Há epidemias que se anunciam com alarmes, conferências de imprensa e números diários nos telejornais. E há outras que crescem em silêncio, longe do olhar da maioria das pessoas, mas com consequências profundas para a saúde individual e coletiva. O chemsex é uma delas.
Durante muito tempo, o fenómeno foi encarado como uma realidade distante, limitada a alguns grandes centros urbanos europeus. No entanto, hoje, sabemos que não é assim. Está também presente em Portugal e atravessa diferentes regiões do País.
Quando falamos de chemsex, não estamos a falar de consumo recreativo ocasional de substâncias. Falamos da utilização intencional de drogas para iniciar, prolongar ou intensificar a experiência sexual, em sessões que podem durar dezenas de horas, frequentemente com múltiplos parceiros. A explicação para a sua expansão está nos benefícios que os praticantes identificam: prazer amplificado, desinibição, sensação de proximidade emocional, ereções prolongadas e horas de atividade sexual sem fadiga. Não podemos ignorar esta realidade.
Mas existe outro lado da história. Nos últimos anos, assistimos a aumentos expressivos de casos de doenças como a gonorreia e a sífilis em toda a Europa, e o chemsex pode também contribuir para que tal seja potenciado. Em Portugal, os novos diagnósticos de VIH diminuíram, fruto da conjugação de vários fatores: a eficácia das terapêuticas antirretrovirais no controlo da infeção, o acesso a essas terapêuticas no nosso país e o sucesso da PrEP, disponível entre nós desde 2018. Sabemos hoje que uma pessoa com VIH em tratamento eficaz, com carga viral indetetável, não transmite o vírus nas relações sexuais — é o princípio “indetetável igual a intransmissível”. A PrEP, no entanto, não protege contra as restantes infeções sexualmente transmissíveis. A falsa sensação de proteção total tem contribuído para que outras doenças continuem a circular.
Por isso, falar de chemsex é também falar de diagnóstico. Muitos dos problemas associados a esta prática permanecem invisíveis durante demasiado tempo, seja por receio de julgamento, seja porque os próprios profissionais de saúde nem sempre colocam as perguntas certas. Quanto mais cedo forem identificados comportamentos de risco, problemas de saúde mental ou sinais de dependência, maior será a probabilidade de intervir de forma eficaz. O diagnóstico não é apenas uma ferramenta clínica, mas também um passo fundamental no caminho para um tratamento mais eficaz e adequado.
As consequências vão também além das infeções sexualmente transmissíveis, já que as mesmas substâncias que amplificam o prazer podem provocar episódios de psicose, depressão respiratória grave, acidentes vasculares cerebrais, dependência e comportamentos compulsivos. Sabemos ainda que o risco de violência sexual e de situações sem consentimento aumenta significativamente em determinados contextos.
Esta questão não se resolve com condenação nem com alarmismo. É preciso literacia, formação e capacidade de escuta. Isso só é possível quando os profissionais de saúde conseguem falar sobre a sexualidade com a mesma naturalidade com que falam sobre hipertensão ou diabetes. Falamos de uma epidemia silenciosa. E, precisamente por isso, exige que tenhamos a coragem de falar dela.
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