Manolo Solo era um daqueles atores que não entravam num filme: infiltravam-se nele. Chegava devagar, instalava-se discretamente num canto do plano e, quando dávamos por isso, já tinha ficado com a cena toda e marcado a nossa memória. Sem levantar a voz, sem exibir os dentes, sem procurar desesperadamente a câmara. Morreu esta quinta-feira, aos 62 anos, vítima de cancro, deixando a certeza de que o cinema espanhol perdeu um dos seus melhores segredos à vista de toda a gente. A Academia de Cinema espanhola confirmou a morte do ator, nascido em Algeciras, vencedor do Goya de Melhor Ator Secundário por Tarde para la ira (2016), de Raúl Arévalo, e nomeado por O Bom Patrão (2021), de Fernando León de Aranoa, Fechar os Olhos e A Quinta.
Solo tinha o rosto perfeito para um cinema que desconfia dos rostos perfeitos. A barba, os óculos, a voz quebrada, o ar simultaneamente afável e suspeito: podia ser um professor cansado, um funcionário humilhado ou um homem que sabia demais. Em A Ilha Mínima (2014), de Alberto Rodríguez, O Bom Patrão ou Tarde para la ira, bastava-lhe inclinar a cabeça para introduzir uma dúvida moral. Nunca interpretava apenas a bondade ou apenas a sordidez. Levava sempre ambas no bolso.
Foi essa capacidade para trabalhar os meios-tons — tão rara num tempo em que muitos atores parecem representar com marcador fluorescente — que fez dele uma presença indispensável do melhor cinema espanhol. Manolo Solo não “compunha” personagens: deixava-as acontecer. Um silêncio um segundo mais longo, uma frase dita como se tivesse sido pensada três dias antes, um sorriso sereno que começava simpático e terminava inquietante. Hollywood chamaria a isto técnica. Ele fazia parecer humanidade.
Portugal percebeu-o particularmente bem. Em A Quinta, de Avelina Prat, ao lado de Maria de Medeiros, interpretou Fernando, professor de Geografia devastado pelo desaparecimento da mulher, que assume a identidade de outro homem e começa uma nova vida como jardineiro. O filme dava-lhe finalmente tempo e espaço para ser frágil sem se tornar decorativo. A sua melancolia não era pose de ator de filme de festival; parecia trazer quilómetros, livros por acabar e noites mal dormidas. A coprodução luso-espanhola valeu-lhe uma nomeação ao Goya de Melhor Ator e a Maria de Medeiros uma candidatura como atriz secundária.
Antes, Víctor Erice já lhe confiara, em Fechar os Olhos, uma figura discreta, mas decisiva, naquele grande filme sobre desaparecimentos, memória e cinema, três assuntos que agora, cruelmente, se misturam. Solo compreendia Erice porque ambos sabiam que uma ausência pode ocupar mais espaço do que uma presença. O filme estreou em Portugal em dezembro de 2023, depois de passar discretamente por Cannes.
E foi também Cannes que recebeu Aqui, de Tiago Guedes, adaptação da Trilogia de Jesus, de J. M. Coetzee, apresentada em maio passado na secção Cannes Première. Manolo Solo interpreta Simón, um homem sem passado num território sem memória, encarregado de proteger uma criança que procura uma mãe. É difícil imaginar despedida mais justa: um ator chamado Solo a interpretar alguém que tenta construir uma família num mundo sem identidade. Ao lado de Patricia López Arnaiz e do pequeno Álex Peláez, deixou um dos seus últimos grandes papéis num filme português sobre exílio, pertença e reinvenção.
Na televisão, interpretou recentemente o general Gutiérrez Mellado em Anatomia de um Instante (2025), série realizada por Alberto Rodríguez e estreada em novembro de 2025, em Espanha, na plataforma Movistar Plus+. Baseada na obra homónima de Javier Cercas sobre o 23-F — a tentativa fracassada de golpe de Estado ocorrida em Espanha a 23 de fevereiro de 1981 —, a série prova também que Solo sabia encarnar homens atravessados pela História sem os transformar em estátuas de cera. Estudara Ciências da Educação em Sevilha e passara pela música, pelo teatro e pela dobragem. Talvez por isso tratasse tão bem os secundários. Sabia que, fora do cinema, quase todos somos um. Manolo Solo partiu como entrava nos filmes: sem ruído, sem gestos largos, sem pedir o centro do plano. Mas deixa atrás de si esse vazio reservado aos atores que pareciam secundários apenas porque o cinema ainda não tinha aprendido a olhá-los como protagonistas. Ficam a voz, o rosto, os silêncios e aquela forma tão rara de transformar fragilidade em presença. Desta vez saiu de cena demasiado cedo. E levou consigo uma parte discreta, humana e insubstituível do cinema.