Houve um tempo em que as minhas únicas paixões eram a pobreza e a chuva/ Agora sinto a pureza dos limites e a minha paixão não existiria se eu soubesse o seu nome
Herberto Helder, Eugénio de Andrade, Cesariny, Sophia. Por amor à poesia portuguesa, que considera uma das melhores da Europa, abriu uma exceção: sair de casa e participar num encontro literário. Não é falta de gosto. Já participou em muitos, em diversas partes do mundo, mas hoje é um luxo a que não se pode permitir. “Viajei excessivamente”, diz-nos Antonio Gamoneda (AG), um dos escritores em grande destaque nesta edição das Correntes d’Escritas, onde estará pela primeira vez e falará amanhã, quinta-feira, 20, numa mesa-redonda, às 17 e 30. Oportunidade rara para ouvir uma das vozes mais singulares da poesia espanhola da segunda metade do século XX e início do XXI.
Quando ganhou os principais prémios do seu país e do seu idioma, como o Cervantes, o Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana e o Nacional de Poesia, não soube dizer “não” e andou pelo mundo inteiro, respondendo a todas as solicitações. “Foi um erro”, reconhece. “Um dia, de um momento para o outro, senti-me velho e cansado”.
Também se deu conta que já não escrevi há muito tempo, o que não era a primeira vez que lhe acontecia. Por isso, retirou-se, regressou a casa, em Léon, para se reencontrar com o seu jardim e as suas rotinas. A entrar nos 80, voltou a saborear o tempo, sem urgências, nem imposições. Guarda as manhãs para os assuntos do dia-a-dia, para os afazeres quotidianos. À tarde, senta-se no escritório, no 1° andar da sua moradia, ou numa mesa que tem no exterior, não muito longe de um busto seu que o escultor Jesus Martínez Labrador lhe ofereceu. “Às vezes, percebo logo que não vou conseguir escrever nada”, brinca. “Mas noutras ocasiões tenho de me ‘obrigar’ a ir para a cama”.
É nesse ambiente que nasce a poesia, que para si não é ornamento, nem adorno que se cole à escrita. “É, acima de tudo, um ato existencial”, diz-nos. “Coloco-o ao nível de todos os desejos, necessidades, sofrimentos e sentimentos humanos. A poesia tem, para mim, essa idêntica natureza. É estar vivo”. Mais do que uma técnica – “que todos os poetas têm de dominar” – é um impulso vital. “Um pensamento que se gera a partir das palavras”, sintetiza.
Sem ser religioso, AG assume o misticismo da criação literária. Porém, não desvaloriza o longo trabalho da transpiração. “A palavra é a matéria da poesia, mas também o elemento dinamizador, o que ativa a continuação do poema”, explica. Assume-se, por isso, como um poeta da linguagem, dos que desconhecem o caminho ou o destino, apenas o intuem. “É o não saber sabendo de que falava São João da Cruz”, afirma. “Se na vida dizemos o que pensamos, na poesia é o contrário. Pensa-se o que se diz. O conhecimento faz-se no ato da criação”. Como uma “epifania”.
Gastei a minha juventude diante de um túmulo vazio, extenuei-me em perguntas que ainda percutem em mim como um cavalo que galopasse tristemente na memória./ Ainda giro dentro de mim embora saiba que vou cair no frio do meu próprio coração/ Assim é a velhice: claridade sem descanso.
Nascer para a poesia
Mãe: quero esquecer todas as coisas/ no fundo de uma respiração que canta./ Passa as tuas grandes mãos pela minha nuca/ todos os dias para que não regresse/ a solidão.
Antonio Gamoneda nasceu em Oviedo, em 1931. A Guerra Civil Espanhola e a ditadura do general Franco estavam a alguns anos de distância. A sua luta, porém, começou logo à nascença. No ano seguinte, o pai (também Antonio Gamoneda) morreu, deixando à família um futuro incerto, ao sabor das injustiças da época. “Tive uma vida muito bonita”, garante-nos. “Mas muito dura também”.
