Há guerras que mudam fronteiras, guerras que derrubam regimes e guerras que alteram profundamente a ordem internacional. Depois há guerras que, apesar da intensidade das bombas e da violência das imagens, acabam apenas por revelar os limites do poder de quem as conduz. As últimas 14 noites no Médio Oriente pertencem a essa categoria. E a pergunta mais importante continua por responder. Afinal, o que mudou?
Mudou menos do que Washington esperava. O regime iraniano continua no poder, o programa nuclear permanece envolto em incertezas, a questão dos mísseis balísticos continua sem qualquer solução e a influência regional de Teerão está longe de ter desaparecido. Também a hipótese de uma alteração de regime desapareceu com a mesma rapidez com que surgiu. Ao mesmo tempo, os hutis mantêm a capacidade de perturbar a navegação no Bab el-Mandeb, o estreito de Ormuz continua a representar um dos maiores riscos para a estabilidade energética mundial e o Médio Oriente permanece refém do mesmo equilíbrio precário que conhecia antes do início desta nova escalada.
É precisamente por isso que talvez estejamos a olhar para esta crise da forma errada. O verdadeiro tema destas 14 noites não é o Irão. Também não é Israel. Muito menos a eficácia dos bombardeamentos. O verdadeiro tema é a América e a forma como o poder americano evoluiu nas últimas décadas. Os EUA continuam a ser, sem qualquer comparação possível, a maior potência militar do planeta. Mas a grande questão da política internacional já não é saber se Washington consegue destruir infraestruturas militares. A questão é perceber se essa superioridade continua a ser suficiente para alcançar objetivos políticos.
A resposta parece ser cada vez mais negativa. Desde o fim da Guerra Fria, a história da política externa americana tem sido marcada por uma sucessão de vitórias militares seguidas de enormes dificuldades políticas. Foi assim no Iraque e no Afeganistão. Em ambos os casos, o problema surgiu quando chegou o momento de transformar a vitória tática numa solução estratégica.
Donald Trump construiu boa parte da sua carreira política precisamente em oposição a esse modelo. Prometeu acabar com as guerras intermináveis, reduzir o envolvimento militar norte-americano e substituir intervenções prolongadas por uma política de pressão máxima capaz de obrigar os adversários a negociar sem que os EUA tivessem de suportar os custos humanos, financeiros e políticos de novos conflitos. A ideia era simples. Demonstrar força suficiente para evitar uma guerra longa. Mas a realidade internacional raramente respeita modelos teóricos.
Existe um momento em que a demonstração de força deixa de aumentar a capacidade negocial e começa a aumentar os custos da própria estratégia. Foi exatamente isso que estas 14 noites evidenciaram. Bastaram alguns dias de tensão para o preço do petróleo reagir, para os mercados começarem a incorporar um prémio de risco associado ao Médio Oriente e para regressarem preocupações que a economia mundial conhece demasiado bem. O estreito de Ormuz continua a transportar uma parte significativa do petróleo consumido diariamente no planeta. O Bab el-Mandeb continua a ser uma das principais portas de entrada para o comércio entre a Ásia e a Europa. Não é necessário fechar qualquer destes corredores marítimos para provocar instabilidade. Basta que exista uma ameaça suficientemente credível para que os mercados reajam de imediato.
Talvez a maior conclusão destas 14 noites seja precisamente a de que os EUA continuam a possuir uma capacidade militar sem paralelo, mas já não conseguem transformar automaticamente essa superioridade em resultados políticos duradouros. A força continua a existir. O que parece escassear é uma estratégia capaz de ligar os meios aos fins e os bombardeamentos aos objetivos políticos que justificam a sua utilização.
Durante décadas, medimos o poder americano pela sua capacidade para iniciar guerras. Talvez tenha chegado o momento de o medir pela capacidade para lhes dar um fim. E, olhando para estas 14 noites que prometiam mudar o Médio Oriente, é difícil escapar à conclusão de que as bombas dificilmente substituem uma estratégia. As 14 noites não mudaram o mundo. Limitaram-se a recordar que, no século XXI, nem mesmo a maior potência do planeta consegue impor, pela força das armas, uma ordem política que não saiba construir pela força da diplomacia.