A aldeia de Campo Benfeito fica perdida na Serra de Montemuro, concelho de Castro d’Aire, depois de algumas curvas apertadas e, ao mesmo tempo, deslumbrantes.
As suas casas são de pedra, as pessoas cumprimentam-se à passagem e espantam-se com o nosso enorme veículo, que quase parece desproporcional nestas vielas estreitas.
Mas não estaríamos aqui a escrever se este pedaço de País escondido não tivesse uma particularidade. A seta que nos indica o caminho de Teatro pode levantar suspeitas de que esta não é uma aldeia como as outras.
Certíssimo. Seguindo essa mesma seta encontramos um enorme barracão verde, que à hora de almoço se encontra fechado. Numa segunda tentativa, entramos sem bater (a porta está aberta). “Boa tarde”, gritamos em jeito de cumprimento. Como ninguém aparece para nos receber, avançamos, pé ante pé, seguindo o som das vozes.
Vamos dar ao palco. Estamos em pleno ensaio da peça A Herança de Jeremias, que se estreará nesta 5ª feira, 9, para a população de Campo Benfeito, pela mão do Teatro Regional da Serra de Montemuro.
Percebe-se, ao fim de cinco minutos de ensaio, que a peça é cómica – para um riso fácil. “Para a solitária!” “Isso não, nunca mais faço chichi na cama”, debita-se.
Há uma pequena sanita ao centro do palco. Uma casa, ou algo que se assemelha a isso, serve de retaguarda aos cinco atores que ensaiam. Eduardo Correia, 43 anos, está entre eles. É o diretor artístico da companhia, mas também o veremos em cena neste espetáculo de rua, que andará pelo País. Ou não fosse este um teatro criado na itinerância.
Eduardo Correia foi um dos fundadores. É natural de Campo Benfeito, como os dois irmãos Paulo e Abel Xavier. Quando montaram a companhia fizeram-no ali, por necessidade. Hoje, mais de 10 anos depois, estão na aldeia por opção. “É importante descentralizar”, afirma. Por isso, Eduardo está habituado a andar com a casa às costas – chegar, montar, representar e ir embora. Tanto podem atuar na salinha de uma Igreja, como no Teatro Nacional, em Lisboa.
A companhia só tem três atores permanentes. Quando precisa, recorre a outros, de fora, como é o caso das duas atrizes que estão em cena – uma veio do Porto outra de Viana. Quem fica aqui nos ensaios, opta por alugar casinhas na aldeia para poder estar próximo do trabalho.
Com o apoio que receberam do Ministério da Cultura, responsabilizaram-se a criar dez novas produções em quatro anos. Até agora têm cumprido essa meta. Fazem cerca de 100 apresentações por ano.
Depois da estreia especial, em casa, a peça mete-se à estrada. Próxima paragem: Caldas da Rainha, a 11 de junho.