, a Deloitte Technology, no valor total de 2,65 milhões de euros. De acordo com o mesmo jornal, além destes, ainda há um contrato celebrado pelo EduQa com a mesma consultora para resolver os problemas técnicos no caos dos exames e sobre o qual não há informações.
Regras de média do secundário mudaram
Nos últimos dias, alguns alunos descobriram que a sua média de conclusão do secundário tinha mudado, mesmo sem terem feito nenhum novo exame. A razão decorre de novas regras para calcular a média final, sendo que as notas dos exames nacionais têm a validade de quatro anos e há alunos que precisam delas para ingressar no ensino superior ou tentar mudar de curso. Um dos casos foi noticiado esta sexta-feira pela CNN e é o de uma aluna que viu a média baixar por ter sido alterada a ponderação das notas dos exames do ano passado para este ano. “Não fiz mais nada. Não frequentei qualquer disciplina, não tentei fazer qualquer melhoria, não pedi revisão de nada. A única coisa que fiz foi um exame que não tinha feito no ano passado e que era necessário para entrar no curso que eu quero, o de Matemática Aplicada às Ciências Sociais (MACS). Eu sou de artes e não tinha essa disciplina. Portanto, este exame não mexe em nada com os meus resultados do Secundário. Só o fiz porque é exigido no meu curso”, explicou a aluna à CNN.
Ao site da estação televisiva, o ex-ministro da Educação João Costa diz que situações como as da aluna que falou à CNN e casos que mostram que as regras não estão a ser seguidas da mesma forma em todas as escolas podiam e deviam ter sido evitadas com um simples despacho de Fernando Alexandre. “Como não há nenhum despacho a uniformizar isto, umas escolas estão a fazer de uma maneira e outras de outra. Devia ter sido emitido um despacho a dizer se se usava umas regras ou outras, para colocar todos em pé de igualdade, e devia tê-lo sido feito a tempo de os jovens fazerem as suas escolhas”, declarou o ex-ministro de António Costa.
Ordem dos Advogados pede adiamento do concurso para o superior
Com toda esta confusão e não tendo Fernando Alexandre aceitado a sugestão dos reitores de adiar o acesso ao ensino superior, mas antes criado uma terceira fase de acesso (necessariamente com menos vagas), a Ordem dos Advogados veio denunciar a falta de equidade do processo e pedir a suspensão de concurso para aceder a universidades e politécnicos.
Para a Ordem, tendo em conta os problemas verificados, a suspensão do concurso é “adequada, necessária e proporcional”. Os advogados entendem que os custos de um adiamento são inferiores ao risco da perda de vagas, desigualdade entre candidatos, litigância em massa e instabilidade das colocações. “Não é necessário aguardar a conclusão de toda a reapreciação científica ou de toda a litigância possível; é necessário eliminar a incerteza extraordinária imputável ao sistema e assegurar a todos uma classificação oficial e uma cópia íntegra”, defende a instituição liderada por João Massano.
Aulas vão começar mais tarde
Para já, o Ministério da Educação mantém os calendários de candidatura da 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior, cujo prazo de candidatura termina a 6 de agosto, criando uma época especial de exames, que decorrerá entre 3 e 8 de setembro.
Também já foi decidido que as aulas do secundário começarão uma semana mais tarde do que o previsto, a 21 de setembro. Mas ainda se está a avaliar se será preciso adiar também o arranque do 3.º ciclo do básico.
Corrigido a 2 de agosto de 2026 às 15h40 com a indicação de que há cerca de 90 mil exames de segunda fase e 20 mil reapreciações e que o comunicado citado é do movimento SOS Escola Pública e não do Missão Escola Pública, como erradamente estava referido