Mãe e filho formaram um núcleo familiar inquebrantável. Contra as adversidades, a afetividade e a atenção, um mundo paralelo de fantasia. No entanto, nada foi capaz de fazer esquecer a repressão franquista que então se afirmava. Em 1934, mudaram-se para um bairro operário de León, de onde nunca sairiam. Entre as dificuldades financeiras e as atribulações da guerra, o poeta viu-se sem meios para estudar. As escolas públicas estavam fechadas e o ensino privado fora do seu alcance. Mas o improvável aconteceu. “Um menino de cinco anos aprende a ler num livro de poesia”, conta-nos, como se de uma fábula se tratasse. E não faltam elementos para compor a história. Não era um livro qualquer, mas o único que trouxeram de Oviedo. E não de um autor qualquer, mas do seu próprio pai, homem de letras, jornalista e poeta. Outra mais alta a vida é seguramente o livro da vida de quem escreveu tantos livros. E como o próprio título sugere abriu-lhe caminhos para uma existência em papel, literária. “Perante esses versos, dá-se nesse menino um duplo conhecimento”, descreve-nos, com a emoção da recordação, AG. “O da leitura e o das palavras”. Era o confronto com essa outra linguagem desconhecida, enigmática, secreta – “tão diferente da que se usa socialmente” – de que é feita a poesia.
Claro que, como sublinha, não deixou de ser “criança”. Porém, essa presença invisível, esse poder oculto, essa misteriosa potência, nunca mais o abandonou. “Tal como uma criança diz, na sua inocência, que quer ser engenheiro, arquiteto ou aviador, de uma maneira incompleta, confusa, obviamente infantil, eu dizia que queria ser poeta”, revela. “Sentia-o como uma espécie de destino”.
Primeiro, no entanto, teve de lidar com a vida. Chega a frequentar, aos 10 anos, um colégio de padres, mas só aguenta dois anos. Pela dureza do ensino. E pela incoerência do exemplo. Restou-lhe procurar sustento, sem demora. Depois de vários empregos, torna-se, aos 14 anos, estafeta no Mercantil, banco onde trabalhará durante duas década e meia, assumindo diversos cargos. À noite, estuda para cumprir o ensino obrigatório. E para não perder de vista as palavras.
Quando eu tinha catorze anos,/ faziam-me trabalhar até muito tarde./ Quando chegava a casa, a minha mãe/ agarrava a minha cabeça entre as suas mãos
Solidão e silêncio
Alguns aprenderam a viajar com a sua mordaça e esses foram mais hábeis e descobriram um país onde a traição não é necessária: um país sem verdade./ Era um país fechado; a opacidade era a única existência
Por ter escolhido o lado dos republicanos na Guerra Civil, a população de León foi duramente reprimida durante o franquismo, em particular nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial. Com a poesia, AG aprendeu as injustiças da política e da história por observação direta. Com os seus próprios olhos viu a pobreza, miséria e perseguições. Aos poucos, cimentou-se dentro de si uma consciências social, que mais tarde a proibição dos seus livros só veio reforçar. E se nem sempre conseguiu vingar-se em atos, a poesia revelou-se uma boa arma. “A repressão acaba por ter um efeito oposto à vontade do repressor”, garante. “O sofrimento é criador de poesia”.
Foi no final da adolescência, já formado politica e humanamente, que começou a procurar o lado secreto das palavras. Escreveu os seus primeiros poemas, evocativos da infância e da juventude, bem como do papel preponderante da mãe, entre o final da década de 40 e início da de 50. Deu-lhe mais tarde o título de A Terra e os Lábios, outra forma de nomear a dureza da vida e o mistério da linguagem. Mas este livro só seria publicado em 1982, após a transição democrática, quando recuperou, numa antologia poética, todo o seu trabalho.
