Em resposta a uma hipótese levantada pelo Tiago, entre uma garfada de cavala e um copo de vinho da casa, dizia o Jorge que não, não tinha nenhuma habilidade musical em particular. E, usando o exemplo de Transumante, o seu último disco, explicava-nos que a sua maneira de produzir consistia, antes de mais, num impulso negativo: ir acrescentando camadas sonoras para disfarçar aquilo que o incomoda.
Reparem: não acrescentava uma guitarra porque a guitarra fizesse falta, nem um teclado porque o teclado trouxesse qualquer novidade. Acrescentava-os porque havia, debaixo deles, uma coisa intolerável. Talvez o próprio Jorge. É uma maneira de produzir que não procura o bem que a camada pode acrescentar, mas o mal que ela consegue encobrir. Numa palavra: disfarçar aquilo com que não se é capaz de lidar. Exemplos? O Jorge não deu, mas um tipo imagina.
Com isto, o Jorge acredita que está a enganar quem o ouve. Que é um dissimulado. E que é muito pior do que a apreciação positiva que dele fazem os que dele gostam. Foi então que sugeriu a possibilidade de sofrer da tal patologia a que a medicina, depois de inventar a penicilina e a laparoscopia, deu o nome de “síndrome do impostor”. A CUF, no seu sítio da internet, explica o problema com mais palavras, mas a coisa resume-se a isto: o homem tem mérito e não acredita nele. É uma tragédia.
Foi então que intervim.
— Calma.
Não desmereças a síndrome do impostor, Jorge! A síndrome do impostor é uma das últimas coisas boas que ainda temos e devemos conservar. É o último escrúpulo de uma época que perdeu todos os outros escrúpulos. Ao contrário do que para aí se vai dizendo, parte de um instinto fundamental: a rigorosíssima ideia segundo a qual não valemos nada. Porque, de facto, não valemos. Como bem lembrou o Tiago, Chesterton diz, algures no início de Ortodoxia, que os manicómios estão cheios de pessoas que acreditam em si próprias.
Não há nada mais perigoso do que um tipo que acorda de manhã reconciliado consigo mesmo. Um homem que se aceita integralmente já está preparado para tudo: fundar uma religião, começar uma startup ou publicar um disco duplo. Toda a civilização dependeu de gente que, antes de sair de casa, tinha ao menos a delicadeza de suspeitar de si mesma. Hamlet passa cinco actos a duvidar de si próprio e, quando finalmente se decide a fazer alguma coisa, já chega tarde e o palco está todo cheio de sangue.
O homem que se julga medíocre já nem tem tempo para levar o pensamento até ao fim. É imediatamente conduzido a um psicólogo e devolvido à sociedade com a recomendação de reconhecer o seu valor. Ninguém admite a hipótese, por remota que seja, de esse homem ter razão no julgamento que fez de si mesmo. No instante em que alguém se descreve nestes termos, aparecem logo três especialistas e um podcast para lhe garantir que é magnífico.
Num tempo em que a “saúde mental” vai adquirindo proporções cada vez mais teológicas, talvez faça sentido tratar o assunto teologicamente. A síndrome do impostor pode ser apenas o nome clínico que se deu à humildade depois de deixarmos de acreditar no pecado original. Antigamente, o homem sabia que era uma criatura caída. Agora faz terapia porque suspeita que não é extraordinário. Pois anuncio-vos uma novidade com pelo menos seis mil anos de cronologia bíblica: não é extraordinário.
O pior que podia acontecer ao Jorge seria curar-se. Imaginem-no plenamente seguro das suas capacidades, satisfeito com cada nota, convencido de que não há nada a esconder. Acabavam-se as camadas. Acabavam-se os discos. Talvez acabasse o Jorge. E, em seu lugar, ficaria alguém de bem consigo mesmo, a comer cavala e a acreditar no próprio talento. Seria obsceno.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
P.S.: Aproveito para anunciar que esta coluna será interrompida durante o mês de Agosto. Até Setembro.