A sua estreia deu-se, na verdade, em 1960, com Sublevação Imóvel, que não passou desapercebido à crítica mais atenta a novas vozes. Só que o reconhecimento dos pares não apagou a ‘invisibilidade’ que a ditadura impunha. E que a si próprio impôs, sobretudo depois de Blues Castellano ter sido proibido pela censura: durante 17 anos não publicou nenhum livro, tendo inclusivamente passado por períodos em que não ensaiou um só verso. “Estive a carregar baterias”, ironiza. Ou como diria num poema: “O esquecimento entrou na minha língua e não tive outra conduta a não ser a do esquecimento/ (…) Não pude resistir à perfeição do silêncio.” O silêncio, porém, nunca significou passividade. Dedicou-se à dinamização cultural, como diretor do setor de cultura da Província de Leon, divulgando a obra de muitos companheiros de ofício, luta e resistência.
Olhando hoje para trás, AG vê esses tempos como decisivos. Não seria o poeta que é hoje se não estivesse estado totalmente pronto para viver a Transição Democrática Espanhola, iniciada em 1976, e usá-la para revolucionar também a sua poesia. “Morreu o ditador e eu tive uma explosão de força, fruto das energias que acumulei”, conta. “E depois de tantos anos de silêncio sentei-me freneticamente a escrever”. Para um cultor da escrita lenta, da depuração, em poucos meses viu nascer aquele que é considerado um dos seus livros mais importantes, Descrição da Mentira, publicado em 1977. “É crucial no meu percurso”, assegura. “Já não é juvenil, mas o principío de uma etapa definitiva. Sem que me apercebesse, aqueles 17 anos de silêncio modificaram a minha linguagem”.
Surgia então o poeta do verso livre, da prosa poética, da memória, da musicalidade da linguagem (“o que distingue um poeta é a capacidade de pensar ritmicamente”, afirma) e do poder evocativo da palavra.
Durante quinhentas semanas estive ausente dos meus desígnios,/ depositado em nódulos e silencioso até à maldição./ Enquanto durou, a tortura pactuou com as palavras
Intensificar a vida
Calo-me, espero/ até que a minha paixão/ e a minha poesia e a minha esperança/ sejam como aquela que anda pela rua;/ até que possa ver com os olhos fechados/ a dor que já vejo com os olhos abertos
“A poesia tem a sua raiz na vida”, sublinha AG. E tem sido essa a sua matriz. É cultor das palavras exatas, das que iluminam, mas o poema também é, para ele, eco do passado ou espanto pelo presente. Nessa tensão, memória e esquecimento são ideias fundamentais na sua escrita, que depois de 1977 se compôs de obras como Lápides, Livro do Frio, Cecília, Ardem as Perdas ou Canção Errónea, o seu último título, de 2012. E recentemente dedicou-se ao género autobiográfico, no volume Um Armário Cheio de Sombra. “A poesia”, diz-nos, “lembra mas também apaga. Ao criar um poema, sem o saber e sem o querer, o poeta cria uma espécie de câmara de esquecimento para fazer desaparecer outras realidades que podem destruir a realidade do poema. Como qualquer pessoa, sensibilizamo-nos perante a beleza, horrorizamo-nos com a tragédia, indignamo-nos na injustiça. Mas o poeta avança sem projeto, seguindo apenas o que lhe diz a palavra”.
E o que lhe dizem as palavras hoje? Na crise em que Portugal e Espanha vivem, a resposta de Antonio Gamoneda é a responsabilidade do poeta. “Historicamente, a denúncia poética nunca teve muito sucesso. A poesia social não mudou o mundo”, afirma. “Mas intensifica as consciências e a vida”. Essa é, para ele, a semente da mudança. E de qualquer Revolução.
Sei que o único canto,/ o único digno dos cantos antigos,/ a única poesia,/ é a que cala e ainda ama este mundo
*Todos os poemas foram retirados da antologia Oração Fria, que tem seleção, tradução, introdução e posfácio de João Moita